20 de junho de 2026

Pouco Importa a Importação Americana, por Fernando Nogueira da Costa

As maiores economias (EUA, China, Índia, Japão), exceto a germânica, têm mercados internos de grande escala populacional e renda
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Pouco Importa a Importação Americana

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por Fernando Nogueira da Costa

A cacofonia é proposital. Em 2024, só 1,3% da importação norte-americana era de produtos brasileiros, em 18º. lugar no ranking. México (15,5%), China (13,4%) e Canadá (12,6%) são as maiores origens das importações dos EUA. Concentram 41,5% do total. Em seguida vem a Alemanha com 4,9% e Japão com 4,5%. Todos esses representam a metade da origem das importações americanas.

Em 2024, as importações feitas nos EUA aumentaram US$ 253,3 bilhões ou 6,6%, totalizando US$ 4.110 bilhões. Com um PIB de US$ 29 trilhões, representaram 14%.

Seu déficit comercial foi de -US$ 1,234 trilhão. Considerando seu superávit em serviços, no balanço de transações correntes o déficit foi -US$ 1,032 trilhão ou -3,5% do PIB. Por ser o maior no mundo, Trump entrou em pânico e reagiu mal!

Na realidade, as dez maiores economias em termos de PIB têm baixo grau de abertura externa e uma dependência maior do mercado interno em lugar da demanda externa (exportação) diante seus PIBs. Há um padrão estrutural claro: essas maiores economias, considerando as europeias em bloco comercial, tendem a ter uma menor relação da soma das exportações com importações como proporção do PIB – e isso indica uma maior dependência da demanda interna.

PaísPIB (US$ trilhões)Exportações/PIB (%)Grau de Abertura (%)Ponto-chave
EUA29~11%~25%Forte mercado interno, baixa dependência externa
China18~20%~37%Maior exportadora mundial, mas enorme mercado interno
Alemanha4.7~47%~83%Altíssima dependência externa (exportled)
Japão4.1~18%~45%Economia interna robusta
Índia3.9~20%~45%Mercado interno em ascensão
Reino Unido3.6~30%~64%Aberta, mas com desindustrialização parcial
França3,2~30%~71%Dependência da UE
     
Itália2.4~32%~66%Exportações para UE
Canadá2.2~33%~67%Alta dependência comercial, especialmente com os EUA
Brasil2.2~20%~34%Abertura moderada,
vulnerável à pauta primária, mas mercado interno forte

Somando mais cinco economias grandes – Rússia (US$ 2,1 trilhões), Coreia (US$ 1,9 trilhão, México (1,8 trilhão), Austrália (US$ 1,8 trilhão) e Espanha (US$ 1,7 trilhão) –, essas 15 maiores economias somam seus PIBs em US$ 83 trilhões ou 75% do total mundial (US$ 110 trilhões). Somente a dos EUA é 26,5% do total.

Em 2023, a abertura externa (Exportação + Importação / PIB) dessas economias foi: Rússia 42%, Coreia 88%, México 73%, Austrália 49%, Espanha 72%. Portanto, as economias com menor abertura externa, entre as 15 maiores, foram pela ordem: Estados Unidos (25%), Brasil (34%) e China (37%), por causa de seus PIBs terem sido gerados predominantemente em seus mercados internos.

A Índia tem 17,9% da população mundial e a China 17,7%. São seguidas pelos Estados Unidos com 4,2%. O Brasil com a sétima maior população possui 2,7% da total. A Rússia tem 1,8%, o México 1,6%, Japão 1,56% e Alemanha (1%) em 19º. lugar. A força de trabalho e o número de consumidores são trunfos de cada qual.

As maiores economias (EUA, China, Índia, Japão), exceto a germânica, têm mercados internos de grande escala populacional e renda, sendo o PIB fortemente influenciado pelo consumo doméstico e investimento interno. Isso reduz a dependência das exportações e oferece resiliência a choques externos.

No caso da China, embora seja a maior exportadora mundial, a participação do mercado doméstico no PIB cresceu muito nos últimos anos. Tem menor dependência do mercado externo.

As potências exportadoras europeias (Alemanha, Reino Unido, França e Itália) são economias com forte base industrial e menor população. Tendem a compensar sua escala com alta especialização exportadora. Alemanha é o arquétipo da economia export-led, cuja vulnerabilidade aumenta quando a demanda externa global cai.

São considerados periféricos industriais e primário-exportadores o Brasil e o Canadá. No caso brasileiro, sua demanda externa depende mais de commodities (petróleo, soja, minério etc.) ou produtos específicos como os semiacabados de ferro e aço (1,4% do total), automóveis (1,3%) e aeronaves (1,3%). Mas a abertura externa brasileira é metade da canadense, ou seja, o Canadá é mais vulnerável a choques nos termos de troca e volatilidade internacional.

Portanto, há o paradoxo da escala: as maiores economias têm escala interna suficiente para crescer com menor dependência externa. Isso permite maior autonomia em política econômica, especialmente fiscal e industrial. Por sua vez, países médios e pequenos se especializam para competir via exportações e isso os torna mais sensíveis a instabilidades externas.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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  1. Enoch Ataide

    9 de abril de 2025 7:45 pm

    O entendi dessa explanação? É que os países como china e brasil, não são imunes às taxas cobradas por Trump mas que estão baseados em seus próprios mercados a china ficou rica vendendo produtos baratos e de pouca tecnologia empregada, isso logo no começo, pelas décadas de 80 e 90 agora começa a ameaçar os EUA com produtos sofisticados e de alta tecnologia é de esperar pra ver o que vai acontecer nos próximos capítulos.

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