9 de junho de 2026

“Estamos em uma guerra mundial”, aponta professor americano sobre Ucrânia e Irã

Guerras deixaram de ser eventos paralelos e passaram a compor uma disputa global integrada entre grandes potências, com consequências econômicas em todo o mundo
Figura 1: Guerra que seria rápida na visão estadunidense, se arrasta por semanas levando o preço do petróleo a níveis estratosféricos e colocando economia global em xeque. Fonte da Imagem: Al Jazeera

Estados Unidos e Israel iniciaram operações contra o Irã, enquanto Rússia e Ucrânia mantêm conflito, configurando uma guerra mundial.
Conflitos interligados envolvem grandes potências com apoio mútuo a adversários, afetando preços globais de energia e alimentos.
China atua como facilitadora da Rússia, e o ataque dos EUA ao Irã não cumpre critérios da teoria da guerra justa, segundo especialista.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Desde que os Estados Unidos e Israel iniciaram operações militares contra o Irã, em fevereiro, um debate ganhou força entre analistas de segurança internacional: o que está acontecendo no mundo ainda pode ser chamado de conflitos regionais ou já cruzamos o limiar de uma guerra mundial?

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Para Paul Poast, professor de Relações Internacionais e Ciência Política da Universidade de Chicago e autor de quatro livros sobre segurança internacional, a resposta é clara. Em entrevista à BBC News Brasil, ele argumenta que as guerras na Ucrânia e no Irã deixaram de ser eventos paralelos e passaram a compor uma disputa global integrada entre grandes potências, com consequências econômicas que já chegam ao preço da gasolina e dos alimentos em todo o mundo.

Definição

Para Poast, três elementos tornam o momento atual enquadrável na definição: dois grandes conflitos simultâneos em continentes diferentes, grandes potências envolvidas diretamente em ambos, e cada uma apoiando o adversário da outra no conflito oposto.

Os Estados Unidos estão no Irã. A Rússia está na Ucrânia. Mas a interligação vai além: Washington continua equipando, treinando e fornecendo inteligência à Ucrânia. “Fazem tudo menos puxar o gatilho”, diz Poast.

Moscou faz o mesmo pelo Irã, fornecendo armas, informações de alvejamento e assistência de planejamento. O próprio Irã forneceu drones à Rússia para uso na Ucrânia. E a Ucrânia, que acumulou vasta experiência no combate a esse tipo de armamento, agora ajuda a derrubar drones iranianos no Golfo.

“Para mim, tudo isso preenche a definição de guerra mundial”, afirma o professor.

Poast reconhece que a escala atual não se compara à devastação das duas grandes guerras do século 20 e argumenta justamente que isso não deveria ser o critério. Ele evoca a Guerra dos Sete Anos, no século 18, como um paralelo mais adequado: um conflito sério, com múltiplas potências e múltiplos teatros, mas sem a destruição em massa que marcou o século passado. “Talvez nem devêssemos chamar aqueles conflitos de Primeira e Segunda Guerra Mundial, porque não foram realmente a primeira e a segunda”, provoca.

Peso econômico

O fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, é o canal pelo qual a guerra chega às economias domésticas de países que não têm nenhum soldado no campo de batalha. Embora os EUA dependam menos do petróleo do Golfo, a commodity tem preço global, e a alta já se reflete na gasolina, nos plásticos e nos fertilizantes, pressionando a inflação na Europa e além.

Há ainda o que Poast chama de efeitos de segunda ordem: a Rússia, grande exportadora de petróleo, beneficia-se diretamente da alta dos preços, vendendo sua produção a China, Índia e outros países que não aderiram ao embargo. “É uma mina de ouro para Moscou”, diz, o que, na avaliação do professor, complica a capacidade da Ucrânia e de seus parceiros de sustentar o esforço de guerra.

Papel da China

Na visão de Poast, a China atua hoje como “facilitadora” da guerra russa: compra energia, fornece tecnologia de duplo uso e oferece a Moscou a tábua de salvação econômica que nenhum outro país consegue prover, sustentada pelo acordo de “parceria sem limites” assinado às vésperas da invasão da Ucrânia.

Mas o cenário que mais preocupa o professor não é um aprofundamento do envolvimento chinês nos conflitos existentes. É a possibilidade de Pequim interpretar o momento com os EUA atolados em dois fronts, sistemas de defesa aérea sendo reposicionados, remessas de armas para Taiwan suspensas, como uma janela de oportunidade para agir em outro teatro. “Isso seria o grande ponto de inflexão. Mesmo quem não concorda com minha tese reconheceria que, se isso acontecesse, estaríamos claramente diante de uma guerra mundial.”

Guerra justa

Poast também entrou em um debate teológico e filosófico que ganhou repercussão internacional: após o vice-presidente americano J.D. Vance invocar a teoria da guerra justa para justificar os ataques ao Irã, foi rebatido publicamente pelo papa Leão 14, que, além de ser de Chicago (“e estamos muito orgulhosos disso”, brinca Poast), é agostiniano e escreveu sua tese doutoral sobre Agostinho, o mesmo filósofo que fundou essa tradição dentro do catolicismo.

Poast analisou se a guerra passa nos critérios clássicos da teoria. Sua conclusão: não passa.

A teoria exige que uma guerra justa tenha causa justa, seja de autodefesa e último recurso, e seja conduzida de forma justa. Quanto ao requisito do último recurso, o professor aponta que, no dia anterior ao ataque americano, o mediador de Omã declarava que as negociações estavam sendo “muito produtivas” e que as partes haviam concordado em continuar conversando. Na manhã seguinte, Trump atacou.

Há ainda a exigência de uma perspectiva razoável de sucesso, uma expectativa realista de que a guerra produza uma situação melhor do que a anterior. Nesse ponto, Poast é direto: os objetivos de guerra do governo americano mudaram continuamente, e o próprio Trump admitiu não ter previsto que o Irã fecharia o Estreito de Ormuz com tanta facilidade.

“Só que especialistas no assunto sabiam que isso era totalmente previsível. É exatamente por isso que presidentes americanos anteriores decidiram não ir à guerra contra o Irã. Eles sabiam que iam piorar a situação, e foi o que aconteceu.”

*Com informações da BBC Brasil.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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