A China pediu neste domingo (4) que os Estados Unidos libertem imediatamente o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, após Washington realizar ataques militares de grande escala contra a capital, Caracas, e outras regiões do país, além de deter o chefe de Estado venezuelano.
Em nota, o governo chinês afirmou que a segurança de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, deve ser prioridade e instou os EUA a “pararem de derrubar o governo da Venezuela”. Pequim classificou a ofensiva como uma “clara violação do direito internacional”.
Foi a segunda manifestação da China desde sábado, quando o presidente dos EUA, Donald Trump, declarou que Washington havia capturado Maduro e sua esposa e os retirado do país. No dia anterior, o governo chinês já havia condenado o que chamou de “atos hegemônicos” e “uso flagrante da força” por parte dos Estados Unidos, cobrando respeito à Carta das Nações Unidas.
Segundo Andy Mok, pesquisador sênior do Center for China and Globalisation, Pequim acompanha de perto os desdobramentos na Venezuela. Em entrevista à Al Jazeera, ele afirmou que uma delegação chinesa se reuniu com autoridades venezuelanas poucas horas antes da ação americana e que o governo chinês não se surpreendeu com a iniciativa de Washington, considerando os interesses estratégicos e econômicos dos EUA na região.
Para Mok, o que mais chamou a atenção foi a forma como a operação foi conduzida, o que pode “representar a estratégia de longo prazo dos Estados Unidos na região”. Ele destacou ainda que a China é a maior compradora de petróleo da Venezuela, embora o país responda por apenas 4% a 5% das importações totais chinesas. Além do setor energético, Pequim vem ampliando comércio e investimentos na América Latina, o que reforça a atenção chinesa às mudanças políticas no continente.
O analista alertou que uma eventual retomada, por parte de futuras administrações americanas, de uma política inspirada na Doutrina Monroe poderia elevar as tensões com a China, já que a América Latina é considerada um “pilar da estratégia chinesa para o Sul Global”.
Apesar das críticas contundentes, a China tende a restringir sua resposta a protestos diplomáticos, avalia o analista Shaun Rein, radicado no país. “A China emitiu uma condenação muito forte aos Estados Unidos e está articulando com países da América Latina e do Caribe para afirmar que isso não é aceitável”, disse Rein, fundador do China Market Research Group.
Segundo ele, Pequim está profundamente alarmada, mas enfrenta limitações. “Não há muito o que a China possa fazer. Ela não tem o mesmo poder militar: possui apenas duas bases militares fora do território chinês, enquanto os Estados Unidos têm cerca de 800”, afirmou, ressaltando que, historicamente, a China não adota uma postura beligerante. Para Rein, o mais provável é que o país continue criticando as ações americanas, sem recorrer a respostas militares ou sanções econômicas.
Reações globais divididas
A intervenção dos EUA na Venezuela provocou reações em todo o mundo, com opiniões fortemente divididas. Líderes de esquerda na região, como os de Brasil, Colômbia, Chile e México, condenaram em grande medida a remoção de Maduro do poder. Já governos de direita, de países como Argentina e Equador, receberam a ação com aprovação.
A Coreia do Norte também condenou os ataques americanos, classificando-os como “a forma mais grave de violação da soberania”, segundo a agência estatal KCNA. Para Pyongyang, o episódio confirma “a natureza agressiva e brutal dos Estados Unidos”.
A Coreia do Sul pediu redução das tensões e defendeu uma rápida estabilização por meio do diálogo, com restauração da democracia e respeito à vontade do povo venezuelano. Já o primeiro-ministro da Austrália, Anthony Albanese, afirmou apoiar uma “transição pacífica e democrática” de poder na Venezuela, mas ressaltou a necessidade de respeito ao direito internacional.
A Venezuela enfrenta crescente isolamento internacional, especialmente após a eleição contestada de Maduro em 2024. Ainda assim, China e Rússia mantêm fortes laços econômicos e estratégicos com Caracas, além de alianças reforçadas com o Irã, em oposição à política externa dos Estados Unidos.
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