Seis meses depois do início da ofensiva militar conjunta de Estados Unidos e Israel contra o Irã, o conflito chegou a uma espécie de impasse: o regime iraniano sobreviveu aos ataques, preservou sua capacidade de resposta e mantém influência regional, enquanto Washington abandonou a expectativa de uma solução rápida e passou a apostar no estrangulamento econômico.
A avaliação é apresentada pelo New York Times em reportagem assinada pelo correspondente diplomático Steven Erlanger. Segundo especialistas ouvidos pelo jornal, a mudança da estratégia militar para uma guerra econômica não significa necessariamente uma mudança nos resultados obtidos pelos Estados Unidos. Pelo contrário: a capacidade de provocar danos ao Irã é considerada evidente, mas permanece incerto como esse sofrimento poderia levar Teerã à capitulação, à mudança de regime ou a um acordo com Washington.
A ofensiva, iniciada em 28 de fevereiro sob a promessa do presidente Donald Trump de que a “hora da liberdade” dos iranianos havia chegado, tinha entre seus objetivos pressionar o regime e provocar uma mudança política interna. A estratégia não produziu esse resultado.
O ataque inicial matou o então líder supremo iraniano, Ali Khamenei, além de integrantes de seu círculo político e militar. Semanas de bombardeios também destruíram parte significativa da força aérea e da Marinha iranianas e atingiram duramente seu programa de mísseis.
Ainda assim, o cenário esperado por Washington não se concretizou: a população não se levantou contra o governo e a estrutura de poder iraniana não entrou em colapso.
Pressão econômica substitui ofensiva militar
Diante do fracasso em produzir a queda do regime, o governo Trump passou a concentrar esforços sobre a economia iraniana: recentemente, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, anunciou uma nova operação, denominada “Operation Economic Outcast”, destinada a ampliar o isolamento econômico do Irã. A proposta é utilizar sanções e outras medidas para restringir ainda mais as alternativas econômicas de Teerã.
Entretanto, Washington ainda não deixou claro qual comportamento pretende obter com essa estratégia, tendo em vista que o Irã já está submetido a diversos tipos de sanções. A meta seria provocar a queda do regime? Forçar o Irã a reabrir o Estreito de Ormuz? Ou pressionar Teerã a voltar às negociações sobre o estreito e o programa nuclear?
O impasse também envolve o Estreito de Ormuz, ponto estratégico para o comércio mundial de petróleo. Após os ataques, o Irã conseguiu recuperar parte de seus lançadores de mísseis e respondeu atingindo aliados dos Estados Unidos e bases americanas na região.
A pressão sobre o estreito provocou impactos econômicos internacionais e transformou o controle da passagem marítima em um dos principais instrumentos de barganha de Teerã. Nesse cenário, a nova política de estrangulamento econômico pode até reduzir a temperatura imediata do conflito, mas não elimina o risco de uma nova escalada.
Irã resiste, mas população paga a conta
O aspecto mais dramático do impasse é que o custo da guerra recai principalmente sobre a população iraniana. Milhares de iranianos morreram desde o início do conflito, segundo estimativas difíceis de verificar, enquanto a economia já profundamente debilitada enfrenta uma nova rodada de pressão externa. A estratégia americana, portanto, aposta em produzir sofrimento econômico suficiente para estimular uma revolta popular contra o regime.
A liderança iraniana, entretanto, parece ter interpretado a sobrevivência do Estado como prioridade absoluta. Com crescente influência dos setores militares, o governo apresenta os sacrifícios impostos à população como parte de uma luta nacional pela sobrevivência.
Ao mesmo tempo, o regime intensificou a repressão contra manifestações de dissenso.
O presidente Masoud Pezeshkian e o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, reconhecem a gravidade da crise econômica e defendem o fim da guerra. Mas a posição oficial sobre uma negociação com Washington permanece condicionada à retomada de compromissos anteriores e à garantia de que eventuais benefícios econômicos serão efetivamente entregues pelos Estados Unidos. A desconfiança é um dos principais obstáculos.
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