21 de maio de 2026

Salvem a Americanas da falência e dos proprietários, por Luis Nassif

Um caminho poderia ser a venda da Americanas por um valor simbólico a uma concorrente

As leis e regulamentos precisam obedecer a um mínimo de racionalidade, especialmente na questão da recuperação de empresas.

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Empresas não podem ser analisadas do ângulo exclusivo dos proprietários. Empresas são ativos sociais de um país, pelos empregos que gera, pela organização dos fatores permitindo a produção, a cadeia de fornecedores, a estrutura comercial etc.

O fim de uma empresa significa muito, em perda de empregos, em prejuízo dos fornecedores e em perda de valor. Uma empresa fechada vale apenas pelos seus imóveis e estoques. É um valor ínfimo perto de uma empresa em operação.

Um exemplo clássico é o da CAIO Carrocerias. Ela entrou em processo de falência. Tinha um enorme passivo trabalhista, Fechada, além da perda de empregos, seus galpões e imóveis seriam insuficientes até para cobrir os passivos trabalhistas.

Um juiz corajoso decidiu, então, por uma intervenção. Colocou a empresa em mãos de um interventor sério. Depois de algum tempo, a empresa tinha conseguido cobrir todo o passivo trabalhista, preservar empregos e fornecedores.

É por aí que deve-se analisar as Americanas.

Como recuperar as Americanas

O primeiro passo é separar controladores da empresa. Aos controladores, o peso da lei, as ações cíveis e criminais e a expropriação das ações – que, hoje em dia, estão perto de valer nada. Já em relação à empresa, um esforço cívico para preservá-la.

Um caminho poderia ser uma intervenção que recuperasse a empresa, os empregos e os fornecedores. E que permitisse que, a preservação do valor da empresa, ajudasse a ressarcir algum recurso público que vier a ser aportado.

Trabalho semelhante foi feito com a Cemar – Centrais Elétricas do Maranhão. Quebrada, foi recuperada pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). Recuperada, foi entregue quase de graça para os chamados piranhas financeiros – a Equatorial, grupo que saiu das entranhas do Garantia, de Jorge Paulo Lemann.

Portanto, não basta apenas a recuperação da empresa, mas a definição de uma finalidade legítima para ela.

Um caminho poderia ser a venda das Americanas, por um valor simbólico, a uma concorrente. E, depois de recuperada, definir o ganho de valor e as formas de repartição. Teria o inconveniente de aumentar a concentração no varejo.

Um caminho inovador seria a co-gestão, a entrega da empresa a um grupo de gestão, com o controle compartilhado por uma comissão de funcionários, pensando em um modelo de gestão que preservasse o dinamismo da empresa.

Quem poderia conduzir esse movimento? Um juiz com boas ideias e iniciativas? O Poder Executivo? O BNDES, ajudando a definir um modelo de governança?

Seja como for, é um bom desafio para saber se o país tem condições de sair da fase dos piranhas financeiros e ingressar na era do capitalismo social.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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15 Comentários
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  1. Célio Ferreira Facó

    3 de fevereiro de 2023 7:35 am

    Administradores perfumados que fraudam, burlam, desviam, desempregam, destroem! Impunemente? Receita Federal não viu? Bancos não viram? Auditorias não viram? Contabilidade não viu?Eis a piada obscena, fedida do neoliberalismo!

  2. Paulo Dantas

    3 de fevereiro de 2023 8:26 am

    Talvez converter a dívida em ações , os novos compradores montam um grupo de governança (que funcione), em paralelo se investigar, julgar e punir se for o caso os responsáveis.
    Rever a responsabilidades das “oditorias” se fosse só para assinar não se precisa delas.
    Não sei se estas empresas podem prestar outros serviços como cunsultória a quem auditam , se for seria um ?¤+@ conflito de interesses.

  3. Fábio de Oliveira Ribeiro

    3 de fevereiro de 2023 9:00 am

    Após o escandalo dos vagabundos do calarinho branco explodir, fiz um teste.
    Comprei um livro das Lojas Americanas. O preço estava mais barato do que no concorrente (Amazon), com uma vantagem adicional: zero de frete (na Amazon o frete acrescentaria 16 reais ao preço do livro).
    Imaginei que não receberia o produto. Todavia, a Lojas Americanas frustou minha expectativa. O livro foi entregue no prazo e não perdi meu dinheiro.
    Você tem razão Nassif. A loja merece ser salva, inclusive e principalmente dos vigaristas que a comandam e que a codenaram á falência.

  4. Antonio Uchoa Neto

    3 de fevereiro de 2023 9:20 am

    “Capitalismo Social” é primo-irmão de outra falácia do mundo (e da mentalidade) social-democrata eurocêntrica, o “Capitalismo Ético”, e, portanto, mais uma imposição universalizante de fundo moral e iluminista dos nossos verdadeiros mitos e pais fundadores: os europeus (e seus sucessores imediatos, os norte-americanos). Pra que esse prolegômeno todo? Por um só motivo: a “democracia” social e capitalista em que vivemos é fruto de um vício de origem: a violência colonialista e sua sucessora histórica, a violência imperialista. Ambas baseadas em um fator único: a exploração, de recursos naturais e humanos. E nada fundado em vício de origem pode frutificar plenamente, ou, pelo menos, encaminhar-se no sentido de evoluir diferentemente de sua origem. Quando muito, no lado que explora, nunca no lado explorado. Em outras palavras, a exploração não se transforma nem se altera, apenas perpetua-se.
    É por isso que, em minha visão, Capitalismo Social ou Capitalismo Ético podem, de certa forma, frutificar no hemisfério norte, e atingir parte mais ampla das populações locais: houve, por lá, acúmulo de riqueza, tornando possível que o gotejamento dessa riqueza aconteça, ainda que não seja, de fato, em uma escala considerável. Mas aqui, no terceiro mundo, com suas democracias de araque (inclusive a do Grande Irmão do Norte, que é rica, mas é de araque), não houve acúmulo de riqueza. Portanto, a única coisa que pode ser distribuída – gotejada – são as sobras dos recursos naturais e humanos que aqui, porventura, tenham existido.
    Os europeus, e os americanos (o monstro super-europeu, segundo Sartre), já prósperos às custas da exploração e do empobrecimento dos não-europeus, criaram essas miragens, como o Capitalismo Social e o Capitalismo Ético, e, tal como foi feito com o Iluminismo, exportaram essas ideias, que davam contornos mais suaves (morais, dir-se-ia) à exploração colonial selvagem que puseram em prática no mundo a partir dos Grandes Descobrimentos, no final do século XV, numa orgia que terminou (sic) com a auto-destruição, ou autofagia, no pós-1945. Na verdade, continuou sob outras formas, e permanece até hoje. Alguns desses explorados estão, hoje, se levantando e encarando seus algozes; outros, permanecem deitados, sobre algo que julgam ser um berço esplêndido.
    As Americanas aguardam seu destino – já experimentado pela Mesbla, dentre outros cujos nomes agora me escapam à memória. Ao menos, essas instituições tem um destino, triste como seja, na História e nos registros comerciais. Os funcionários, pequenos fornecedores, e demais insignificâncias dessa laia, apenas aguardam o momento de serem precipítados no memory hole.
    E, novamente, uma vez que mesmo observadores qualificados como o Nassif acreditam, não em mamadeira de piroca, mas em Capitalismo Social ou Capitalismo Ético, longa vida aos lemmans, sicupiras, e demais gênios do Capitalismo, já que é inútil desejar o contrário.

  5. Célio Ferreira Facó

    3 de fevereiro de 2023 9:39 am

    Paletó, perfume, diploma de administrador e pose dão direito a furtar, assaltar, burlar? Ratos fétidos!

  6. Luiz Droubi

    3 de fevereiro de 2023 9:51 am

    Nassif, acredito que um bom tema que ainda não foi discutido nesse caso Americana seja a questão da taxação de dividendos. A inexistência de tal taxação Brasil, a meu ver, é um convite a este tipo de fraude. Os acionistas majoritários simplesmente transformaram o preço justo da ação em dividendos, enquanto ludribriaram os acionistas minoritários, que precificaram os papéis de maneira errônea mantendo os precos artificialmente elevados, devido à assimetria de informação.

    Fossem os dividendos taxados,como em todo o resto do mundo civilizado, teria sido possível esse golpe? Talvez sim, mas não com a mesma facilidade.

  7. Luiz Droubi

    3 de fevereiro de 2023 9:55 am

    Em tempo: entendo que taxação de dividendos é questão regulatoria!

    O país ao não taxar os dividendos permitiu várias outros controladores de descapitalizar a própria empresa por fins escusos. A fraude das americanas só foi mais escancarada.

    Taxar dividendos é incentivar que os lucros sejam reinvestidos na própria empresa.no exteriores cogita-se até taxar as operações de recompra de ações.

  8. um cara

    3 de fevereiro de 2023 10:40 am

    Tem também o rombo da Ambev, li que são mais 30 bilhões, teremos que salvar a Ambev também ?

  9. Naldo

    3 de fevereiro de 2023 10:46 am

    Poisé “seo” Nassif, quebrado esse dogma estupido e canalha que a iniciativa privada é a resposta pra tudo, chegou a hora de partir pra cima de outra estupidez sem fim que é o tal rentismo abutre através do bc sequestrado, Lula não pode engolir essa patifaria de juros altos a perder de vista, são os pobres e trabalhadores sustentando uma escumalha que quer fantasma trabalhar, basta…e ninguém pede cana pra esse trio? Também, o homem do baú arrebentou um banco em alguns bilhões e tá tranquilão não é?

  10. JOAO BOSCO CURY

    3 de fevereiro de 2023 11:10 am

    o melhor caminho seria verificar quanto de dividendos fraudados a trinca de larápios surrupiaram das Americanas bem quanto ganharam na vendas de ações infladas e fazerem os larápios devolverem com juros, correção e também prisão.

  11. Vladimir

    3 de fevereiro de 2023 12:24 pm

    Aparentemente a Americanas é insalvável. A operação somente era possível devido a este tipo de operação fraudulenta.A concorrência hoje é muito grande entre os loja somente online e,pior de tudo,os ambulantes eletrônicos vendendo todo tipo de produtos falsificados e sem nota.

  12. Paulo Laydner

    3 de fevereiro de 2023 1:06 pm

    Minha preocupação é a ELETROBRAS na mão destes picaretas. Esta privatização teria de ser revertida rapidamente.

  13. AMBAR

    3 de fevereiro de 2023 3:41 pm

    Será que a Magalu cresce os olhos? Dominaria totalmente o mercado. Precisa ver se ela não andou especulando com o seu capital do mesmo modo que as americanas.

  14. AIDE SILVA LOPES

    4 de fevereiro de 2023 5:37 am

    Tem que rever a privatização da Eletrobrás, nas mãos desses gatunos.

  15. Renato Lazzari

    4 de fevereiro de 2023 11:29 am

    Os administradores, diretores e donos das Americanas com certeza tem boas relações com seus homólogos de outras firmas, pelo menos no que diz respeito a poder. Nesse nível não há concorrência prática, real, há acordos tácitos e explícitos. Os milionários sabem que se não se unirem enquanto classe, não tem força. Pregam que quem não é da mesma classe, do mesmo nível que eles, deve acreditar num individualismo que eles próprios não praticam entre si. Questão de consciência de classe, unicamente. Considerando que as pessoas que trouxeram à luz as falcatruas das Americanas foram pessoas que tem (e precisam ter) relação com outros donos, diretores e acionistas de outras empresas – e não órgãos estatais – não é difícil que já esteja, antes até da revelação das fraudes, tudo mais ou menos acertado. Lembra como as firmas privadas de avaliação (S&P, Moody’s etc.) avaliaram o Lehman Brothers até o último instante antes do fechamento desse banco? Alguém viu um dos irmãos Lehman de chapéu na mão nas sarjeta de alguma rua? E a diretoria desse banco, estão como esses diretores? Consciência de classe, quem tem prospera.

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