Fiquei sabendo de forma inusitada que o consultor-geral da República — e futuro ministro da Justiça — Saulo Ramos estava me processando, por meio do repórter Márcio Chaer, da Folha.
Contou-me ele que Saulo encaminhara a denúncia ao procurador-geral da República, Sepúlveda Pertence. Este passou o caso a um procurador, que opinou pelo arquivamento. Imediatamente, foi substituído por outro, que levou a denúncia adiante.
Não foi só isso.
Fui convidado para um encontro na casa do presidente do Banco Central, Fernão Bracher, em Brasília. Estavam reunidos ali todos os economistas do Cruzado. Faltava apenas Luiz Gonzaga Belluzzo. Até então, eu era o jornalista que mais se empenhara na defesa do Cruzado. A ponto de, certa vez, Saulo Ramos me telefonar em nome do Sarney, para falar da emoção do presidente com a defesa que eu fazia do plano. Minha mãe morava no mesmo prédio, ouviu a conversa e ficou preocupada com os elogios. E eu, incomodado.
Logo depois, Luiz Carlos Mendonça me passou a informação sobre um decreto de iniciativa do próprio Saulo, que acabava com a correção monetária sobre os passivos das instituições em liquidação extrajudicial – uma manobra para beneficiar Ronald Levinsohn, dono de uma caderneta de poupança liquidada pelo Banco Central.
A reunião começou com conversas informais. André Lara Resende comentou com os colegas o primarismo dos banqueiros tradicionais da época. Depois, Pérsio Arida mostrou umas contas que demonstrariam que os agricultores não tinham razão para reclamar das regras de conversão do cruzeiro para cruzado. Por aqueles dias, havia a informação de que agricultores gaúchos se preparavam para ir a Brasília de trator. João Manuel Cardoso de Mello era muito divertido:
— Pérsio, vamos colocar você na divisa com São Paulo, armado de um quadro-negro e uma calculadora, para explicar essas contas para eles.
Finalmente, a conversa caminhou para o essencial. Até então, eu não tinha a menor ideia da razão de ter sido convidado para aquela reunião. Bracher abriu o tema, dizendo que Saulo os havia pressionado a assinar uma carta em defesa dele, a ser anexada ao processo.
Olhei incrédulo para eles:
— E vocês assinaram?
André respondeu:
— Tivemos que assinar, ele é o consultor-geral da República.
Não ficou nisso. Bracher me informou que o ministro da Fazenda, Dilson Funaro, também escrevera uma carta, de próprio punho, para Saulo incluir no processo.
A informação foi tão surpreendente que até me divertiu. À minha frente, economistas tratados pela mídia como construtores do país, a esperança do povo de finalmente vencer o dragão da inflação, nus, pequenos, balbuciantes. Contei que havia escrito um livro sobre o Cruzado e que Funaro ficara de escrever o prefácio:
— Agora, fica nessa: se o Saulo processar, ele segura o prefácio e entrega a carta para me processar. Se o Saulo desistir, ele pega a carta de volta e me entrega o prefácio.
Bracher percebeu o quanto a história era desmoralizante e se apressou em dizer:
— Amanhã mesmo vou falar com o Dilson para convencer o Saulo a retirar esse processo.
Naquele momento, pelo menos dois dos presentes haviam sido minhas fontes: Luiz Carlos Mendonça de Barros e o próprio Bracher. Antes do Cruzado, eu me envolvera em uma polêmica desgastante com Jânio de Freitas, que os acusava de manipulação do câmbio, provavelmente posicionando-se no mercado à espera do plano. Não resisti a provocar João Manuel, da Unicamp:
— Eita, João Manuel, imagine que problema para a história registrar que você foi cúmplice do Saulo.
Antes da infausta reunião, percebia-se um deslumbramento total com o sucesso do Cruzado. Logo após o plano, compareci a uma festa do grupo de economistas e assessores em uma casa em Brasília. Surpreendi-me com o colega Carlos Alberto Sardenberg, que aceitara ser assessor do ministro do Planejamento, João Sayad, depois que recusei o convite. Do quintal da casa, avistava-se Brasília. Sardenberg olhava as luzes da capital e curtia:
— Pensar que somos cinquenta pessoas, agora, conduzindo o Brasil.
O único maduro, que não denotava deslumbramento, era o economista agrícola Guilherme Dias, que assessorava o ministro da Agricultura.
Era tanto o deslumbramento que uma repórter ambiciosa, recém-chegada à economia, metera-se em um jogo de sedução com um dos principais economistas e conseguia que ele vazasse informações sigilosas sobre os próximos passos do Cruzado. O amor interessado terminou no dia em que, caminhando à noite sob o luar de Brasília, o economista caiu em um bueiro e ficou entalado. Foram necessários três colegas de apartamento para desentalá-lo.
E agora os condutores da pátria confessavam ter se curvado às imposições do mais barra-pesada dos assessores de Sarney. Era demais.
Voltei para São Paulo e me preparei para o maior desafio da minha carreira até então.
A demissão da Folha
Logo depois, Otávio Frias me demitiu, após acertos com Saulo em torno de uma dívida do jornal com a Previdência. Ganhei alguns meses de sobrevida porque, no dia em que seria demitido, venci a categoria principal do Prêmio Esso. Durante algum tempo, Frias tentou encontrar um meio de justificar a demissão de um jornalista recém-premiado.
O então editorialista Marcos Cintra, da Fundação Getulio Vargas — que se notabilizou pela defesa do imposto único —, apresentou a saída. Como minha coluna Dinheiro Vivo explorava muito temas de aposentadoria e do sistema financeiro da habitação, sugeriu uma pesquisa do Datafolha com gerentes e diretores de empresas. Se o resultado fosse negativo à coluna, estaria arrumado o álibi para a minha demissão.
Assim que pedi demissão da Secretaria da Folha, fui convocado para dirigir o Datafolha. Lá, tratei com o braço-direito de Frias, Pedro Pincirolli, grande caráter, ex-campeão brasileiro de polo. Foi Pedro quem me informou o resultado da pesquisa sugerida por Cintra: a coluna fora escolhida, de longe, como a mais lida, mesmo entre gerentes e executivos de empresas.
Depois, Pedro convenceu Frias a me convidar de volta para o almoço mensal de editores do jornal — do qual eu deixara de participar ao pedir demissão da Secretaria. Frias aceitou, e ele me ligou exultante:
— Vai lá e mostre suas ideias. Será a maneira de eles pararem de te criticar pelas costas.
Foi um almoço divertido. Já bastante ligado à informática e às novas mídias que surgiam, apresentei um conjunto de ideias. Mas de nada adiantou: a decisão sobre a minha saída já estava tomada.
“Sou seu advogado”
Como o processo de Saulo continuava, procurei o advogado Márcio Thomaz Bastos, que conhecera no início da minha carreira de jornalista econômico, e pedi-lhe que assumisse o caso. Ele aceitou, e subi ao sétimo andar da Folha para comunicar a mudança ao dr. Rangel Pestana, o velho advogado do jornal que assumira minha defesa quando teve início o processo. A reação dele me surpreendeu:
— Mas você não está gostando do meu trabalho?
— Longe disso, dr. Rangel. É que o senhor é advogado da Folha.
— Não, senhor — respondeu ele. — Sou seu advogado.
E me mostrou cópia de uma carta desaforada que mandara a Frias, quando este ordenou que largasse o meu caso. Expliquei-lhe que não tinha dinheiro para pagar pelos trabalhos. E ele:
— Quem falou em dinheiro?
Nos meses seguintes, mesmo adoentado do pulmão, internado várias vezes, dr. Rangel teve uma dedicação comovente. E uma humildade a toda prova: quando tinha dúvidas sobre determinados aspectos do caso, não vacilava em ligar para Manuel Alceu Affonso Ferreira, advogado do Estadão.
As pressões se ampliaram antes mesmo de minha demissão da Folha.
Em São Paulo, dei sorte: o processo caiu com um juiz corretíssimo, o futuro desembargador e presidente do Tribunal Regional Federal José Kallas, de uma família de Santa Rita do Sapucaí — cidade onde cursei seis meses de eletrônica, aos 14 anos. Kallas foi dos primeiros juízes a se valer de computadores: tinha um Apple onde registrava suas anotações e escrevia suas sentenças.
Em outras praças, o jogo foi mais pesado.
A mão do poder
Senti o peso da mão do poder em Brasília, em uma audiência com o deputado gaúcho Paulo Mincarone, estreitamente ligado a Paulo Brossard — e que fora uma de minhas fontes: o parecer Brossard fora o principal instrumento para impedir a continuidade da indústria da liquidação extrajudicial, revogada por Saulo no decreto que eu denunciara. Antes da audiência, conversei com Mincarone sobre as jogadas de Saulo. Diante do juiz, para minha surpresa, ele declarou que só tomara conhecimento do tema pela imprensa. Ou seja: uma de minhas fontes dizia ter sabido do caso por artigos que eu escrevera com base em conversas, entre outras, com ele.
Saí da audiência e fui ao STF, onde o procurador-geral Sepúlveda Pertence estava em sessão. Peguei-o no intervalo, no cafezinho:
— Dr. Sepúlveda, meu nome é Luís Nassif e estou sendo processado pelo Ministério Público a pedido do consultor-geral da República.
Ele me olhou, algo surpreso.
— Não vim até o senhor para pedir nada, só para entender o que o poder faz com pessoas com a sua biografia.
— Por que está dizendo isso?
— Porque o senhor incumbiu um procurador de me processar, ele opinou pelo arquivamento e o senhor passou o caso para outro.
— Mas era pedido do próprio consultor-geral, eu não podia fazer nada. Além disso, você poderá invocar a exceção da verdade.
— Já me informei, e não tenho direito.
Despedi-me e fui ao Jornal do Brasil, para uma conversa com Carlos Castello Branco, o Castelinho, o mais importante colunista político da época. Ele ouviu a minha história e, no dia seguinte, fez a minha defesa em sua coluna.
O depoimento de André Lara Resende
Impacto maior teve o depoimento de André Lara Resende, no Rio de Janeiro. Como dr. Rangel não poderia ir comigo, pedi uma indicação a Márcio Thomaz Bastos. Ele me pôs em contato com um amigo, titular de um escritório no Rio. No dia da audiência, o amigo tinha um compromisso. Não consegui adiar a audiência, e ele acabou enviando um advogado novato para me acompanhar.
O jovem advogado nada sabia do caso. Eu precisava, então, passar a ele cada pergunta, que o juiz reformulava antes de encaminhar a André, que respondia. Foi uma manipulação ampla.
A pergunta era: “A testemunha admite que o acusado era fonte da equipe econômica?”
O juiz mudava para: “A testemunha pode garantir que o acusado era íntimo dela?”
E a resposta, obviamente, era não.
Comecei a resmungar no meu lugar, e o juiz foi duro. Dirigiu-se ao advogado:
— Diga a seu cliente que, se não parar de resmungar, mando prendê-lo.
E foi assim até o fim. Terminado o depoimento, enquanto o juiz ditava a parte final para a datilógrafa, o advogado virou-se para mim:
— Mas você não me disse que ele era testemunha de defesa.
Respondi alto, para que André ouvisse:
— Sou muito ruim para avaliar caráter de pessoas.
A estocada pegou André no fígado.
— Mas você não disse que eu deveria responder às perguntas do juiz?
Estourei e respondi alto, para que o juiz ouvisse:
— E você não percebeu que o juiz estava manipulando as perguntas? Fez o jogo dele.
— O que você quer que eu diga, então?
— Diga a verdade: que eu era fonte de vocês e acompanhava de perto o Cruzado.
Foi a vez de o juiz se manifestar:
— Não vou admitir nenhum adendo ao depoimento.
Reagi:
— Então não assino. Se quiser me prender, que prenda.
Aí o juiz resolveu conquistar a minha simpatia. Passou a folhear o processo e reparou no nome de Kallas:
— Ora, seu juiz é o dr. Kallas.
— É, sim, um juiz sério. Pena que seu exemplo não seja seguido por seus colegas.
O juiz levantou os olhos e chamou o meu advogado. Cochichou-lhe algo. O advogado voltou e me passou o recado:
— Ele disse que o barbudo sentado ali é representante do consultor-geral e que ele não pode fazer nada.
Insisti:
— Então não assino.
O juiz acabou consentindo em incluir novas declarações de André. Na saída, falou de novo comigo:
— Fui isento, você não achou?
Eu estava chutando o pau da barraca:
— Não, senhor.

Em São Paulo, Kallas garantia a isenção. Mesmo assim, era um peso enorme, com dr. Rangel Pestana enfrentando problemas de saúde cada vez mais graves.
A armadilha do Unibanco
Um dos depoimentos foi o do então ministro da Indústria e do Comércio, José Hugo Castelo Branco, caixinha de campanhas eleitorais. Na manhã desse dia, o diretor do Unibanco Crédito Imobiliário, Luiz Eduardo Pinto Lima, convidou-me para um café no banco.
Por aqueles dias, eu me metera na polêmica monumental sobre os critérios de conversão dos contratos do Cruzado — em especial a conversão dos saldos devedores do Sistema Financeiro da Habitação, que, nas mãos de Pérsio Arida, beneficiava claramente os bancos em detrimento dos mutuários, disputa já relatada na seção sobre as tablitas. Quando cheguei ao Unibanco, havia um grupo de técnicos de diversas instituições à minha espera, para questionar meus números. E, à tarde, ainda haveria o depoimento do ministro. Discuti um pouco com eles, depois interrompi e cobrei Pinto Lima: ele armara uma armadilha, e eu não cairia nela. Se quisessem, que mandassem os questionamentos por carta para a Folha; eu os analisaria um a um e responderia.
As pressões e o grampo
As pressões de Saulo continuaram intensas.
Uma delas veio por meio do empresário Lawrence Pih, chinês naturalizado brasileiro, formado em filosofia nos Estados Unidos. No Jornal da Tarde, soube que ele levava brinquedos para distribuir nas periferias. Pautei uma reportagem com ele, que, gradativamente, entrou no circuito da imprensa. Dizia que a China de Chiang Kai-shek havia caído pelo excesso de corrupção e pela insensibilidade do governo — e não queria o mesmo para o Brasil. Na verdade, quando o regime caiu, seu pai conduzia um petroleiro carregado para a China. Mudou a rota, desembarcou em Santos, vendeu a carga e capitalizou-se, adquirindo um moinho de trigo e investindo em ouro e em terrenos em São Paulo.
O recado de Saulo, trazido por Pih, era claro:
— Ele mandou dizer que, assim como ele, você trabalha em uma profissão sensível, o jornalismo. Se não parar de atacá-lo, ele vai começar a atacá-lo. Já tem uma lista de comentários que você fez no Dinheiro Vivo, da TV Gazeta, e o impacto deles nas ações no dia seguinte.
A resposta foi simples:
— Diga a ele que, se quiser inventar, é livre. Mas não vai descobrir nada, porque jamais operei na Bolsa. Vai apenas provar que o programa influencia o mercado.
Tempos depois, o advogado Ives Gandra me contou que ele próprio desestimulara Saulo, ao afiançar que provavelmente nada encontraria sobre o Dinheiro Vivo.
Mas o que provavelmente desestimulou Saulo foi algo mais grave: um grampo colocado no meu telefone de casa.
Na época, a Telesp havia instalado a primeira Central de Programação Armazenada (CPA), o sistema eletrônico de telefonia, na Vila Mariana. Eu morava no Paraíso e passei a ser atendido por essa central. O sistema tinha um serviço útil, novidade à época: se você estivesse falando ao telefone e alguém ligasse, o aparelho dava um sinal; bastava teclar o 1 para atender a outra linha, retendo a primeira. E, se por acaso você desligasse deixando uma linha presa, o telefone tocava.
Ao fim de cada ligação, vinha o aviso de segunda linha presa. Eu atendia e não havia nada. Desconfiei que o toque fosse acionado por algum sistema de escuta.
Certa manhã, peguei o metrô para entrevistar um ex-auditor do Banco Central, que presidira um inquérito contra Saulo, o da Financeira Ideal. Estava aposentado, com problemas de pulmão, e morava no Viaduto Dona Paulina. Fui lá, conversei com ele. Na volta, resolvi passar na Bolsa de Valores de São Paulo, então presidida por Carlos Eduardo Rocha Azevedo, cujo chefe de gabinete era Fernando Sandoval, com quem eu trabalhara na Veja.
Fui tomar um café com Sandoval e lhe falei das minhas suspeitas. Ele ironizou:
— Turco, para de paranoia. Você não está sendo grampeado.
Voltei para casa. À tarde, ele me ligou:
— Vá para um orelhão e me ligue.
Liguei, e ele me confirmou o grampo. Havia conversado com Walter Maierovitch, desembargador e corregedor da Polícia Civil, seu amigo e colega de Clube Paulistano, e ele confirmara: os autores eram da Polícia Federal, dirigida por Romeu Tuma.
Sandoval recomendou que eu procurasse logo Maierovitch. No dia seguinte, eu tinha uma palestra em Porto Alegre. Na volta, fui ao escritório do corregedor e denunciei que desconfiava que o grampo fora colocado pela Polícia Civil paulista — era a maneira de permitir que Maierovitch pudesse atuar.
No fim da tarde, em casa, técnicos da corregedoria identificaram o grampo. Em vão alertei a Folha e pedi cobertura de reportagem: deixaram-me na mão. À noite, na TV Gazeta, denunciei o grampo com ênfase.
Indaguei de minha esposa, à época, se ela havia dito algo sobre a briga com Saulo ao telefone. Ela disse que a única coisa que falara fora ao Laco, amigo e pediatra de nossas crianças: que eu não entendia a insistência de Saulo em me processar, porque eu tinha elementos muito mais graves contra ele.
Dias depois, o próprio Tuma apareceu na Gazeta para uma entrevista, e o cobrei no café:
— Que história é essa de grampear jornalista, dr. Tuma?
Ele procurou se esquivar. No meio da guerra, quando outros jornais entraram na batalha me apoiando, Saulo foi aconselhado a se mandar do país por um tempo. Passou um mês em Paris. Tuma me garantiu que, ao acompanhar Saulo ao aeroporto, sugeriu-lhe que deixasse a briga de lado:
— O jornalista tem mais elementos contra você.
Mas a guerra não parou por aí.
A revista no aeroporto
Naquela ocasião, a Alcoa levou uma comitiva de cinco jornalistas para conhecer suas fábricas nos Estados Unidos, especialmente os programas de reciclagem de alumínio. Eu era um deles.
Pouco antes, dois episódios no Aeroporto de Guarulhos haviam me chamado a atenção. Como ainda não havia cartão de crédito internacional, os viajantes só podiam sair do país com uma cota mínima de dólares, cerca de 300, se não me engano. Houve duas apreensões de viajantes: uma, do empresário Naji Nahas; outra, do advogado e dono de universidade Edvaldo Alves Sobrinho. Os dois tinham em comum diferenças com Saulo: este defendera o investidor Nagib Audi em uma disputa sangrenta contra Naji; e Edvaldo era dono de uma banca que rivalizava com a de Saulo em influência, disputando com ele inúmeros casos. Percebi a mão de Saulo nos dois episódios. Na volta, evitei adquirir um notebook, prevendo problemas na alfândega.
Foi na mosca. Quando descíamos as escadas do avião, encontrei Fernando Vieira de Mello, notável jornalista, diretor da rádio Jovem Pan, que aguardava o filho, que estava no mesmo voo. (Quando fui mandado embora da Folha, Fernando tentou me contratar para a Jovem Pan; cheguei a participar de um programa, mas, no dia seguinte, ele me comunicou que não seria possível: Sarney, por meio do ministro das Comunicações, Antonio Carlos Magalhães, concedera um canal de TV a cabo à Jovem Pan, em parceria com o Objetivo, e Tuta Machado de Carvalho foi demovido da ideia de me contratar.)
— Até o Tuma está aqui — disse-me ele, olhando para trás para chamar o delegado.
Não o achou: Tuma estava atrás de uma coluna. Foi lá e o trouxe. Provoquei:
— O que foi, delegado? Veio revistar todas as bagagens?
Dito e feito:
— Recebemos uma denúncia de que há um doleiro no avião, com 4 milhões de dólares em uma mala.
Ironizei:
— Poxa, delegado, o senhor não sabia que quantias dessa ordem são transferidas por cabo?
— É. Mas, como veio a denúncia, precisaremos revistar todas as bagagens.
Passei incólume.
O desfecho com Funaro
De qualquer modo, o processo deixou de me incomodar. O Cruzado começara a fazer água. Era questão de tempo para implodir e, com ele, toda a influência de Saulo Ramos.
Pouco antes de eu sair da Folha, quando já se anunciava um Cruzado 2, escrevi uma coluna defendendo que, para um Cruzado 2, era preciso um Funaro 2 — mais corajoso e desprendido.
Num domingo de manhã, minha filha Mariana me acordou:
— Pai, tem um homem querendo falar com você.
— Não falou que eu estava dormindo?
— Falei, mas ele está bravo.
Atendi. Era Funaro:
— Nassif, como você diz que não tenho coragem e desprendimento? E a maneira como estou encarando a minha doença?
De fato, havia vazado a notícia de que Funaro estava com um câncer grave, que o levaria pouco tempo depois.
— Dilson, falei da coragem de enfrentar a impopularidade e tomar as medidas necessárias para corrigir os erros do Cruzado.
No meio da conversa, todas as mágoas do caso Saulo vieram à tona:
— E quem é você para ligar para a minha casa, depois do episódio Saulo?
— O que aconteceu com Saulo?
— Você ficou de escrever o prefácio do meu livro sobre o Cruzado. Em vez disso, ofereceu uma carta para o Saulo me processar.
Funaro levou um susto:
— Amanhã mesmo vou falar para o Saulo tirar esse processo.
— Conversa, ministro. Não vai falar nada.
Ainda tivemos um último encontro. Já fora do governo, tendo João Santana — que depois se tornaria ministro de Collor — como guarda-costas, Funaro convidou um grupo de jornalistas para um encontro no Hotel Hilton. Fui. Ele passou quase todo o evento tentando se desculpar.
Depois de sua morte, recebi a visita do filho, Dilsinho. Veio me dizer que o maior remorso do pai fora a maneira como me tratara no episódio Saulo.
Era um homem sério, bem-intencionado, mas que, em determinado momento, acreditou ter sido tocado pela mão divina.
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