“Senti meus sonhos ruindo”, diz metalúrgico sobre fechamento da Ford em SP

Governo Bolsonaro não se manifestou sobre o fim da unidade no ABC Paulista. Em janeiro, secretário de Guedes respondeu para executivos da GM: “Se precisar fechar, fecha”

Foto/fonte: ABCD Maior

Jornal GGN – Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, funcionários da Ford, contaram em reportagem da BBC Brasil o drama que estão vivenciando após a fabricante anunciar o fechamento da unidade que funciona desde 1967.

Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, cerca de 24 mil empregos diretos e indiretos – entre terceirizados e fornecedores – estão ameaçados. A notícia do fechamento aconteceu na terça-feira (19), logo após o almoço dos funcionários. 

“Ninguém esperava que fosse assim. Depois de uma reunião, nossos representantes pararam a produção e avisaram sobre o anúncio”, contou o metalúrgico Gustavo Alves, de 30 anos. Quando foi contratado, em 2014, a unidade tinha 7 mil trabalhadores, hoje opera com 2,8 mil funcionários diretos.

“Quando você entra na Ford, você realiza um sonho que tinha desde criança. Pronto, você entrou, virou um metalúrgico, como o seu pai. É um sonho realizado que vai te ajudar a atingir outros sonhos: ter uma casa, ter uma família, fazer faculdade, comprar um carro. Então, você me perguntou o que eu senti ontem. Senti como se todos esses sonhos estivessem ruindo”, explicou à BBC Brasil.

A montadora norte-americana declarou que irá encerrar a fabricação de caminhões e transferir a produção do modelo Fiesta para outras unidades do país. Segundo a empresa, no ano passado a planta fabricou apenas 19% dos 89 mil caminhões que é capaz de montar.

Em nota, a presidente da Ford América do Sul, Lyle Waters, disse que a companhia sabe do “impacto significativo” sobre os funcionários de São Bernardo do Campo e que a Ford propôs um acordo com o sindicato prevendo a estabilidade dos trabalhadores até novembro.

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Segundo a montadora, a decisão de deixar o mercado de caminhões foi tomada “após vários meses de busca por alternativas, que incluíram a possibilidade de parcerias e venda da operação”.

“A manutenção do negócio teria exigido um volume expressivo de investimentos sem, no entanto, apresentar um caminho viável para um negócio lucrativo e sustentável”, destacou em nota, prevendo um gasto de R$ 1,7 bilhão com “compensações de funcionários, concessionários e fornecedores”.

Logo em seguida ao anúncio, os trabalhadores decidiram entrar em greve, em uma tentativa de fazer a montadora voltar atrás. “Nossa decisão é de resistência, nós não vamos aceitar. O que vamos fazer? Tudo, tudo o que aprendemos no movimento sindical. Se tiver que fazer greve, vamos fazer. Ou acampamento. Se tiver que negociar, vamos negociar”, disse o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana. Para ler a matéria da BBC na íntegra, clique aqui.

“Se precisar fechar, fecha”, disse secretário de Guedes em resposta à GM

Até o momento, o governo Bolsonaro não se manifestou sobre o fechamento da unidade. Em uma reunião, em janeiro, com executivos da General Motors, líder de vendas no Brasil, o secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade, do Ministério da Economia, Carlos da Costa deu uma resposta que aponta para um governo pouco aberto a dialogar com a indústria.

Segundo informações da Folha de S.Paulo, durante o encontro, logo após escutar o vice-presidente de Relações Governamentais da GM no Brasil, Marcos Munhoz, relatar que a chefia da montadora nos Estados Unidos considerava as fábricas de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, e de São José dos Campos, interior paulista, “inviáveis” por causa do alto custo e que corriam o “risco de fechar” a fábrica, o secretário devolveu: “Se precisar fechar, fecha”.

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O prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando se manifestou em um vídeo nas redes sociais, criticando a decisão da Ford: “Não aceito a forma que está sendo feito. Não considero correto, acho um desrespeito com os trabalhadores e com a cidade”, disse.

Ainda, segundo a nota divulgada, a montadora culpou, além do prejuízo, a insegurança jurídica no país. O fechamento da planta faz parte de um plano de reestruturação global.

Em entrevista à Folha, o coordenador-geral da representação dos funcionários da montadora, José Quixabeira, o “Paraíba”, presente na reunião entre os trabalhadores e a diretoria da montadora, que aconteceu no dia do anúncio sobre o fechamento, disse que Lyle Watters contou que a Ford tentou vender a unidade para uma empresas turca, mas sem sucesso.

Quixabeira comentou, ainda, que a executiva afirmou que a fábrica de Camaçari (Bahia) também opera com dificuldades.

6 comentários

  1. Antes de ficar com pena ou revoltado, gostaria de saber em quem estes operários votaram e qual foi sua posição durante todo o processo golpista que terminou no impeachement fora da lei.

    • Verdade.Na época de 70,80, os trabalhadores eram politizados e participavam em consonância com os Sindicatos de todos os rumos da empresa.Hoje trabalhador de fábrica odeia Sindicato, são alienados políticos e votam em patrão.Agora, não adianta chorar.Colham o que plantaram.

  2. Vai para Curitiba!
    O golpe fechou a sua fábrica e acabou com seu emprego? Vai para Curitiba e liberta o Lula. No tempo do Lula seu emprego estava garantido e seu salário subia. Seu filho ia para a universidade. Você foi na conversa da globo, permitiu a prisão do Lula e te tiraram tudo. Até a aposentadoria. Não adianta acampar na fábrica. Chama a turma e acampa em Curitiba. No Acampamento Maria Letícia e liberta o Lula do cativeiro. É a única coisa que os homens tem medo. Não há outra coisa que possa fazer o seu emprego voltar.

  3. … vejo o fato de forma diferente: a tendencia sao fabricas robotizadas, com pouca mao de obra – as mais lucrativas, e a de SBC não é. Portanto, estão dando um cavalo de pau … vão limpar o terreno e começar do zero com novos equipamentos, pouca mão de obra e salarios menores. É lucro certo. Será criado um hiato ate isso se materializar e o segmento vai se autoajustar primeiro atraves dos encargos trabalhistas e da bolsa desemprego que receberão e depois a cadeia produtiva retorna em novas bases.
    A sinalização veio da GM – se nao der lucro este ano fechará. Em seguida a Peugeot, que apos zerar estoque encerra fabricação de alguns modelos. Aguardemos.

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