10 de junho de 2026

As Americanas e as empresas de auditoria, por Luís Nassif

Há uma diferença entre auditoria e compliance. Compliance permite investigação privada, com acesso a todos os documentos.

À medida em que os fatos vão aparecendo, vai ficando nítido que o problema das Americanas não foi com a empresa de auditoria.

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Há um problema mundial afetando os auditores. Por ser profissão muito fechada, há um gap de expectativas em relação à sua atuação. Em relação às demonstrações financeiras, há um conceito de segurança razoável. Ou seja, dependendo dos dados que recebem, a auditoria pode garantir um nível de segurança, mas que depende, em muito, da governança de cada empresa.

O máximo a que o auditor chega é na contabilidade da empresa. Não tem dados sobre o que acontece antes.

Se houvesse outras ferramentas, talvez pudesse detectar fraudes antes de chegar nas demonstrações da companhia. Mas o trabalho do auditor independente se dá em cima de demonstrações prontas.

A contratação de uma auditoria independente obedece a um bom volume de restrições. Exige-se independência profissional: não pode ter ações de empresa em que ele próprio é o auditor, nem qualquer forma de dependência econômica.

Todos os auditores reportam para a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) sua carteira de clientes. E há um rodízio de trabalho.

A contratação deve ser transparente, passando pelo conselho de administração. Uma empresa não pode ficar mais de cinco anos consecutivas com o mesmo auditor.

Outro ponto relevante é o formato das grandes empresas de auditoria. Os auditores trabalham em conceito de sociedade, sem ligações com sócios de outros países. Podem haver acordos operacionais para compartilhar marcas e conhecimentos, mas não responsabilidades cíveis e penais.

Há uma diferença entre auditoria e compliance. Compliance permite investigação privada, com acesso a todos os documentos.

Já o trabalho de auditor obedece às seguintes etapas:

  1. Revisão de prática. Às vezes recorre a profissionais de outros países para conferir padrões profissionais
  2. Reguladores. CVM, que revisa controles internos e papéis de trabalho do auditor.
  3. Revisão Externa de Qualidade. Revisão de pares. Cada firma de auditoria pode ser revisada por outra firma de auditoria, com CVM como observadora.

Uma demonstração de efetividade do auditor pode ser conferida no balanço de 30 de junho da Light. Havia uma ressalva de um artigo sem sustentação, no valor de R$ 1,5 bilhão, referentes a PIS-Cofins pago pelo consumidor. A empresa quis ficar com o dinheiro. No dia 31/12 o auditor havia alertado para o risco de continuidade da empresa.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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