13 de julho de 2026

Quando a OTAN vira palco, por Maria Luiza Falcão

Bastou Donald Trump desembarcar na capital turca para que o centro das atenções deixasse de ser a própria OTAN.
Donald Trump em foto de Martijn Beekman/OTAN

Donald Trump transformou a cúpula da OTAN em Ancara em espetáculo, desviando foco dos temas centrais.
Trump criticou aliados europeus e usou a cúpula para reivindicar a Groenlândia e cobrar apoio militar.
A personalização da política externa por Trump enfraquece instituições e compromete a confiança entre aliados.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Quando a OTAN vira palco

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Maria Luiza Falcão Silva

A leitura do artigo “Drama e espetáculo marcam a entrada de Trump na OTAN”, publicado pelo The New York Times e assinado pelos correspondentes da Casa Branca Shawn McCreesh e Tyler Pager, oferece um retrato revelador da mais recente participação de Donald Trump em uma cúpula da OTAN. Mais do que narrar um episódio diplomático, a reportagem evidencia como a presença do presidente norte-americano tende a deslocar o foco das instituições para sua própria figura, transformando encontros multilaterais em grandes espetáculos políticos.

A cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), realizada na terça-feira (08/07) em Ancara, na Turquia, deveria estar concentrada em alguns dos temas mais delicados da política internacional contemporânea: a guerra entre Rússia e Ucrânia, a escalada militar envolvendo Irã e Israel, os novos desafios tecnológicos para a defesa coletiva e a redefinição do papel da aliança em um mundo cada vez mais multipolar.

Mas bastou Donald Trump desembarcar na capital turca para que o centro das atenções deixasse de ser a própria OTAN. Como observaram McCreeshe e Pager “o centro de gravidade da cúpula deslocou-se exatamente para onde Trump mais gosta: para ele mesmo.” A frase resume com precisão uma das características mais marcantes da política externa de Trump: a substituição da diplomacia pelo espetáculo.

Enquanto os líderes da OTAN chegavam em Ancara, para sua cúpula anual, Trump criticava os aliados por não ajudarem os Estados Unidos em sua guerra contra o Irã. “A Itália nos rejeitou, a Alemanha nos rejeitou e a França nos rejeitou”, disse ele. Na manhã de quarta-feira, continuou seus insultos se referindo à Espanha de forma jocosa como nação “sem esperança”.

A recepção preparada pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, parecia cuidadosamente desenhada para alimentar essa lógica de endeusamento da figura do presidente estadunidense. Banda militar, salvas de canhão, aviões de combate cruzando o céu e uma cerimônia reservada exclusivamente ao presidente norte-americano produziram uma imagem mais próxima da celebração de um monarca do que do encontro entre chefes de Estado de uma aliança baseada, ao menos formalmente, na cooperação entre países soberanos.

Não foi um detalhe protocolar.

Foi uma demonstração de como líderes experientes aprenderam a lidar com Trump: compreendem que sua necessidade permanente de reconhecimento pessoal pode ser utilizada como instrumento de aproximação política.

O problema é que essa dinâmica desloca completamente a natureza das relações internacionais.

Durante décadas, a força da liderança americana repousava menos sobre a personalidade de seus presidentes do que sobre a previsibilidade de suas instituições. Mudavam os ocupantes da Casa Branca, mas permaneciam relativamente constantes os compromissos assumidos pelos Estados Unidos perante seus aliados.

Era justamente essa estabilidade institucional que permitia à OTAN funcionar.

Trump inverte essa lógica. Em vez de representar uma potência institucional, procura apresentar-se como o verdadeiro centro do sistema internacional.

Os acontecimentos da própria cúpula ilustram esse comportamento.

Antes mesmo das discussões sobre segurança coletiva, Trump voltou a reivindicar a Groenlândia, criticou a Dinamarca, cobrou publicamente Reino Unido, França e Itália pelo que considera insuficiente apoio militar aos Estados Unidos, reacendeu seu conflito com a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni e ainda misturou questões relativas à Copa do Mundo com temas estratégicos da aliança atlântica.

Nada parece escapar à necessidade permanente de transformar qualquer reunião internacional em palco para sua própria atuação.

Essa característica não constitui mera excentricidade.

Ela produz consequências concretas para o funcionamento da diplomacia.

A política externa deixa de ser conduzida por canais institucionais previsíveis e passa a depender do humor, das preferências pessoais e dos impulsos do presidente. Os aliados deixam de negociar com os Estados Unidos enquanto Estado e passam, frequentemente, a tentar administrar as reações de um único indivíduo.

É uma diferença profunda.

Mais do que representar seu país, Trump frequentemente parece representar a si mesmo.

Essa personalização da política internacional produz outro efeito igualmente preocupante: aproxima Trump de líderes que compartilham uma visão fortemente centralizadora do poder.

Sua relação cordial com Erdogan não constitui exceção.

Ao longo de sua trajetória política, Trump demonstrou repetidas vezes maior afinidade com governantes que concentram poder pessoal do que com dirigentes de democracias liberais tradicionais. Não se trata necessariamente de identidade ideológica completa. Trata-se de uma concepção semelhante da política: instituições aparecem como obstáculos; lideranças fortes aparecem como solução.

É uma inversão histórica particularmente simbólica quando ocorre justamente dentro da OTAN. A aliança criada em 1949 não nasceu apenas como uma organização militar destinada a conter a expansão soviética. Ela também expressava um compromisso político entre democracias constitucionais. Sua força derivava da existência de regras compartilhadas, consultas permanentes e decisões coletivas.

Trump frequentemente parece enxergar tudo isso como burocracia desnecessária. Sua preferência é por relações diretas entre líderes, negociações personalizadas e demonstrações públicas de força.

A consequência inevitável é o enfraquecimento das próprias instituições que durante décadas sustentaram a influência internacional dos Estados Unidos.

Talvez por isso um dos momentos mais significativos da cúpula não tenha ocorrido durante as reuniões oficiais. Veio das palavras da senadora democrata Jeanne Shaheen ao lembrar que os fundadores da República norte-americana estruturaram sua Constituição porque “não queriam um rei”.

A observação possui enorme densidade histórica.

Os Estados Unidos nasceram justamente da rejeição ao poder absoluto.

Toda sua arquitetura constitucional foi construída para impedir que um único indivíduo pudesse se sobrepor às instituições.

O sistema de freios e contrapesos, a separação entre os Poderes e o controle recíproco entre Executivo, Legislativo e Judiciário nasceram exatamente para limitar personalismos.

É esse princípio que hoje parece permanentemente tensionado.

Trump frequentemente governa como se sua legitimidade eleitoral lhe conferisse autoridade para subordinar instituições, tratados, alianças internacionais e até organismos multilaterais à sua própria vontade.

O resultado é uma crescente confusão entre Estado e governo.

Mais ainda: entre governo e governante.

Essa transformação produz efeitos que ultrapassam as fronteiras americanas.

Quando o principal líder da maior potência militar do planeta converte reuniões diplomáticas em espetáculos pessoais, toda a previsibilidade da ordem internacional se enfraquece. Aliados passam a agir com cautela. Adversários testam limites. Parceiros procuram diversificar suas relações internacionais. A confiança, elemento central de qualquer aliança estratégica, começa lentamente a se deteriorar.

Paradoxalmente, Trump acredita fortalecer a posição americana ao projetar uma imagem de força pessoal.

O efeito pode ser exatamente o contrário.

Quanto mais a política externa dos Estados Unidos depende da personalidade de um presidente, menos confiável ela se torna para seus próprios aliados. E quanto menor a confiança, menor também a capacidade de liderança internacional de Washington.

A cena descrita pelo New York Times talvez permaneça como uma das imagens mais simbólicas deste momento histórico. Enquanto bandas tocavam, aviões riscavam o céu e canhões saudavam sua chegada, a OTAN desaparecia atrás do personagem principal.

Quando uma aliança militar criada para defender instituições democráticas passa a servir de cenário para a exaltação de um único líder, o espetáculo pode impressionar as câmeras. Mas revela, ao mesmo tempo, algo muito mais profundo: a crescente dificuldade dos Estados Unidos em distinguir a autoridade das instituições do brilho efêmero de uma personalidade política.

Talvez resida aí a maior fragilidade da liderança americana contemporânea. Não na redução de seu poder militar, que permanece incomparável, mas na progressiva substituição da força das instituições pela centralidade do indivíduo.

Na verdade, impérios raramente entram em declínio apenas porque outros se fortalecem. Frequentemente começam a enfraquecer quando deixam de confiar nas próprias instituições e passam a acreditar que seu destino pode ser encarnado por um único homem. É justamente essa impressão que Donald Trump oferece hoje ao mundo.

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Maria Luiza Falcão Silva

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados