Boa Páscoa! É o que ouço de todos os presentes ao adentrar o piso ladrilhado cinzento e gasto do Boteco do Serafim.

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Agradeço e respondo com uma referência bem-humorada sobre os ovos rosados que Netinho, o ajudante, cozinha junto à água que ferve as salsichas. Por sinal, a mesma cor de água dos nabos em conserva, que meu saudoso tio árabe, Antônio, mantinha no seu bar, em São José do Rio Preto.

Ontem, sábado de Aleluia, tinha sido divertido ver, na rua do boteco, vários Judas sendo justiçados pela molecada. Algumas das figuras malhadas, suspeito, pareciam-me com muito mais culpa no cartório do que o próprio Iscariotes.

No meio de toda a efusividade pascal, notei três pessoas muito amuadas, espírito não comum a elas. O próprio Serafa, seu Prudêncio, o militar da reserva, e a Virgínia, que faz Letras, na USP.

Quem me esclarece o motivo do ambiente funesto é o professor Filgueiras, que sussurrando me pergunta:

– Que dia é hoje?

– Páscoa, uai!

– Não, a data?

Olho pra folhinha atrás do balcão e confirmo:

– 31 de março.

– Então, ferrou. Você não pode imaginar o pau que quebrou meia-hora atrás entre o Prudêncio e a Virgínia. O Serafa foi interferir, com uma tal Revolução dos Cravos, e também saiu lascado.

Claro que àquela altura eu já tinha relacionado os fatos. Neste ano, a Páscoa, caíra na mesma data que a do início do golpe militar de 1964, no Brasil.

O Filga, como bom professor de português, bem soube reproduzir a história:

– Quando o Prudêncio desejou boa Páscoa para a Virgínia, ela devolveu de prima:

– Ótima, o cacete! Pode ser ótima uma data em que se cruzam a simbologia da paz e a comemoração nos teus quartéis de um golpe que matou e torturou milhares de jovens idealistas, seguido de 21 anos de ditadura?

– Você está exagerando, Virgínia. Uma coisa nada tem a ver com outra. E nem sei se alguém está comemorando a Revolução. Talvez, em 2014, aí sim, 50 anos, jubileu de ouro …

– E ainda chama de revolução, né, senhor Prudêncio? O povo participou? Quando? Naquela marcha burguesa, patrocinada pela TFP, o “Estadão” e a embaixada americana?

– Virgínia, você nem tinha nascido naquela época. Tem muita imprecisão histórica no que você diz.

– Imprecisão histórica o senhor vai ver é com a Comissão da Verdade.

Nessa hora, querendo harmonizar o ambiente, mas sem resistir às querelas pátrias que povoam sua memória, disse:

– Ó vocês dois aí. Revolução no Brasil, merda nenhuma, Prudêncio. Militares não servem apenas para matar e torturar, ó Virgínia. Na minha terra, não fossem os milicos, os cravos vermelhos, a canção Grândola, Vila Morena, o 25 de abril de 1974, e não teríamos nos livrado do Salazar e dos imbecis que o sucederam.

Virgínia, não ficaria sem a última palavra:

– Que seja. Mas, para mim, a Páscoa cair em 31 de março é motivo de luto.

Filga conta que, após um longo silêncio, cada um foi para o seu lado e não mais se falaram. Pondero:

– Bem, cara, pelo menos ninguém falou sobre essa bobagem de ovo de Páscoa.

– É aí que você se engana. A certa altura da discussão, logo depois de contar que seu namorado, Nonato Cordel, havia lhe dado um ovo de chocolate diet, da marcaLiberdade e Paz, Virgínia dirigiu-se ao senhor Prudêncio:

– Aposto que o senhor ganhou de sua esposa um da marca Redentora, o Ovo da Serpente.