Vá para Cuba! – Não precisa mandar, já estamos indo
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Quando Roosevelt viu-se perante a legalização das bebidas alcoólicas, em 1933, teve um reassentamento do crime organizado para resolver. Com a Lei Seca, duas coisas aconteceram, o fim do consumo de vinho e cerveja, ao mesmo tempo em que os dois ramos da máfia, judaica e italiana, assumiram o tráfico de bebidas. Cerveja e vinho eram volumosos demais para serem traficados, melhor seria traficar destilados, pois a concentração de álcool é muito maior, consequentemente, o volume transportado muito menor. As máfias, que antes exploravam o lenocínio e a extorsão, viram um mercado escancarado que, mesmo não eliminando o anterior, era bem mais palatável ao cidadão comum, já acostumado a beber. Talvez, essa tenha sido a primeira experiência de apoio popular ao crime organizado, mesmo porque a violência ficava circunscrita à luta por território.
Roosevelt foi salomônico. Com o fim da Lei Seca, na intenção de evitar a violência que a falta de renda traria ao crime organizado, deixou o jogo, mais propriamente Las Vegas, para a máfia judaica, ao passo que Cuba seria a sede da exploração da prostituição, tráfico de drogas, entre outras atividade ilícitas, tudo a cargo da máfia italiana. Meyer ficou em Las Vegas para construir o Hotel Flamingo, enquanto Lucky Luciano mudou-se para Cuba, onde ficou até a revolução de 1959.
A dolarização de nossa economia e as constantes viagens de Flávio Bolsonaro a Fernando de Noronha, sempre tocando no assunto da liberação do jogo, faz pensar que haja uma pressão de organizações criminosas internacionais a fim de dominar, legalmente, o que hoje é ilegal. Não há nada de secreto nesse movimento, que é mesmo uma promessa de campanha do atual presidente. Dia 23 último aprovou-se, na Câmara, o PL442/91, com mais de trinta anos de tramitação, legalizando o jogo. Trata-se de um projeto de lei que aglutina toda a experiência americana com o jogo, exceto sua introdução nas reservas indígenas. É que, nos Estados Unidos, a independência estadual é muito maior que a nossa, o que faz com que haja variações na legislação pertinente. No caso das reservas indígenas de lá, o jogo se apoia na independência territorial a elas concedida. Em outras palavras, o que é crime fora de uma reserva, pode ser legal dentro dela. A inspiração é tão flagrante que até mesmo os barcos-cassino do Mississipi foram transpostos para o PL em votação. Da mesma forma, estão-se legalizando os bingos e introduzindo algo puramente brasileiro, o jogo do bicho, que já nasceu como contravenção.
Não é preciso ser um especialista em tributação para entender, que a lavagem de dinheiro que o jogo propicia, excede largamente os ganhos tributários que ele venha a trazer. Apesar do controle rígido a que a Caixa Econômica está sujeita, alguns políticos conseguiram justificar entradas de dinheiro como sendo sucessivos prêmios em loterias com probabilidade de acerto menores que 1:50 milhões. Imagine-se agora os falsos ganhos em jogos de cassinos, que um contraventor poderá declarar, lavando somas inimagináveis.
Ocorre que esse é um aspecto de um movimento muito maior, que visa transformar o Brasil em Cuba de Juvêncio Baptista em ponto gigante, cuja semelhança com nosso presidente é mais que flagrante, seja no inicial apoio popular, seja na forma com que implantou a família em cargos-chave. A semelhança é ainda clara pelo nível de apoio do governo americano, a quem é total e escandalosamente subserviente.
Outra semelhança é a intenção clara de impor um modelo exportador que beneficia alguns setores da elite nacional, dando-lhe respaldo político. Em cuba, era o açúcar, cujas cotas de exportação para os Estados Unidos garantia uma espécie de monopólio à ilha, enriquecendo os usineiros, que, por sua vez, garantiam o apoio a Baptista. Em troca, o ditador fazia vista grossa a todos os tipos de contravenções e crimes praticados por cidadãos americanos em seu território. A declaração de nosso presidente, em que aceitava a presença de estrangeiros para turismo sexual em nosso território, aliada à isenção de visto para americanos no Brasil, sem contrapartida, evidencia ainda mais a semelhança de “modus operandi” que antecedeu Fidel Castro.
Por causa disso, o Brasil deste governo está se transformando numa Cuba dos anos 1950, mas em ponto muito maior. Não precisa mandar para Cuba, pois já estamos chegando lá.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN
LUCAS A.
3 de março de 2022 3:56 pmO raciocínio do Economista é simplesmente ilógico. Se formos utilizar essa teoria, para quaisquer outros eventos humanos sociais, ela seria insustentável. Vamos proibir a venda de automóveis porque o seu uso causa o aumento dos atropelamentos? Vamos proibir o açúcar porque causa diabetes? A sonegação está ai independente da legalização do jogo. É dever da Receita Federal do Brasil criar os mecanismos de controle que evitem a evasão de divisas e a lavagem de dinheiro.