Pouco Importa a Importação Americana
por Fernando Nogueira da Costa
A cacofonia é proposital. Em 2024, só 1,3% da importação norte-americana era de produtos brasileiros, em 18º. lugar no ranking. México (15,5%), China (13,4%) e Canadá (12,6%) são as maiores origens das importações dos EUA. Concentram 41,5% do total. Em seguida vem a Alemanha com 4,9% e Japão com 4,5%. Todos esses representam a metade da origem das importações americanas.
Em 2024, as importações feitas nos EUA aumentaram US$ 253,3 bilhões ou 6,6%, totalizando US$ 4.110 bilhões. Com um PIB de US$ 29 trilhões, representaram 14%.
Seu déficit comercial foi de -US$ 1,234 trilhão. Considerando seu superávit em serviços, no balanço de transações correntes o déficit foi -US$ 1,032 trilhão ou -3,5% do PIB. Por ser o maior no mundo, Trump entrou em pânico e reagiu mal!
Na realidade, as dez maiores economias em termos de PIB têm baixo grau de abertura externa e uma dependência maior do mercado interno em lugar da demanda externa (exportação) diante seus PIBs. Há um padrão estrutural claro: essas maiores economias, considerando as europeias em bloco comercial, tendem a ter uma menor relação da soma das exportações com importações como proporção do PIB – e isso indica uma maior dependência da demanda interna.
| País | PIB (US$ trilhões) | Exportações/PIB (%) | Grau de Abertura (%) | Ponto-chave |
| EUA | 29 | ~11% | ~25% | Forte mercado interno, baixa dependência externa |
| China | 18 | ~20% | ~37% | Maior exportadora mundial, mas enorme mercado interno |
| Alemanha | 4.7 | ~47% | ~83% | Altíssima dependência externa (export–led) |
| Japão | 4.1 | ~18% | ~45% | Economia interna robusta |
| Índia | 3.9 | ~20% | ~45% | Mercado interno em ascensão |
| Reino Unido | 3.6 | ~30% | ~64% | Aberta, mas com desindustrialização parcial |
| França | 3,2 | ~30% | ~71% | Dependência da UE |
| Itália | 2.4 | ~32% | ~66% | Exportações para UE |
| Canadá | 2.2 | ~33% | ~67% | Alta dependência comercial, especialmente com os EUA |
| Brasil | 2.2 | ~20% | ~34% | Abertura moderada, vulnerável à pauta primária, mas mercado interno forte |
Somando mais cinco economias grandes – Rússia (US$ 2,1 trilhões), Coreia (US$ 1,9 trilhão, México (1,8 trilhão), Austrália (US$ 1,8 trilhão) e Espanha (US$ 1,7 trilhão) –, essas 15 maiores economias somam seus PIBs em US$ 83 trilhões ou 75% do total mundial (US$ 110 trilhões). Somente a dos EUA é 26,5% do total.
Em 2023, a abertura externa (Exportação + Importação / PIB) dessas economias foi: Rússia 42%, Coreia 88%, México 73%, Austrália 49%, Espanha 72%. Portanto, as economias com menor abertura externa, entre as 15 maiores, foram pela ordem: Estados Unidos (25%), Brasil (34%) e China (37%), por causa de seus PIBs terem sido gerados predominantemente em seus mercados internos.
A Índia tem 17,9% da população mundial e a China 17,7%. São seguidas pelos Estados Unidos com 4,2%. O Brasil com a sétima maior população possui 2,7% da total. A Rússia tem 1,8%, o México 1,6%, Japão 1,56% e Alemanha (1%) em 19º. lugar. A força de trabalho e o número de consumidores são trunfos de cada qual.
As maiores economias (EUA, China, Índia, Japão), exceto a germânica, têm mercados internos de grande escala populacional e renda, sendo o PIB fortemente influenciado pelo consumo doméstico e investimento interno. Isso reduz a dependência das exportações e oferece resiliência a choques externos.
No caso da China, embora seja a maior exportadora mundial, a participação do mercado doméstico no PIB cresceu muito nos últimos anos. Tem menor dependência do mercado externo.
As potências exportadoras europeias (Alemanha, Reino Unido, França e Itália) são economias com forte base industrial e menor população. Tendem a compensar sua escala com alta especialização exportadora. Alemanha é o arquétipo da economia export-led, cuja vulnerabilidade aumenta quando a demanda externa global cai.
São considerados periféricos industriais e primário-exportadores o Brasil e o Canadá. No caso brasileiro, sua demanda externa depende mais de commodities (petróleo, soja, minério etc.) ou produtos específicos como os semiacabados de ferro e aço (1,4% do total), automóveis (1,3%) e aeronaves (1,3%). Mas a abertura externa brasileira é metade da canadense, ou seja, o Canadá é mais vulnerável a choques nos termos de troca e volatilidade internacional.
Portanto, há o paradoxo da escala: as maiores economias têm escala interna suficiente para crescer com menor dependência externa. Isso permite maior autonomia em política econômica, especialmente fiscal e industrial. Por sua vez, países médios e pequenos se especializam para competir via exportações e isso os torna mais sensíveis a instabilidades externas.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
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Enoch Ataide
9 de abril de 2025 7:45 pmO entendi dessa explanação? É que os países como china e brasil, não são imunes às taxas cobradas por Trump mas que estão baseados em seus próprios mercados a china ficou rica vendendo produtos baratos e de pouca tecnologia empregada, isso logo no começo, pelas décadas de 80 e 90 agora começa a ameaçar os EUA com produtos sofisticados e de alta tecnologia é de esperar pra ver o que vai acontecer nos próximos capítulos.