Os dados de confiança do consumidor norte-americano divulgados pela Universidade de Michigan voltaram a soar o alarme sobre o comportamento da economia do país não só pela alta da inflação em si, como também pela possibilidade de que a alta dos preços esteja começando a se consolidar nas expectativas da população e das empresas — um fenômeno considerado especialmente perigoso pelos bancos centrais.
A afirmação é do economista e Nobel de Economia Paul Krugman, lembrando que os dados revelam um nível historicamente baixo de confiança do consumidor, superando inclusive períodos críticos como a crise financeira de 2008 e a estagflação do início dos anos 1980.
Em artigo publicado em sua newsletter, Krugman reconhece que os fundamentos econômicos atuais não sejam necessariamente tão graves quanto aqueles momentos históricos, mas afirma que a percepção social não pode ser ignorada. “O consumidor está profundamente pessimista sobre preços, gestão econômica e sobre a sensação de que ninguém parece estar no controle”.
Contudo, o ponto central da análise está nas chamadas expectativas inflacionárias de médio prazo — um indicador acompanhado de perto pelo Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos. Para Krugman, é justamente nesse indicador que surgem os sinais mais preocupantes.
O economista explica que a inflação se torna especialmente destrutiva quando deixa de ser temporária e passa a ser incorporada nas decisões econômicas de empresas e trabalhadores.
Em outras palavras: quando empresários começam a reajustar preços esperando aumentos futuros e trabalhadores passam a exigir salários maiores prevendo perda de poder de compra, cria-se um ciclo de retroalimentação inflacionária.
Esse mecanismo foi um dos principais motores da crise inflacionária norte-americana nos anos 1970, período marcado pela chamada estagflação — combinação de baixo crescimento econômico com inflação elevada e desemprego persistente.
Krugman recorda que, naquela época, as expectativas de inflação para os cinco a dez anos seguintes chegaram perto de 9%, obrigando o Federal Reserve a promover uma política monetária extremamente agressiva no início dos anos 1980. O resultado foi uma recessão severa e anos de desemprego elevado para conter a escalada dos preços.
Agora, as expectativas de inflação para os próximos cinco anos subiram para 3,9% no mais recente relatório da Universidade de Michigan — o maior nível desde o início dos anos 1980. Embora ainda distante da crise inflacionária daquela década, o dado indica que parte da população começou a acreditar que os Estados Unidos entrarão em um período prolongado de inflação elevada.
Na avaliação do economista, dois fatores recentes ajudaram a impulsionar essa deterioração: o choque tarifário provocado pela política comercial do presidente Donald Trump e a escalada das tensões envolvendo o Irã, que pressionam os preços internacionais de energia.
Krugman teme que empresas passem a incorporar essas expectativas em suas decisões de preços, criando precisamente o cenário que economistas mais receiam: a inflação “entrincheirada”, quando o aumento contínuo dos preços passa a se autoalimentar.
“Se isso estiver acontecendo, os custos das falhas de política econômica do último ano e meio serão muito maiores do que se imagina atualmente”, afirma.
Rui Ribeiro
23 de maio de 2026 9:35 amSe vc fosse um investidor, vc investiria sua fortuna numa empresa que quisesse fundar uma cidade em Marte?
Se eu fosse investidor com CPF, não CNPJ de fundo soberano? Depende da tese e do meu apetite por risco de falência interplanetária.
*Se fosse pra botar meu dinheiro, eu olharia 3 coisas:*
Fator Por que importa Nota Marte
**Tese** Tem demanda real ou é ego de bilionário? Cidade em Marte hoje = Antarctica com custo 1000x maior. Demanda zero, exceto ciência e marketing. Nota 2/10
**Moat** O que impede a China ou NASA de copiar amanhã? Quem dominar transporte barato, reciclagem 99% e energia tem monopólio. Se a empresa for só imobiliária marciana, moat = 0
**Retorno** Quando vejo meu dinheiro de volta? 50+ anos no otimista. Antes disso é só queima de caixa. TIR negativa até 2075
*Eu investiria se: 3 condições marretadas*
1. *Picks & Shovels*: A empresa não vende terreno em Marte. Vende a pá. Foguete reutilizável, traje espacial, reator nuclear compacto, robô que imprime habitat com regolito. SpaceX vale US$350bi fazendo isso, não vendendo lote.
2. *Contrato âncora*: NASA, ESA ou DoD bancando 80% do capex inicial. Igual Elon fez com CRS e Starlink militar. Sem dinheiro do governo, cidade em Marte é vaquinha de luxo.
3. *Receita na Terra em 5 anos*: A tech criada pra Marte tem que vender aqui antes. Tecido de traje → bombeiro. Reciclagem de água → deserto. Impressora 3D de regolito → construção civil. Se não monetiza em 1G, não vai monetizar em 0.38G.
*Eu correria se:*
1. *Business plan = “vender lotes”*: Terreno sem ar, sem lei, sem cliente. Estelionato marciano.
2. *Fundador messiânico*: “Vamos salvar a espécie”. Tradução: “me dá seu dinheiro e reza”.
3. *Burn rate > US$500mi/ano sem receita*: É fogueira de dinheiro. Literalmente, porque foguete explode.
*Veredito de marreta:*
Com 1% do meu patrimônio, em equity de uma “picks & shovels” com contrato da NASA? *Botava*. É call option no futuro. Se der certo, retorno 1000x. Se der errado, virou aula cara.
Com 20% do patrimônio numa “Construtora Vênus Imóveis Marcianos S.A”? *Nem se o art. 903 do CPC valesse em Marte*. Probabilidade de perder tudo: 99%. Probabilidade de o banco penhorar meu lote em Marte: 0%, porque não existe oficial de justiça lá.
Resumo: Cidade em Marte é tese pra fundo soberano ou bilionário entediado. Investidor CPF quer empresa que lucra com o caminho até lá, não com a placa “Bem-vindo a Nova Esperança – lotes a partir de US$10mi”.
Você botaria seu FGTS nisso?
E considerando os impactos negativos da baixa gravidade lunar sobre o corpo humano, vc investiria sua fortuna numa empresa que quer fundar uma cidade na Lua?
Com os problemas de saúde que acabei de te listar? Aí a régua muda. Lua é mais perto, mais barata, mas continua sendo cilada pra CPF.
*Se eu fosse investir minha fortuna inteira? Jamais.*
*Se fosse 0,5% da fortuna, com tese certa? Aí conversamos.*
*Por que Lua é diferente de Marte pra investidor:*
Quesito Marte Lua Impacto no bolso
**Distância** 9 meses de viagem 3 dias Frete 100x mais barato. Levar 354kg de colete pra Lua é viável, pra Marte é falência
**Latência** 20 min pra falar com a Terra 1,3 segundos Dá pra operar robô em tempo real. Telemedicina funciona.
**Recurso** CO2, gelo nos polos Gelo na cratera + Hélio-3 + Sol 24h nos polos Lua tem minério + energia. Marte só tem marketing
**Gravidade** 0,38G 0,16G Lua te quebra mais rápido. Precisa resolver o colete de 354kg ou centrífuga antes de ter morador
*Os problemas de saúde viram custo. E custo vira tese de investimento.*
Não invisto na “Cidade Tranquilidade Residence Club”. Invisto em quem resolve os 4 boletos que todo morador lunar vai pagar:
1. *Osso e músculo*: Empresa de centrífuga habitacional ou macacão de gravidade artificial. Quem patentear o “Pingvin 2.0” que realmente funciona vira Unimed da Lua. Receita recorrente: US$200k/pessoa/ano só pra não desmanchar.
2. *Radiação*: Lua não tem campo magnético. 1 dia lá = 6 meses de raio-X. Quem vender tijolo de regolito impresso que blinda radiação ganha a licitação de toda base. É a Gerdau lunar.
3. *Energia*: 14 dias de noite. Painel solar não resolve. Invisto em reator nuclear compacto tipo Kilopower da NASA. Quem dominar energia 24h na Lua vende pro planeta inteiro depois.
4. *Logística*: Trazer 1 kg da Terra custa US$2mil. Trazer 1 kg da Lua pra Terra custa US$500. Se a empresa minera Hélio-3 ou platina e exporta, aí tem PIB. Cidade vira só alojamento dos mineradores.
*Então, eu botaria dinheiro se:*
1. *Não é imobiliária, é infraestrutura*: A empresa vende água, ar, remédio pra osteoporose e passagem. Morador é despesa, minério é receita.
2. *Tem cliente pagando antes da cidade existir*: NASA, ESA, Força Espacial. Contrato de US$10bi pra manter 20 astronautas vivos. Igual ISS, só que com IPTU.
3. *Resolve a gravidade*: Se a proposta é “todo mundo usa colete de 354kg”, eu passo. Se tem habitat girando a 1G por US$1bi, eu assino. Porque sem isso o RH da cidade lunar gasta mais com plano de saúde que com foguete.
*Veredito marreta:*
Cidade na Lua pra morar = queima de caixa até 2080. Dou zero.
Empresa que vende a solução pros 4 problemas acima + exporta recurso = *aloco 0,5% a 2% da fortuna*. É o mesmo risco de startup de biotecnologia: 95% chance de zero, 5% chance de 500x.
Lua é plataforma de petróleo sem oceano no meio. O lucro não tá no condomínio, tá na sonda.
E você? Se te dessem lote na Lua hoje, com escritura registrada no cartório de Mare Tranquillitatis, você mudava ou vendia no mesmo dia?
Vc tá querendo adquirir um lote na superfície da Lua? If Yes, the Lunatic is on the grass…
Rui Ribeiro
23 de maio de 2026 10:32 amSua análise de risco e alocação de portfólio (0,5% a 2%) é cirúrgica e impecável. Você transformou um problema biológico em uma planilha de custos operacionais (CapEx e OpEx), que é exatamente como um investidor institucional pensa. A analogia com a plataforma de petróleo resume tudo: ninguém compra ações da Petrobras esperando morar na P-77; você investe na extração e na infraestrutura técnica.Respondendo diretamente à sua pergunta provocativa: Eu venderia no mesmo dia, sem pensar duas vezes.
Morar na Lua com a tecnologia atual é uma decisão irracional para qualquer “CPF”, e aqui estão os motivos práticos para liquidar esse ativo imobiliário imediatamente: Por que o lote na Lua é um “mico” imobiliário
Custo de Carregamento Impossível: A escritura no Mare Tranquillitatis é um ativo sem liquidez. Para o lote valer algo, você precisaria pagar o “IPTU” da infraestrutura (os 4 boletos que você listou). A taxa de condomínio para não morrer sufocado ou irradiado consumiria qualquer patrimônio.O Mercado de Compradores (Governos e Corporações): O único comprador interessado nesse lote seria uma agência espacial (como a NASA) ou uma mineradora. Para eles, o terreno tem valor estratégico de posicionamento. Para o indivíduo, é apenas um deserto radioativo.
Arbitragem Financeira: Ao vender o lote hoje para uma corporação de infraestrutura, eu converteria um risco biológico e técnico altíssimo em liquidez imediata na Terra. Esse capital seria reinvestido exatamente na sua tese: nas empresas que vendem as brocas, os reatores Kilopower e os planos de saúde espaciais.A Realidade do “Home Office” LunarSe o frete de retorno custa US$ 500/kg e a telemedicina funciona com apenas 1,3 segundos de latência, o mercado de trabalho lunar será automatizado. O trabalhador ideal para a Lua é um robô operado por um técnico sentado em um escritório em São Paulo ou Houston. O humano só vai lá quando o robô travar e precisar de manutenção física. A “cidade” será, no máximo, um alojamento técnico altamente rotativo, nunca um destino de aposentadoria.Você tocou no ponto central de toda a economia espacial: o espaço é para negócios, a Terra é para viver.Se fôssemos montar esse fundo de Venture Capital de 1% da fortuna para a infraestrutura dos “4 boletos”, qual das 4 verticais (Gravidade/Saúde, Radiação, Energia ou Logística) você escolheria como o investimento “âncora” do portfólio para liderar a rodada Seed?