A blindagem de Serra no episódio das enchentes

Leiam esse trecho do Editorial do Estadão:

(…) todos sabiam que, sem um trabalho de manutenção adequado, com a limpeza constante do leito, essa importante conquista estaria ameaçada. Infelizmente, foi o que aconteceu. 

Quem são os “todos” que sabiam? Leitores de blog, dentre os quais se inclui o editorialista. No ano passado – e neste ano – nenhum veículo da velha mídia noticiou que a causa central do agravamento das enchentes de São Paulo foi a decisão do governo José Serra de reduzir as verbas para os trabalhos de desassoreamento do rio Tietê.

Quando terminaram os trabalhos de aprofundamento da calha – longuíssima duração, com verbas do Banco Mundial e do JBIC (Japan Bank International Cooperation) – um conhecido meu investiu em um processo de transporte de barcaças pelo rio. As barcaças passariam por todo o Tietê, atravessando São Paulo e indo desembocar em Mato Grosso. Essa era a expectativa do rio, depois de vultosos investimentos feitos no decorrer dos anos 90.

Todo esse investimento foi por água abaixo por conta do abandono dos trabalhos de dessassoreamento.

Não se trata de um mero descuido da uma gestão – de Serra – desinteressada. Trata-se do episódio que afetou o maior número de pessoas em toda história da cidade. Duvido que tenha havido outro com essa extensão.

No entanto, a velha mídia mentiu. Escondeu a história, poupou o governador, que sumiu durante todo o episódio. Jogou a culpa nas costas do prefeito da cidade e de seus habitantes. Atribuiu as enchentes ao lixo jogado na rua.

Agora, o Estadão usa no seu editorial as informações levantadas pela blogosfera.

Matérias sobre o rebaixamento da calha:

de 20/10/2003, na Folha

Apesar de não estarem concluídos, o rebaixamento e a ampliação da calha do rio Tietê apresentarão efeitos ainda neste verão: com 60% das obras feitas, o risco de o rio transbordar na área da cidade de São Paulo nos próximos cinco meses é de apenas 4%, segundo o Daee (Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de São Paulo).

Na última estação chuvosa esse índice era de 10% e há quatro anos as vias marginais tinham mais de 95% de chances de inundação, de acordo com o departamento.

“Nossa meta com a conclusão da obra, em setembro de 2004, é chegar a 1%, ou seja, somente uma chuva a cada cem anos poderá fazer com que o rio transborde. Antes, isso acontecia quase todo ano”, explica Ricardo Borsari, superintendente do Daee.

A segunda fase do projeto, iniciada em abril de 2002, retirou cerca de 4,5 milhões de m3 de lodo, 11 mil toneladas de lixo e 800 mil pneus do fundo do rio, numa extensão de 24,5 km -do Cebolão até a Barragem da Penha (zona leste).

O custo da obra está estimado em R$ 688 milhões -75% provenientes do JBIC (Japan Bank International Cooperation) e o restante pago pelo governo do Estado. O objetivo é ampliar em até 45 metros a base e rebaixar em 2,5 metros o leito do Tietê.

O rebaixamento transformará também o visual da avenida marginal, implantando um projeto paisagístico nas margens do rio, com a plantação de mudas de flores e árvores frutíferas.

“As pessoas que chegarem a São Paulo, e mesmo os paulistanos que circulam pela marginal, poderão ver um rio Tietê muito mais bonito”, afirma Borsari. 

São Paulo pode conter as enchentes – opiniao – Estadao.com.br

– O Estado de S.Paulo

A forte chuva que caiu na noite de segunda-feira e início da madrugada de ontem traz mais uma vez à discussão o renitente problema das enchentes que todos os anos castigam São Paulo e cidades próximas, e para o qual até agora as autoridades municipais e estaduais, que dividem as responsabilidades nesse caso, não conseguiram oferecer qualquer esperança de solução satisfatória. Solução, aqui, significa minorar significativamente os seus efeitos, já que eliminá-los é praticamente impossível tendo em vista as peculiaridades da capital paulista.

Repetiu-se o cenário desolador já bem conhecido dos paulistanos: quatro mortos na capital e outros quatro em municípios vizinhos; centenas de desabrigados que tiveram suas casas, construídas em áreas de risco, destruídas e perderam tudo; e ruas, avenidas e túneis alagados, com lixo e carros boiando e passageiros desesperados.

O transbordamento dos Rios Tietê e Pinheiros, em vários pontos das marginais, e de córregos, como o Cabuçu de Baixo, na zona norte, o Jaguaré, na zona oeste, e o Morro do S, na zona sul, paralisou boa parte da cidade até as 10 horas da manhã. Foram registrados 135 pontos de alagamento, e 58 deles ficaram intransitáveis por várias horas. Nos próximos dias, as avaliações da Defesa Civil, das administrações municipal e estadual e de entidades empresariais darão uma ideia mais precisa dos prejuízos para a população e a economia da capital.

É verdade que a topografia de São Paulo, em cuja área se alternam violentas ondulações e várzeas, não ajuda. Essa fatalidade geográfica é uma limitação importante. Apesar disso, o poder público pode fazer muito para reduzir os efeitos das enchentes, como sabem os estudiosos da questão. Elas nunca deixarão de ser um problema, mas podem deixar de ser um desastre periódico, como acontece hoje. As medidas para chegar a esse resultado são bem conhecidas, há muito tempo, e a maior parte delas já está sendo executada, mas infelizmente não de maneira satisfatória.

Os melhores exemplos disso são a limpeza do Rio Tietê, a construção de piscinões e a canalização de córregos. Bilhões já foram gastos no Projeto Tietê, destinado à recuperação desse rio, boa parte dos quais para o seu desassoreamento, com a retirada da sujeira acumulada durante décadas em seu leito, que possibilitou o aprofundamento da calha, o alargamento das margens e o aumento considerável da vazão. O resultado disso foi uma sensível redução do risco de transbordamento.

Desde que se concluiu essa etapa do projeto, todos sabiam que, sem um trabalho de manutenção adequado, com a limpeza constante do leito, essa importante conquista estaria ameaçada. Infelizmente, foi o que aconteceu. Mas, ainda que a vazão do Tietê não seja a mesma de quatro anos atrás, ela é suficiente para evitar um mal maior. Sem ela, a situação teria sido muito pior nas últimas enchentes. O governador Geraldo Alckmin já anunciou um remanejamento de verbas destinado a garantir recursos para acelerar a limpeza da calha do rio, que deve estar concluída em dois anos.

Quanto aos piscinões, destinados a reter a água das chuvas em pontos estratégicos, há dois problemas a resolver. Em primeiro lugar, seu número – hoje são 49 na Grande São Paulo – é insuficiente. Para completar o sistema, o governo do Estado deve contar com colaboração maior das prefeituras da região metropolitana. Até agora, só a capital deu contribuição significativa. Em segundo lugar, sua limpeza tem deixado a desejar.

A canalização dos córregos e a execução de outras medidas importantes cabem à Prefeitura da capital. Entre estas, a conservação, a limpeza e ampliação do sistema de drenagem, em especial de bueiros e galerias pluviais, que não têm sido satisfatórias, e o mapeamento das áreas de risco, a retirada dos que nelas se instalaram e ações para coibir novas ocupações.

É verdade que todas essas obras e serviços de manutenção, que podem minorar de forma significativa os efeitos das enchentes, custam caro. Mas é igualmente verdade que a sua ausência tem um custo ainda maior para a cidade. Elas são, portanto, altamente compensadoras.                 

 

 

 

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