O presidente estava desconfiado. A secretária de Estado foi persuasiva. Mas a expulsão do coronel Muammar el-Qaddafi deixou a Líbia um estado falido e um refúgio terrorista

Do The New York Times
Hillary Clinton, “poder inteligente” e a queda de um ditador
Por Jo Becker e Scott Shane
Traduzido por Luiz de Queiroz do Jornal GGN
No momento que Mahmoud Jibril passou pela alfândega do aeroporto Le Bourget e correu para dentro de Paris, a secretária de estado americana estava esperando há horas. Mas essa não era uma reunião que Hillary Clinton pudesse cancelar. O encontro poderia decidir se os Estados Unidos iriam novamente para a guerra.
Nos espasmos da Primavera Árabe, o coronel Muammar el-Qaddafi estava encarando uma revolta furiosa de cidadãos líbios determinados a encerrar seu quixotesco comando de 42 anos. As forças do ditador estavam se aproximando de Bengasi, o cone da rebelião, e ameaçando causar um banho de sangue. A França e a Grã-Bretanha estavam instando os Estados Unidos a se juntar a eles na campanha militar para deter as tropas do coronel Qaddafi e agora a Liga dos Estados Árabes também estava pedindo alguma ação.
O presidente Obama estava profundamente preocupado com a ideia de começar outra empreitada militar em um país muçulmano. A maioria dos seus conselheiros sêniores recomendava que ele ficasse de fora. Mesmo assim, ele despachou a senhora Clinton para sondar o senhor Jibril, um líder da oposição líbia. Sua reunião tarde da noite em 14 de março de 2011 seria a primeira oportunidade para um alto oficial americano ter uma noção de quem era, exatamente, que o mundo estava pedindo para os Estados Unidos apoiarem.
Em sua suíte no hotel Westin, ela e o senhor Jibril, um cientista político com doutorado pela Universidade de Pittsburgh, falaram longamente sobre a rápida evolução da situação militar na Líbia. Mas a senhora Clinton claramente estava pensando também no Iraque e na sua dura lição sobre o intervencionismo americano.
Será que a oposição do Conselho Nacional de Transição [NTC, na sigla em inglês] realmente representava o todo de um país profundamente dividido, ou apenas uma região? E se o coronel Qaddafi renunciasse, fugisse ou fosse assassinado, eles realmente tinham um plano para o que viria a seguir?
“Ela estava fazendo todo tipo de perguntas que você possa imaginar”, lembrou o senhor Jibril.
A senhora Clinton foi conquistada. Os líderes da oposição “disseram todas as coisas certas sobre apoiar a democracia e a inclusão e construir as instituições líbias, o que ofereceu alguma esperança de que nós poderíamos conseguir realizar isso”, disse Philip H. Gordon, um dos secretários assistentes de Hillary. “Eles nos falaram o que nós queríamos ouvir. E nós gostaríamos de acreditar”.
A convicção da senhora Clinton seria crítica na hora de persuadir o senhor Obama a se juntar aos aliados nos bombardeios às forças do coronel Qaddafi. De fato, o secretário de Defesa de Obama, Robert M. Gates, diria mais tarde que em uma decisão apertada “51-49”, foi o apoio da senhora Clinton que convenceu o ambivalente presidente.
As consequências seriam mais vastas do que qualquer um teria imaginado, deixando a Líbia um estado falido e um refúgio terrorista, um lugar onde as mais terríveis respostas para as perguntas da senhora Clinton passaram a se realizar.
Essa é a história de uma mulher cujo voto no Senado a favor da guerra do Iraque pode ter condenado sua primeira campanha presidencial e que mesmo assim pagou para ver e pressionou por uma ação militar em outro país muçulmano. Enquanto ela mais uma vez busca a Casa Branca, fazendo campanha em cima de sua experiência como diplomata chefe da nação, uma análise da intervenção que ela capitaneou mostra aquele que foi indiscutivelmente o seu momento de maior influência como secretária de Estado. É um retrato em andamento, rico em evidências sobre o tipo de presidente que ela pode ser, especialmente por sua abordagem expansiva para o grande enigma da política externa de hoje em dia: se, quando, onde e como os Estados Unidos devem manejar seu poderio militar, na Síria e em qualquer outro lugar do Oriente Médio.
Desde os primeiros dias do debate sobre a Líbia, a senhora Clinton foi uma estudante diligente e uma inquisidora implacável, absorvendo longos livros de instruções, convidando visões contrárias de subordinados, estudando as contrapartes estrangeiras para aprender como conquista-las. Ela foi pragmática e se mostrou disposta a improvisar para tentar encontrar a solução definitiva. Mas, acima de tudo, aos olhos de muitos que a observaram de perto, seu histórico na Líbia ilustra como, encarando um dilema de segurança nacional ou de política estrangeira, ela estava inclinada a agir, em contraste marcante com a abordagem mais reticente do senhor Obama.
Anne-Marie Slaughter, sua diretora de Planejamento Político no Departamento de Estado, observou que, em conversas e em seu livro de memórias, a senhora Clinton repetidamente fala sobre querer ser “flagrada tentando”. Em outras palavras, ela preferiria ser criticada pelo que ela fez do que por não ter feito nada.
“Ela é muito cuidadosa e ponderada”, disse a senhorita Slaughter. “Mas quando a escolha está entre a ação e a inação, e existem riscos em qualquer direção – o que acontece frequentemente – ela prefere ser flagrada tentando”.
A análise do The New York Times sobre a intervenção oferece uma contabilidade detalhada sobre como a crença da senhora Clinton no poder da América de fazer o bem no mundo encalhou em um país tribal, sem nenhum governo funcional, com facções rivais e uma quantidade atordoante de armas. O Times entrevistou mais de 50 oficiais americanos, líbios e europeus, incluindo muitos dos atores principais da crise. Praticamente todos concordaram em comentar publicamente a questão. Eles expressaram arrependimento, frustração e em alguns casos desnorteamento sobre o que deu errado e o que poderia ter sido feito diferentemente.
O erro foi a decisão de intervir, para começo de conversa? Ou o prolongamento da missão original de proteger civis para expulsar um ditador? Ou o fracasso de enviar uma força de manutenção da paz depois do conflito?
A senhora Clinton recusou uma entrevista. Mas em público ela disse que ainda é “cedo para dizer” o que vai acontecer na Líbia, e convocou o povo americano para uma abordagem mais intervencionista na Síria.
A queda da Líbia no caos começou com uma decisão apressada de ir para a guerra, tomada no que um alto oficial chamou de “sombra de incerteza” a respeito das intenções do coronel Qaddafi. A missão inexoravelmente evoluiu, mesmo com a previsão da senhora Clinton sobre os perigos de querer derrubar outro homem forte do Oriente Médio. Ela pressionou um programa secreto americano para fornecer armas para as milícias rebeldes, um esforço nunca antes confirmado.
Apenas depois que o coronel Qaddafi caiu e depois que “as endorfinas da revolução” (nas palavras de um diplomata americano) se dissiparam é que ficou claro que os novos líderes da Líbia não estavam à altura da tarefa de unificar o país. O que a campanha da senhora Clinton e do presidente Obama apontou como as provas do sucesso apenas agravaram as divisões na Líbia.
A Líbia, agora, com uma população menor do que o Tennessee, representa uma ameaça desproporcional, para a segurança da região e além, colocando em dúvida se a intervenção preveniu uma catástrofe humanitária ou meramente ajudou a criar uma de outro tipo.
A pilhagem dos vastos arsenais de armas do coronel Qaddafi durante a intervenção alimentou a guerra civil Síria, empoderou grupos terroristas da Nigéria ao Sinai e desestabilizou Mali, onde militantes islâmicos invadiram um hotel Radisson em novembro e mataram 20 pessoas.
Um comércio crescente de seres humanos enviou 250 mil refugiados através do Mar Mediterrâneo, com centenas se afogando no trajeto. Uma guerra civil na Líbia deixou o país com dois governos rivais, cidades em ruínas e mais de quatro mil mortos.
No meio daquela briga, o Estado Islâmico construiu um dos mais importantes postos avançados na costa da Líbia, um reduto para onde recuar depois de bombardeios à Síria e ao Iraque. Com o Pentágono dizendo que o rápido crescimento do contingente do Estado Islâmico agora coloca seus números entre 5 mil e 6.500 soldados, alguns dos altos assessores de segurança nacional do senhor Obama estão pressionando por uma segunda intervenção militar americana na Líbia. Em 19 de fevereiro, aviões de guerra americanos que caçavam um militante tunisiano bombardearam um campo de treinamento no oeste da Líbia, matando pelo menos 41 pessoas.
“Nós tínhamos um sonho”, disse o senhor Jibril, que serviu como o primeiro primeiro-ministro interino da Líbia. “E para ser honesto com você, nós tínhamos uma oportunidade de ouro de trazer esse país de volta à vida. Infelizmente, esse sonho se despedaçou”.
Durante a campanha e durante as implacáveis investigações do Congresso, críticos republicanos usaram uma tragédia singular, o ataque terrorista de 11 de setembro de 2012 ao complexo diplomático dos Estados Unidos em Bengasi, que provocou a morte do embaixador J. Christopher Stevens e três outros americanos, o que caiu como um martelo na antiga secretária de Estado. Enquanto as tentativas de colocar a culpa na senhora Clinton foram largamente frustradas, a nomeação do seu rival para as corridas presidenciais pelo lado democrata, senador Bernie Sanders, de Vermont, mirou em seu papel na ampla narrativa da intervenção líbia; durante um debate recente, ele disse temer que “a secretária Clinton está dedicada demais em realizar mudanças de regimes”.
O presidente Obama disse que o fracasso em fazer mais na Líbia foi sua maior lição em política estrangeira. E Gérard Araud, o embaixador francês das Nações Unidas durante a revolução, está profundamente perturbado pelos desfechos da intervenção de 2011: o Estado Islâmico a apenas “300 milhas da Europa”, uma crise de refugiados que “é uma tragédia humana tanto quanto política” e a desestabilização da maior parte do oeste da África.
“Você tem que fazer uma escolha moral: aceitar um banho de sangue em Bengasi e que Qaddafi permaneça no poder, ou o que está acontecendo agora”, disse o senhor Araud. “É uma questão dura, porque agora os interesses nacionais do Ocidente estão muito impactados pelo que está acontecendo na Líbia”.

Voluntários rebeldes em Bengasi, Líbia, em Março de 2011. A senhora Clinton persuadiu o presidente Omaba a se juntar aos aliados nos ataques aéreos na Líbia, e eventualmente pressionou por um programa secreto para fornecer armas para as milícias rebeldes. Crédito Lynsey Addario para o The New York Times
Uma nova guerra
Era final de tarde em 15 de março de 2011 e o senhor Araud tinha acabado de deixar seu escritório quando o telefone tocou. Era sua contraparte americana, Susan E. Rice, com uma mensagem espinhosa.
A França e a Grã-Bretanha estavam pressionando por um voto no Conselho de Segurança das Nações Unidas a favor de uma restrição do espaço aéreo da Líbia para evitar que o coronel Qaddafi chacinasse seus oponentes. A senhorita Rice estava ligando para recuar, em sua linguagem caracteristicamente apimentada.
“Ela disse, e eu cito, ‘Vocês não vão nos arrastar para essa merda de guerra de vocês’”, disse o senhor Araud, agora embaixador da França em Washington. “Ela disse, ‘Nós vamos acabar sendo obrigados a seguir e apoiar vocês, e nós não queremos isso’. A conversa ficou tensa. Eu respondi, ‘A França não é uma subsidiária dos Estados Unidos’. Era uma política da administração Obama na época que eles não queriam uma nova guerra árabe”.
Nas semanas anteriores, uma série de reuniões de alta cúpula tratou da rebelião crescente, e alguns dos assessores mais jovens da Casa Branca acreditavam que o presidente deveria se juntar aos esforços internacionais.
Mas um time muito mais formidável falou mais alto contra o comprometimento americano na questão, incluindo o vice-presidente Joseph R. Biden Jr.; Tom Donilon, o conselheiro de Segurança Nacional; e o senhor Gates, secretário de Defesa. Eles não queriam desviar a atenção do poderio aéreo americano para fora do Iraque e Afeganistão. Se os europeus estavam tão preocupados com Líbia, eles argumentaram, deixem eles se responsabilizarem pelo seu futuro.
“Eu acho que em algum momento eu falei, ‘Posso terminar as duas guerras que eu já estou lutando antes de vocês irem atrás de uma terceira?’”, lembrou o senhor Gates. O coronel Qaddafi, ele disse, “não era uma ameaça para nós em lugar nenhum. Ele era uma ameaça para o seu próprio povo, e isso era tudo”.

Um soldado líbio com um retrato do coronel Qaddafi em março de 2011. O ímpeto estava crescendo para que os Estados Unidos intervissem militarmente. Crédito Moises Saman para o The New York Times
Alguns oficiais sêniores de inteligência estavam apreensivos com o que poderia acontecer se o coronel Qaddafi perdesse o controle. Em anos recentes, o ditador da Líbia tinha começado a ajudar os Estados Unidos em sua luta contra a Al Qaeda no norte da África.
“Ele era um bandido em um bairro perigoso”, disse Michael T. Flynn, um tenente-general aposentado do Exército que coordenou a Agência de Inteligência de Defesa na época. “Mas ele estava mantendo a ordem”.
Então, havia a secretária Clinton. Desde o começo da presidência do senhor Obama, ela trabalhou duro para ganhar a confiança do homem que levou a melhor sobre ela em uma campanha primária difícil em 2008, e algumas vezes ela demonstrou ansiedade com a ideia de ser cortada do seu círculo íntimo. (Em um email de 2009, ela disse para assessores: “Eu ouvi no rádio que vai haver uma reunião de gabinete esta manhã. Vai mesmo? Posso ir?).
A senhora Clinton havia cultivado um relacionamento próximo com o senhor Gates. Ambos tendiam a ser mais belicosos do que o presidente. Eles levantaram preocupações sobre quão rapidamente ele desejava retirar as tropas do Afeganistão. Mais recentemente, eles haviam argumentado que o senhor Obama não deveria se precipitar em abandonar o apoio a Hosni Mubarak, o arisco líder egípcio a quem a senhora Clinton conhecia desde seus anos como primeira-dama.
Mas eles foram derrotados pelos assessores mais jovens. “Os parlamentares não eleitos” [“backbenchers”, no original em inglês], era como o senhor Gates os chamava. Argumentaram, ele disse, que no embate moral da Primavera Árabe, “Senhor presidente, o senhor tem que estar no lado certo da história”.
Na Líbia, a senhora Clinton teve uma nova oportunidade para apoiar a mudança histórica que tinha acabado de varrer para fora os líderes dos seus vizinhos, o Egito e a Tunísia. E a Líbia parecia um caso tentadoramente fácil – com apenas seis milhões de habitantes, sem divisão sectária e com abundantes reservas de petróleo.
Mas o debate foi aleijado por minutas de inteligência. Altos oficiais do Departamento de Estado estavam ocupados tentando evacuar a embaixada americana, temendo que o líder da Líbia pudesse usar diplomatas como reféns. Não havia informações privilegiadas sobre se, ou em que escala, o coronel Qaddafi ia levar a cabo suas ameaças.
“Nós, os Estados Unidos, não tínhamos uma noção particularmente boa sobre o que estava acontecendo dentro da Líbia”, disse Derek Chollet, um assessor do Departamento de Estado que chegou ao Conselho Nacional de Segurança quando o debate sobre a Líbia começou. Os oficiais americanos estavam muito dependentes de boletins de notícias, ele disse.
A organização Humans Right Watch mais tarde contabilizaria cerca de 350 manifestantes mortos antes da intervenção – não os milhares descritos em algumas contas da mídia. Mas dentro da administração Obama, poucos duvidavam que o coronel Qaddafi faria o que fosse necessário para permanecer no poder.
“Estava claro. Ele teria colocado os tanques em formação e simplesmente caçado as pessoas”, disse David H. Petraeus, general aposentado e antigo diretor da CIA.
Jake Sullivan, principal assessor de política estrangeira da senhora Clinton, que agora está em sua equipe de campanha, disse que a visão dela era de que “nós temos que viver em um mundo de riscos”. Ao avaliar a situação na Líbia, ele disse, “ela não sabia ao certo na época, nem nenhum de nós sabia, o que ia acontecer – apenas que a situação tinha ultrapassado um limiar de risco que exigia que nós olhássemos duramente para a resposta”.
Então, depois de algumas dúvidas iniciais, a senhora Clinton divergiu de alguns dos outros membros sêniores da administração.
A comparação com o senhor Biden foi reveladora. Para o vice-presidente, de acordo com Antony J. Blinken, na época seu conselheiro de segurança nacional e agora vice-secretário de Estado, a lição do Iraque era crucial – “O que Biden chamou não de o dia seguinte, mas de a década seguinte”.
“Qual é o plano?” o senhor Blinken prosseguiu. “Vai haver algum tipo de vácuo. Como ele vai ser preenchido? E o que nós estamos fazendo para preenchê-lo?”. O adágio sobre o Iraque do antigo Secretário de Estado Colin Powell ecoou fortemente: “se você quebrar, você tem que comprar”.
Mais decisivos para a senhora Clinton foram dois episódios da presidência do seu marido. O fracasso americano em prevenir o genocídio em Ruanda em 1994, e o sucesso, ainda que tardio, em reunir uma aliança militar para prevenir o derramamento de sangue ainda maior depois que oito mil muçulmanos foram massacrados em Srebrenica durante a Guerra da Bósnia.
“Ruanda foi importante porque mostrou o preço da inação”, disse James B. Steinberg, que serviu como vice da senhora Clinton ao longo de julho de 2011. “Mas eu acho que a razão de Bósnia e Kosovo terem surgido com tanta importância foi porque eles demonstraram que havia maneiras de ser eficiente e havia lições sobre o que funcionava e o que não funcionava”.

A senhora Clinton com o presidente Nicolas Sarkozy, da França, em Paris, em 19 de março de 2011, dois dias depois da resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas autorizar “todos os meios necessários” para proteger os civis líbios. O senhor Sarkozy disse a ela que aviões de caça franceses já estavam no ar. Crédito Pool, fotografada por Lionel Bonaventure
“Nós vamos ser deixados para trás”
Na mesma tarde de março, quando a embaixadora Rice estava dizendo aos seus colegas franceses nas Nações Unidas para recuar, o presidente Obama e seu gabinete de segurança estavam reunidos na sala de situação da Casa Branca. Falando por vídeo, do Cairo, estava a senhora Clinton, recém-chegada de Paris.
No dia anterior, no almoço com o presidente Nicolas Sakozy, da França, ela “foi durona, ela foi otimista”, com a ideia de uma intervenção na Líbia. O “aliado perfeito”, lembrou o conselheiro diplomático sênior do senhor Sarkozy, Jean-David Levitte.
Mas dessa vez a senhora Clinton não pressionou diretamente o senhor Obama a intervir na Líbia. Nem sequer ela fez uma defesa moral apaixonada, de acordo com várias pessoas presentes na sala.
Ao invés disso, ela descreveu o senhor Jibril, o líder da oposição, como impressionante e razoável. Ela transmitiu sua surpresa ao perceber que os líderes árabes não apenas apoiavam a ação militar, mas, em alguns casos, estavam dispostos a participar. Mas principalmente, ela alertou que a França e a Grã-Bretanha iriam prosseguir com ataques aéreos próprios, potencialmente requerendo que os Estados Unidos se envolvessem futuramente se as coisas corressem mal.
Dennis B. Ross, na época um especialista sênior no Conselho de Segurança Nacional, se lembrou de ter ouvido ela e pensado. “Se ela está advogando, ela está advogando de uma maneira bastante esperta”.
Ele se recordou de ouvi-la dizendo: “Vocês não vêem qual é o clima aqui, e como tudo isso tem um ímpeto próprio. Nós vamos ser deixados para trás e assim seremos menos capazes de controlar isso”.
A percepção da senhora Clinton sobre uma frente unificada europeia e árabe influenciou poderosamente o senhor Obama. “Porque o presidente nunca teria feito isso por conta própria”, disse Benjamin J. Rhodes, vice-conselheiro de Segurança Nacional.
O senhor Gates, entre outros, pensaram que o apoio da senhora Clinton foi decisivo. O senhor Obama depois disse a ele, em um encontro privado no Salão Oval, que a decisão sobre a Líbia foi “51-49”.
“Eu sempre considerei que o apoio de Hillary a uma missão mais ampla na Líbia colocou o presidente no lado dos 51 favoráveis a uma abordagem mais agressiva”, disse o senhor Gates. Se os secretários de Estado e de Defesa tivessem ambos sido contrários à guerra, ele e outros dizem, a decisão do presidente poderia ter sido politicamente impossível.
Tendo decidido agir, o senhor Obama questionou os líderes militares sobre a eficiência de um espaço aéreo restrito, a solução favorecida pelos europeus. Quando eles lhe disseram que isso não poderia impedir um massacre, o senhor Obama orientou sua equipe a esboçar uma solução nova e mais dura para as Nações Unidas.
Mais tarde naquela noite, o senhor Araud, o diplomata francês, ficou atônito de receber uma segunda ligação da senhorita Rice: os Estados Unidos não iriam apenas apoiar uma intervenção, mas queriam o apoio das Nações Unidas para mais do que uma restrição de espaço aéreo. O senhor Aroud disse que a reviravolta foi tão chocante para ele e sua contraparte britânica que a princípio eles suspeitaram que fosse um truque.
Restava apenas um obstáculo real: a Rússia poderia bloquear a resolução do Conselho de Segurança com um veto. A senhor Clinton havia feito seu melhor para desenvolver uma relação com o líder russo Vladimir V. Putin, ouvindo às suas histórias sobre rastrear ursos polares e perseguir tigres siberianos.
“A teoria dela sobre Putin é que se trata de uma pessoa com algumas paixões – se você demonstrar interesse nessas paixões, sua capacidade de lidar com ele é aprimorada”, disse uma assessora da senhora Clinton.
Mas a relação permaneceu difícil, e a secretária de Estado brigava constantemente com sua contraparte russa, Sergey V. Lavrov, que, de acordo com o que a senhora Clinton escreveu em seu livro de memórias “Escolhas Difíceis”, inicialmente estava “determinado a se posicionar contra uma restrição de espaço aéreo”.
“Nós não queremos outra guerra”, ela disse ao senhor Lavrov, salientando que a missão estava limitada à proteção de civis.
“Eu levo em conta o que você diz sobre não estar perseguindo outra guerra”, ela se lembra de ele ter respondido. “Mas isso não quer dizer que você não vai encontrar uma”.
No fim, a senhora Clinton reconheceria que o próprio coronel Qaddafi a ajudou a ganhar os russos, ao fazer um discurso inflamado pouco antes da votação do Conselho de Segurança, chamando seus oponentes de “os ratos” e jurando caça-los “casa por casa, beco por beco”.
Em 17 de março, dez membros do Conselho de Segurança votaram por uma resolução autorizando “todos os meios necessários” para proteger os civis da Líbia. Cinco países, incluindo a Russia, se abstiveram.
Dois dias depois, o senhor Sarkozy se encontrou com a senhora Clinton e David Cameron, o primeiro-ministro britânico, no Élysée Palace, em Paris, para discutir o movimento seguinte. O presidente francês enfatizou que dentro de um dia ou dois, as tropas do coronel Qaddafi estariam dentro de Bengasi, se misturando com civis, tornado difícil ou impossível usar ataques aéreos contra eles.
Então, ele jogou seu trunfo. Aviões de caça franceses já estavam no ar, ele disse. E acrescentou: “essa é uma decisão coletiva e eu posso chama-los de volta se vocês quiserem”, disse o senhor Levitte. A manobra do senhor Sarkozy avançou abruptamente o timing da operação, mas apesar de toda a irritação da senhora Clinton, ela não estava preparada para contestar.
“Não serei eu a chamar de volta os aviões e criar o massacre de Bengasi”, ela resmungou para um assessor. E o bombardeio começou.

Um corpo é carregado das ruínas de uma casa em Tripoli, na Líbia, depois de um ataque aéreo da OTAN em junho de 2011. Crédito Moises Saman para o The New York Times
Fracassos da diplomacia
Por volta do mesmo tempo que a campanha aérea começou, Charles R. Kubic, um contra-almirante aposentado, recebeu a mensagem de um militar sênior líbio propondo negociações de militar para militar por um cessar fogo de 72 horas, possivelmente levando a uma saída arranjada para o coronel Qaddafi e sua família.
Mas depois que ele abordou o comando militar americano na África, o contra-almirante Kubic disse que foi orientado a encerrar as discussões. As ordens, disseram para ele, vieram de “fora do Pentágono”, apesar de assessores tanto do senhor Obama quanto da senhora Clinton terem dito que as ofertas nunca chegaram ao seu nível hierárquico. Ele ficou desconcertado com a falta de interesse em explorar uma opção que poderia levar a uma transição menos sangrenta.
“A pergunta que eu carrego comigo é: por que vocês não passam 72 horas dando uma chance à paz?”, ele disse.
A resposta, pelo menos em parte, era que os dois lados tinham começado as crise em posições de desconfiança mútua.
Nas semanas que levaram à intervenção, assessores do coronel Qaddafi procuraram possíveis intermediários, incluindo o general Wesley K. Clark, que serviu como comandante da OTAN sob a chefia do marido da senhora Clinton e de Tony Blair, o antigo primeiro-ministro britânico e amigo de longa data dos Clinton. Diplomatas, representando as Nações Unidas, a União Africana e meia dúzia de países, discutiram as chances, embora remotas, de uma solução política. Até o multimilionário russo que comandava a Federação Mundial de Xadrez acabou envolvido.
Havia uma “proliferação de emissários”, disse o senhor Chollet, que monitorava esses intercâmbios do Conselho de Segurança Nacional.
Os americanos não acreditaram que a pretensão dos líbios de falar por seu líder pudesse realmente garantir uma transferência pacífica de poder. Eles pensavam que o coronel Qaddafi simplesmente usaria um cessar fogo como uma oportunidade para reagrupar.
“Na minha visão, nunca houve uma oferta séria do Qaddafi de renunciar ao poder”, disse Gene A. Cretz, que antecedeu o senhor Stevens como o embaixador americano na Líbia. “Eu acredito firmemente que nenhum daqueles personagens em volta dele jamais tiveram a presença de espírito de levantar a questão pessoalmente”.

O caos na Líbia deixou cidades em ruínas: Misurata em setembro de 2011. Crédito Bryan Denton para o The New York Times
Para o líder Líbio e o seu círculo íntimo, episódios como o que o contra-almirante Kubic descreveu eram prova de que os americanos não tinham intenção de negociar, disse Mohamed Ismail, um alto assessor do filho do coronel Qaddafi, Seif, e frequente emissário ao ocidente. “Eles só queriam se ver livres do Qaddafi”.
Os líbios viram a ameaça de intervenção não como um ato nobre para salvar vidas, como a senhora Clinton retratou, mas de uma forma muito mais sombria. Afinal de contas, o coronel Qaddafi, temendo o mesmo destino de Saddam Hussein, abandonou seu programa nuclear e passou a compartilhar inteligência com a CIA na luta contra a Al Qaeda. A senhora Clinton já havia pessoalmente recepcionado um dos filhos do líder no Departamento de Defesa em 2009.
Agora o coronel Qaddafi via uma traição profunda, ingratidão e vingança mercantil. Ele blasfemava para qualquer um que estivesse disposto a ouvir que ele era o único baluarte da Líbia contra o extremismo, que sem ele o país iria se tornar um refúgio terrorista.
Em uma complicação posterior, o Conselho de Segurança das Nações Unidas havia votado recentemente para encaminhar os ataques contra manifestantes para o Tribunal Penal Internacional [ICC, na sigla em inglês], de forma que tanto o líder quanto seu círculo íntimo poderiam sofrer acusações se ele cedesse o poder.
“Nós estávamos abertos a compartilhar o poder. Mas no minuto que aconteceu, ficou difícil de seguir adiante”, disse o senhor Ismail. Um alto diplomata americano concordou, dizendo que a ameaça de processo “socou o Seif contra a parede”.
Ao longo dos anos, o senhor Ismail observou, o coronel Qaddafi certamente encontrou maneiras de ofender praticamente todos os países agora aliados contra ele. Ele financiou oponentes políticos e foi acusado de conspirar para assassinar o rei saudita. E, o senhor Ismail disse, ele havia recentemente renegado acordos de petróleo e armas com os britânicos e os franceses.
Além disso, havia o Líbano e a questão do sequestro do clérigo xiita.
Nos idos de 1978, um reverenciado imam libanês, Moussa al-Sadr, desapareceu enquanto visitava a Líbia. O Líbano suspeitava de um crime, provavelmente envolvendo o governo. Mas o mistério nunca havia sido definitivamente solucionado.
Em uma entrevista ao Times, o senhor Ismail confirmou as suspeitas dos libaneses. “Nós dissemos que ele partiu em direção à Itália”, disse o senhor Ismail para o senhor Sadr. Mas era uma mentira.
“Ele foi assassinado”, o senhor Ismail disse, oferecendo uma explicação friamente sucinta: “Houve uma discussão com o líder”.
O senhor Ismail disse que descobriu sobre o destino do clérigo muito tempo depois do fato, e salientou que a família do coronel Qaddafi, incluindo um filho agora aprisionado no Líbano, não teve nenhum envolvimento ou conhecimento no caso.
O corpo do clérigo, ele disse, foi jogado no mar.

Coronel Qaddafi em 2 de março de 2011. Antes de ser derrubado, ele disse que sem ele a Líbia se tornaria um refúgio terrorista. Crédito Moises Saman para o The New York Times
A mudança da missão
No início, o presidente Obama declarou que o coronel Qaddafi havia perdido sua legitimidade e precisava ir embora. Mas o presidente foi cuidadoso em apontar que esse era o posicionamento político da administração, não seu objetivo militar.
“Nós não vamos utilizar a força para ir além de um objetivo bem definido, especificamente, a proteção dos civis na Líbia”, ele disse. A senhora Clinton ecoou a fala cinco dias depois que a resolução do Conselho de Segurança foi adotada. “Não há nada ali sobre se livrar de ninguém”, ela disse à ABC News.
O presidente direcionou o Pentágono a usar sua capacidade militar única para deter o temido massacre e, em dez dias, entregar a operação para os aliados europeus e árabes. Um assessor anônimo descreveu essa abordagem como “liderar da retaguarda”, o que deu aos oponentes republicanos do presidente um argumento duradouro para usar. Mas o senhor Obama estava rigidamente decidido de que a Líbia não se tornaria mais uma prolongada guerra americana.
De fato, seu objetivo limitado foi alcançado mais rápido do que o planejado. “Nós basicamente destruímos as defesas aéreas de Qaddafi e detivemos o avanço de suas forças em apenas três dias”, lembrou o senhor Rhodes, vice-conselheiro de Segurança Nacional.
Mas a missão rapidamente evoluiu de proteger civis em Bengasi para proteger civis onde eles estivessem. Enquanto a rebelião se intensificava e espectadores se tornavam combatentes, o final do jogo se tornava cada vez mais incerto. Os Estados Unidos e seus aliados estavam cada vez mais sendo puxados para um lado da briga, sem um debate extenso sobre o que essa mudança pressagiava.
“Eu não consigo me lembrar de nenhuma decisão específica que dizia ‘Bem, vamos simplesmente derrubá-lo’”, disse o senhor Gates. Publicamente, ele disse, “a ficção foi mantida“ de que o objetivo estava limitado a desabilitar o comando e controle do coronel Qaddafi. De fato, o antigo secretário de Defesa disse, “Eu não acho que tenha passado um dia sequer sem que as pessoas tenham torcido para que ele estivesse dentro de um daqueles centros de comando e controle”.
Dois dos altos conselheiros da senhora Clinton disseram em entrevistas que eles nutriam desconfianças sobre a intervenção precisamente por causa do medo de que a aliança não seria capaz de deixar de atuar tão logo o regime mudasse, sem nenhuma habilidade para gerenciar as consequências.
Um era o senhor Gordon, o secretário assistente. O outro era Jeremy Shapiro, que cuidava da Líbia na equipe de Planejamento Político da senhor Clinton.
O senhor Shapiro disse que expressou suas preocupações ao alto assessor Político da senhora Clinton, o senhor Sullivan. “Uma vez que você entra numa briga onde você basicamente diz ‘Nós temos que impedir esse louco de matar dezenas de milhares de pessoas em seu próprio país’, como você sai dela?”, disse o senhor Shapiro.
“Em última análise, a lógica se torna, Jesus, o regime Qaddafi coloca uma ameaça real à vida dos civis”, ele acrescentou. “Não precisou de nada para chegar a isso. Teria sido necessária uma incrível força de vontade para que não chegasse”.
Considerações militares práticas também complicaram a estratégia do senhor Obama de entrar e sair. Apesar de ele ter dito que os Estados Unidos forneceriam apenas suas capacidades únicas que os aliados não possuíam, acabou que isso era bastante coisa: um suprimento contínuo de munições de precisão, operações de combate de busca e resgate, e vigilância, disse o senhor Petraeus.
Em abril, o presidente tinha autorizado o uso de drones e, de acordo com um comandante rebelde sênior, agentes da CIA começaram a visitar acampamentos rebeldes “fornecendo interceptações sobre as movimentações das tropas de Qaddafi”.
A escalada exponencial seguia contra os instintos do senhor Obama e ele fez tudo relutantemente, disse o senhor Ross, o antigo oficial do Conselho Nacional de Segurança. A senhora Clinton, ele disse, estava menos preocupada que “cada passo nos colocava mais à beira de uma encosta escorregadia”.
“A visão dela era de que nós não podíamos falhar nisso”, o senhor Ross disse. “Uma vez que tínhamos tomado uma decisão, nós não poderíamos falhar”.

Uma bomba caseira na mão em um soldado rebelde em Brega, Líbia, em 2011. Oficiais da inteligência americana estavam preocupados com o que ia acontecer com o país caso o coronel Qaddafi perdesse o controle. Crédito Tyler Hicks/ The New York Times
Armando os rebeldes
Quando o senhor Jibril e sua comitiva líbia apareceram em Roma em maio para uma reunião com a senhora Clinton, eles esperavam participar de uma conversa de dez minutos. Ao invés disso, conversaram por quase uma hora.
Os líderes da oposição já haviam dado a ela uma folha em branco onde exibiam um futuro espetacular: partidos políticos competiriam em eleições abertas, uma mídia livre manteria os líderes na linha e os direitos das mulheres seriam respeitados.
Em retrospecto, o senhor Jibril reconheceu em uma entrevista que se tratava de um “ideal utópico” bastante distante da realidade na Líbia. Mas a senhora Clinton estava entusiasmada, de acordo com os presentes, e agora ela queria falar em profundidade sobre como transformar a visão em realidade.
“Ela disse, e eu me lembro disso, ‘vamos pensar juntos, fazer um brainstorm, sobre a Líbia’”, disse Mahmud Shammam, porta-voz chefe do conselho rebelde.
Os líderes da oposição queriam algo mais imediato. Eles queriam armas.
A despeito das centenas de ataques aéreos da aliança, a luta havia chegado a um impasse. Sempre que os rebeldes ganharam algum terreno, as forças do governo retomavam. Os rebeldes pareciam incapazes de ir além de Brega, um velho porto no caminho a Tripoli, e eles esperavam que armamentos mais sofisticados dos americanos pudessem pender a balança.
A secretária de Estado os ouviu. Ela “estava muito paciente, muito encantadora”, disse o senhor Shammam. “Todo o tempo ela sorria”. Ao fim, no entanto, ela objetou.
Mas de volta a Washington, onde estava se instalando um pequeno pânico com o impasse da luta, a senhora Clinton apresentou a conjetura dos rebeldes, de acordo com três oficiais sêniores da Casa Branca e dois do Departamento de Estado que estiveram envolvidos na discussão secreta.
O envolvimento militar americano que o senhor Obama esperava ter reduzido depois de dez dias havia se arrastado por meses, e o apoio político estava minguando. Alguns membros do Congresso estavam ultrajados com o fracasso da administração de conseguir aprovação depois de 60 dias, como o Ato de Poderes de Guerra [War Powers Act no original em inglês] parecia exigir.
Pessoas que outrora advogavam pela intervenção, incluindo a senhorita Slaughter, a antiga diretora de planejamento político da secretária, estavam desiludidas pelos abusos de direitos humanos dos rebeldes.
“Nós não tentamos proteger os civis que estavam do lado de Qaddafi”, disse a senhorita Slaughter, que na época pedia por um acordo no qual o coronel Qaddafi entregasse o poder para um de seus filhos.
A aliança internacional que a senhora Clinton costurou também estava se desemaranhando. A Rússia acusou os Estados Unidos e seus aliados de propaganda enganosa, e a Liga dos Estados Árabes pedia por um cessar fogo e um entendimento entre as partes.
“Mudança de regime, isso não é da nossa conta de jeito nenhum” Amr Moussa, que chefiava a organização na época, disse em uma entrevista.
“Houve um momento, por volta de junho ou julho”, lembrou o senhor Shapiro, o conselheiro político para a Líbia do Departamento de Estado, “em que a situação no solo pareceu ter chegado a um impasse e nós não tínhamos certeza se estávamos vencendo, ou pelo menos vencendo suficientemente rápido”.
Além disso, a estratégia dos Estados Unidos de deixar outros países armarem a oposição estava saindo pela culatra, criando um desequilíbrio no poder regional que poderia voltar para assombrar a Líbia caso os rebeldes vencessem.
Ao longo da primavera, a administração efetivamente se fez de cega enquanto o Qatar e os Emirados Árabes Unidos abasteceram os rebeldes com assistência letal, de acordo com o senhor Gates e outros. Mas a senhora Clinton foi ficando cada vez mais preocupada, pois o Qatar, em particular, estava enviando armas apenas para algumas facções rebeldes: milícias da cidade de Misurata e brigadas islâmicas selecionadas.
Ela mal podia dizer para o Qatar se retirar, já que os Estados Unidos não estavam dispostos a entrar com assistência letal própria. Um assessor do Departamento de Estado disse, “porque a reposta deles ia ser, ‘bem, aqueles caras precisam de ajuda, e vocês não estão ajudando’”. A visão dela, frequentemente retransmitida ao seu pessoal, era de que para ter influência com a oposição rebelde e com os aliados árabes, você precisava estar “com a pele em jogo”, disse o senhor Ross.
O antigo presidente Bill Clinton disse publicamente em abril de 2011 que os Estados Unidos não deveriam descartar a hipótese de armar a oposição, e em seus e-mails com o senhor Sullivan, seu conselheiro político, a senhora Clinton discutiu a ideia de usar agentes privados para fazer exatamente isso. O senhor Ross, falando francamente, disse que ela frequentemente consultava o marido: “Eu dizia, ‘Isso é o que eu acho que devemos fazer’. E ela respondia, ‘Foi isso que o Bill disse também’”.
Agora a senhora Clinton se posicionava de uma forma que um alto conselheiro chamou de “o lado ativista” do debate sobre se eles deveriam ou não se opor ao Qatar, armando lutadores mais laicos.
“Se vocês não o fizerem”, o senhor Ross se lembrou de ela argumentar, “não importa o que aconteça suas opções vão diminuir, sua influência vai diminuir e, portanto, sua habilidade de influenciar qualquer coisa lá também vai diminuir”.
Mas outros oficiais sêniores estavam mais cautelosos. O comandante supremo aliado da OTAN, almirante James G. Stavridis, falou ao Congresso sobre “centelhas” da Al Qaeda dentro da oposição. O senhor Donilon, conselheiro de Segurança Nacional do senhor Obama, argumentou que a administração não podia se assegurar de que armas destinadas aos “assim chamados mocinhos”, como um oficial do Departamento do Estado colocou, não fossem cair nas mãos de radicais islâmicos.
De fato, havia razões para preocupação. O próprio senhor Jibril descreveu em uma entrevista como um carregamento francês de mísseis e metralhadoras acabou dando errado. Em uma reunião em junho, o presidente Sarkozy concordou em “pedir aos nossos amigos árabes” para abastecer o Conselho Nacional de Transição com as armas, disse o senhor Jibril. Mas, ele contou, o ministro de Defesa em exercício desviou elas para uma milícia liderada por Abdel Hakim Belhaj, um militante islâmico que durante algum tempo havia sido mantido encarcerado em uma prisão secreta da CIA.
A senhora Clinton entendeu os riscos, mas também pesou o custo da inação, assessores disseram. Eles a descreveram como uma pessoa confortável em usar a intuição para sair de um problema quando não há certeza sobre o desfecho.
No fim das contas o presidente Obama ficou ao lado dela, de acordo com os oficiais da administração que descreveram o debate. Depois que ele assinou um documento confidencial, chamado constatação presidencial [presidential finding, no original em inglês], autorizando uma operação secreta, uma lista do arsenal aprovado foi elaborada. Os carregamentos providenciados pelos Estados Unidos e outros países do ocidente geralmente chegavam pelo porto de Bengasi e aeroportos no leste da Líbia, disse um comandante rebelde líbio.
“Veículos blindados, radares de rastreamento de artilharia, mísseis de controle remoto, era a mais alta tecnologia que nós estávamos oferecendo”, lembrou um oficial do Departamento de Defesa. “Nós definitivamente estávamos dando assistência letal. Nós ultrapassamos aquela linha”.
Impelido, em parte pela decisão de armar os rebeldes, o Departamento de Estado reconheceu o Conselho Nacional de Transição como “a autoridade legítima de governo na Líbia”. A senhora Clinton anunciou a decisão em 15 de julho, em Istambul.
“Naquele mesmo dia, nossas tropas começaram a entrar em Brega”, lembrou o senhor Shammam. “Nós dissemos isso para a senhora Clinton e ela respondeu – eu me lembro de vê-la sorrindo – ‘Bom! Essa é a única linguagem que o Qaddafi está entendendo’”.

Um rebelde líbio no topo de uma escultura de um punho cerrado em volta de um avião de guerra americano em 23 de agosto de 2011, depois que as forças da oposição invadiram o complexo de Qaddafi. Crédito Bryan Denton para o The New York Times
“Os dias de Qaddafi estão contados”
Um mês depois, a secretária Clinton apareceu na Universidade de Defesa Nacional com Leon E. Panetta, que recentemente substituiu o senhor Gates como secretário de Defesa. Ela aclamou a intervenção como um estudo de caso sobre “poder inteligente”.
“Pela primeira vez nós temos uma aliança entre a OTAN e os Árabes realmente agindo. Você tem países árabes que estão executando ações de ataque”, ela disse. “Esse é exatamente o tipo de mundo que eu quero ver, onde não são apenas os Estados Unidos agindo sozinhos e o resto do mundo à margem, enquanto nós suportamos o custo, enquanto nós suportamos o sacrifício”.
O senhor Panetta falou de uma “noção de que os dias de Qaddafi estão contados”.
Seis dias depois, em 22 de agosto, os esforços acumulados da aliança internacional deram frutos quando, exuberantes, os rebeldes invadiram o complexo de Qaddafi em Tripoli. O ditador ainda estava em liberdade, mas seu reinado estava terminado.
Um velho amigo e conselheiro político da senhora Clinton, Sidney Blumenthal, que regularmente encaminhou para ela conselhos políticos e relatórios de inteligência na Líbia com fontes indeterminadas, a instigou a começar a tirar proveito da queda do ditador.
“Brava!”, exclamou o senhor Blumenthal. Como sempre, ele estava pensando nas ambições presidenciais da senhora Clinton. “Você deve aparecer para as câmeras. Você deve se consagrar no registro histórico desse momento”. Ela deveria se certificar de usar a frase “estratégia bem sucedida”, ele escreveu. “Você está legitimada”.
Fernando G Trindade
11 de março de 2016 6:55 pmPara os que querem conhecer
Para os que querem conhecer mais a faceta ‘libertadora’ da Srª Clinton na Líbia (depois do Iraque).
De interessante artigo transcrito no ‘coletivo vila vudu’
http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=17383
Trecho:
“Aquela mudança de regime veio afinal em outubro de 2011 com o assassinato de Gaddafi, linchado por “rebeldes islamistas apoiados pelos EUA. Depois de assistir a um vídeo no BlackBerry de um assessor, da tortura e morte do líder líbio, com requintes horrendos de crueldade, La Clinton festejou: “Uau!”
Em vídeo para sempre infame, vê-se a atual aspirante à presidência dos EUA virar-se para alguém que a entrevista e dizer “Viemos, vimos, ele morreu!” Na sequência, ri, cacarejante.”
Para acessar o vídeo https://www.youtube.com/watch?v=Fgcd1ghag5Y
José Muladeiro
12 de março de 2016 12:13 pmOutra história que precisa ser melhor contada..
foi a intervenção da Senhora Clinton na Ásia, com suas influências sobre Vietnan, Filipinas e Japão, procurando desastabilizar as fronteiras Chinesas. Ela só não criou mais um incidente bélico porque os líderes Chineses souberam como agir no sentido de evitar o seu isolamento dos vizinhos. Esta mulher presidente dos Estados Unidos representa um perigo para a paz mundial.