O acordo assinado entre europeus na Segunda Guerra que selou destino da Palestina

Tatiane Correia
Repórter do GGN desde 2019. Graduada em Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo.
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Assinado entre sionistas e nazistas, Acordo de Haavara permitiu que cerca de 60 mil judeus dessem início à ocupação de territórios palestinos

Judeus no campo de concentração de Auschwitz. Foto: Wikipedia.

A Segunda Guerra Mundial não só culminou com o extermínio de milhões de judeus na Europa, mas também foi o primeiro passo para a longa guerra entre judeus e palestinos no Oriente Médio por conta da assinatura do Acordo de Haavara.

Assinado em 25 de agosto de 1933 pela Agência Judaica para a Palestina e o governo alemão nazista, o Acordo de Haavara viabilizou a migração de judeus da Alemanha para a Palestina, então controlada pelo Reino Unido, levando parte de seus bens, em especial produtos alemães.

Como lembra o jornal britânico The Independent, o Acordo de Haavara foi o único contrato formal assinado entre a Alemanha nazista e uma organização sionista. Os signatários foram o Ministério da Economia do Reich, a Zionistische Vereinigung für Deutschland (Federação Sionista da Alemanha) e o Banco Anglo-Palestino (então sob a diretriz da Agência Judaica para a Palestina).

Em linhas gerais, o Acordo de Haavara tinha a seguinte proposição:

 – Transferência de Bens: O acordo permitia que judeus emigrantes transferissem parte de seus ativos para a Palestina em forma de mercadorias produzidas na Alemanha. Isso significava que os judeus que estavam deixando a Alemanha podiam converter seus ativos em produtos alemães, que seriam então vendidos na Palestina.

 – Compensação: As autoridades alemãs emitiam uma garantia de que os bens exportados para a Palestina seriam pagos aos judeus emigrantes ou a uma entidade sionista na Palestina. Essa garantia era crucial, pois havia preocupações sobre a confiabilidade do governo alemão em relação ao pagamento.

 – Empresa de Colonização: A Haavara Ltd., empresa de colonização sionista, era responsável por receber os fundos e convertê-los em investimentos na Palestina;

 – Importação de Produtos Alemães: Os investimentos financiavam a compra de produtos alemães, que eram exportados para a Palestina;

 – Capital Inicial: O acordo exigia um capital inicial de 1.000 libras esterlinas por emigrante, o que limitava o acesso a judeus mais ricos.

O acordo foi bom para ambas as partes: para os judeus, foi a oportunidade de escapar da perseguição do governo de Adolf Hitler, levando consigo parte de sua riqueza.

Para a Alemanha nazista, o acordo proporcionou uma saída para seus produtos em um momento de crise econômica global, além de reduzir o número de judeus dentro do país.

O acordo entre sionistas e nazistas funcionou de forma regular pelo menos até 1938, e favoreceu cerca de 60 mil judeus Alemães e austríacos que, ao emigrar, levaram consigo 100 milhões de dólares (em torno de $ 1,7 bilhões, em valores de 2009), recursos que serviram para lançar as bases da infraestrutura do futuro estado de Israel.

Restrições britânicas

A Palestina era controlada pelos britânicos, que tentaram estabelecer restrições à imigração de judeus e a entrada de bens. Entretanto, o Acordo de Haavara driblou tais regras, uma vez que os produtos alemães não eram contados nas quotas de imigração judaica.

O acordo teve severas implicações para os palestinos, principalmente quando se considera o contexto da época. Entre os pontos, podemos destacar:

Concorrência Econômica: A chegada dos produtos alemães à Palestina através do Acordo de Haavara representou uma concorrência para os produtores e comerciantes locais. Isso poderia afetar negativamente a economia local, especialmente se os produtos alemães fossem vendidos a preços mais baixos.

Tensões Políticas: O aumento da imigração judaica para a Palestina, facilitada em parte pelo Acordo de Haavara, exacerbou as tensões entre a população judaica e árabe na região. Os palestinos já estavam preocupados com a crescente presença judaica e temiam a perda de terras e recursos.

Impacto Demográfico: A imigração judaica incentivada pelo Acordo de Haavara contribuiu para mudanças demográficas na Palestina, aumentando a população judaica em relação à árabe. Isso alimentou ainda mais as tensões étnicas e religiosas na região.

Consequências a Longo Prazo: O Acordo de Haavara pode ser visto como um dos muitos fatores que moldaram o conflito entre judeus e palestinos na região. As tensões resultantes desse conflito continuam a ter repercussões até os dias de hoje.

Cenário atual

A pressão dos judeus em torno da Palestina tem sido vista até hoje, com o governo de Benjamin Netanyahu retendo e enviando sua receita em impostos para um fundo na Noruega, reduzindo a capacidade do governo em pagar salários do funcionalismo público e fazer os investimentos necessários para tentar conter os efeitos da guerra na Faixa de Gaza.

Em artigo publicado no Jornal GGN, a professora aposentada Maria Luiza Alencar Mayer Feitosa lembra que a resolução das Nações Unidas “instalou Israel como entreposto dos EUA, ali no Oriente Médio, pertinho dos grandes interesses energéticos que movem o mundo. Desde 1948, a Palestina tem vivido em situação de conflito endêmico, porque uma guerra teve início no dia seguinte à criação desse novo Estado. E depois outra e outra e outra, todas vencidas por Israel”.

“Israel foi, pouco a pouco, usurpando mais e mais terras e acuando os palestinos. Restaram Gaza e Cisjordânia, onde fica Jerusalém oriental, capital da Palestina, distantes uma da outra, sem fronteira mesmo. Gaza é uma faixa parecida com a praia de Cabo Branco (maior, claro), espremida entre Israel e o Mar Mediterrâneo. Ali, na zona de maior conflito, cresceu o Hamas, partido político, hoje, grupo terrorista”. 

Em 2018, o líder da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, afirmou publicamente que os judeus na Europa foram massacrados durante séculos devido ao seu “papel social relacionado com a usura e os bancos”.

Durante reunião do Conselho Nacional Palestino, Abbas discutiu a sua perspectiva sobre a história judaica e sionista, argumentando que Israel é um “projeto colonial sem qualquer relação com o judaísmo”.

“Desde o século XI até ao Holocausto que teve lugar na Alemanha, os judeus – que se mudaram para a Europa Ocidental e Oriental – foram submetidos a um massacre a cada 10 a 15 anos. Mas por que isso aconteceu?” Abbas disse: “A questão judaica que foi generalizada em todos os países europeus… não foi por causa da sua religião, mas sim do seu papel social relacionado com a usura e os bancos”, pontuou, segundo artigo publicado no jornal The Jerusalem Post.

Em suma, o Acordo de Haavara não apenas teve impactos econômicos imediatos na Palestina, mas também contribuiu para a ebulição de décadas de tensões políticas e étnicas na região, incluindo os recentes massacres na região de Gaza.

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Tatiane Correia

Repórter do GGN desde 2019. Graduada em Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo.

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