O Império vai às urnas
por Luis Felipe Miguel
Os Estados Unidos gostam de se apresentar como “a mais perfeita democracia do mundo”. Na verdade, seu sistema político é um mostruário dos problemas e limitações da democracia concorrencial limitada, aquela que surge da acomodação do ideal democrático à economia capitalista.
Não estou falando apenas de excrescências como o colégio eleitoral, sobrevivência bizarra do processo de construção da federação, que não apenas leva à eleição de presidentes que muitas vezes recebem menos votos que seus adversários, mas também desvirtua toda a campanha eleitoral, forçando a concentração nos poucos estados-pêndulo.
Falo da força avassaladora do dinheiro, que é o principal agente antes, durante e depois do processo eleitoral.
O dinheiro forma a opinião pública, por meio do controle da mídia e da propaganda ideológica incessante. Isso resulta em situações surpreendentes, como pessoas que morrem porque não conseguem pagar pelo atendimento médico, mas que abominam a ideia de um serviço público de saúde por considerá-lo “socialismo”.
O dinheiro distorce as campanhas eleitorais, a ponto de a principal atividade dos candidatos ser bajular potenciais doadores. Um entendimento bizarro da liberdade de expressão, que compreende o direito de usar o poder econômico sem restrições, faz com que uma campanha presidencial nos Estados Unidos supere facilmente a casa do bilhão de dólares.
O dinheiro, por meio do lobby, garante que as decisões dos três ramos do governo sejam sempre favoráveis ao capital. O lobby é defendido como uma forma de permitir o diálogo entre representantes políticos e diferentes segmentos da sociedade, mas, na prática, é uma maneira institucionalizada de garantir poder a quem dispõe de dinheiro. Segundo cálculos, 97% do dinheiro gasto em atividades de lobby nos Estados Unidos é para defender interesses empresariais.
Assim, a grande democracia estadunidense sempre viu a “alternância no poder” dos mesmos defensores do capital e do imperialismo. A insensibilidade diante do genocídio em Gaza é apenas um exemplo eloquente: considerações básicas de humanidade se apagam diante do dinheiro do lobby sionista e da utilidade de Israel para a geopolítica dos Estados Unidos no Oriente Médio.
Se os Estados Unidos encarnam as patologias de uma democracia reduzida ao momento eleitoral e restrita pelo capitalismo, também servem como modelo quando estudamos a crise aberta desse arranjo, deflagrada a partir do início deste século.
O “populismo” de Donald Trump é a expressão da decadência da legitimidade de um sistema que efetivamente falhou em honrar aquilo que prometia.
Amanhã será a culminação de uma das campanhas mais estranhas da história. Um presidente senil se viu obrigado a desistir da pretensão de ser reconduzido ao cargo.
Seu principal adversário está tão senil quanto. Mas, como aparenta mais vigor físico e, sobretudo, porque sempre foi uma máquina de falar sandices, a condição não é tão notável.
Kamala Harris, a substituta de Biden, fez uma campanha errática. Seu adversário ora era uma piada, ora uma ameaça. Ela iria unir a “América” (como os Estados Unidos gostam de chamar a si mesma), mas também podia ser a guerreira que liderava uma cruzada contra o mal. Às vezes enfatizava a cartada identitária, às vezes queria ser um homem branco como outro qualquer, com sua arma na mão.
Trump e seus apoiadores passaram a campanha inteira soltando mentiras deslavadas – de imigrantes comendo cachorros a fraudes no registro de eleitores. Nada de novo sob o sol.
Já Kamala Harris se mantém no âmbito das mentiras tradicionais da velha política. Ela adapta sua imagem conforme o público a que se dirige e evita os problemas espinhosos.
Em particular – e isso pode ter efeitos importantes no resultado das eleições, caso a revolta da significativa comunidade de origem árabe de Michigan realmente se transforme em perda de votos para o Partido Democrata – ela finge não ser capaz de ver o que está acontecendo na Palestina e insiste em negar a realidade do genocídio.
O desânimo que marca a eleição mostra que uma parte importante do eleitorado nos Estados Unidos não se sente contemplada com nenhuma das duas grandes opções colocadas à sua disposição. Nem por isso, outras alternativas estão sendo viabilizadas.
De fato, o grande trabalho ideológico, lá como cá, não é fazer com que as pessoas aceitem que tudo está bem. É fazê-las pensar que não há saída.
Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).
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