10 de junho de 2026

O mal-estar franco-caledônio, por Daniel Afonso da Silva

Ao menos desde 1980 que parcelas importantes da população local se mobilizam pela independência da Nova Caledônia
Nova Caledônia

O mal-estar franco-caledônio

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por Daniel Afonso da Silva

Tem perto de três semanas que a Nova Caledônia, domínio francês na Oceania, vive momentos de tensão, insurreição e apreensão. A deflagração de protestos de alta monta na ilha levou o governo metropolitano a reagir com a decretação de um estado de emergência e – diante da insuficiência da medida – a impor a viagem, em pessoa, do presidente Emmanuel Macron ao Pacífico.

Ladeado de seu ministro do interior, Gérard Darmanain, chefe de estado-maior, Sébastien Lecornu, e ministra do ultramar, Marie Guévenoux, o presidente francês chegou ao aeroporto da capital Noumea na manhã do dia 23 de maio e prometeu permanecer no país até a superação do tempo feio. O seu propósito reiterado era a recomposição irrestrita de “paz, calma e diálogo”. Ou, sob sua própria correção, “melhor” “imediata” “paz, calma e segurança”.

O mal-estar franco-caledônio seguramente não começou no início deste mês. Bem do contrário. Vem de muito longe. Mas no início deste maio ganhou novas proporções diante do avanço da tramitação do projeto de lei para a regularização dos corpos eleitorais do país. Uma regularização que seria, em verdade, um recenseamento eleitoral da população francesa – e não autóctone – na ilha e a permissão para a sua participação nos pleitos locais.

Desde 1990 que medita similar não se fazia. Desde então que existe, portanto, um vazio de representação aos franceses nesse ultramar.

A regularização agora proposta e em tramitação foi, no entanto, pessimamente recebida pelos autóctones Kanaks, que perceberam nela mais uma forma de cerceamento do poder e do interesse dos locais a partir da ampliação das margens de projeção da representatividade metropolitana.

Dito sem concessão, os Kanaks entendem ser mais uma mostra da inequívoca prevalência de certo colonialismo anacrônico francês na ilha.

Ao menos desde 1980 que parcelas importantes da população local se mobilizam pela independência do país. O presidente François Mitterrand apareceu de surpresa por lá em 1988 para distensionar a situação e dissuadir o povo. Surtiu efeito. E a pacificação se manteve. Mas agora o problema retorna. E retorna com outras roupagens e magnitudes.

Não são, claramente, só pelos votos. Esse é o fator mais relevante a ser fixado. Muito embora a questão eleitoral tenha dinamizado a escaramuça. São muitas as problemáticas em sinergia. Mas para iniciar a conversação, ao menos cinco parecem ser objeto de preocupação imediata e diuturna em Paris.

1- Ocaso da legitimidade da prevalência do colonialismo francês.

    A França segue colonialmente plantada em todos os continentes. Notadamente em Saint-Pierre-et-Miquelon, nas Antilhas e em Caiena nas Américas, na Reunião e em Mayotte na África e na Polinésia e em Nova Caledônia na Oceania. Essa ubíqua presença ultramarina aufere ao país a condição de segunda – depois dos Estados Unidos – maior zona marítima exclusiva, com 10,2 milhões de quilômetros quadrados de influência marítima no mundo inteiro. Sendo que a porção da Nova Caledônia representa perto de 15% desse montante.

    O mal-estar franco-caledônio representa, essencialmente, um forte e pesado questionamento a tudo isso.

    2- A problemática do níquel caledônio.

    A Nova Caledônia concentra imensas e relevantes reservas mundiais de níquel além de importantes jazidas de cromo, cobalto, ferro, ouro, cobre e manganês. Tem mais de um século que os franceses exploram favoravelmente esses minerais e, notadamente, o níquel.

    Entretanto, dois fenômenos recentes colocam em questão essa pactuação.

    Por um lado, o preço internacional do níquel baixou consideravelmente reduzindo as divisas dos caledônios. Por outro lado, mesmo que monetariamente desapreciado no mercado, o níquel corresponde a um fator estratégico decisivo na recomposição das bases energéticas mundiais. Especialmente na Ásia e precisamente na China.

    Vendo tudo isso, os caledônios desejam, eles próprios, exercer o seu o direito integral de exploração e comercialização do produto para além do infame arranjo oligopólio versus oligopsônio afirmado na relação metropolitano-colonial imposta pela França.

    3- O mal-estar geopolítico.

    O mal-estar ocidental, europeu e francês derrete a percepção dos caledônios frente à pretensa legitimidade do mando francês na ilha. O posicionamento dos franceses na querela eslava e na problemática médio-oriental vem sendo recebida com desmesurado desapreço pela opinião pública da Nova Caledônia. E o extraordinário desarranjo interno da Europa e da França tem levado os caledônios a francamente buscar alternativas estratégias de influência.

    Nesses termos, o Azerbaijão tem sido um dos mais explícitos apoiadores do movimento independentista e das escaramuças atuais na Nova Caledônia. Mas ninguém acredita que se trate simplesmente se solidariedade sem propósitos. Esse país euroasiático, ao fim das contas, serve claramente de cobertura para os evidentes interesses hegemônicos da Rússia e da China na região.

    4- Incompreensão como missão.

    Não é simples a mensuração da legitimidade do projeto de lei em tramitação no parlamento francês. O presidente Macron indicou que ele seria “congelado” até se pacificar a situação na ilha. Mesmo assim, os locais não têm a pretensão pacificar a situação tão logo. Os números oficiais indicam que os estragos já contabilizam mais de um bilhão de euros. Há milhares de pessoas interditadas – sem poder entrar nem sair do país. A Austrália, país vizinho, não sabe mais que fazer. Parece ser pouco o inexpressivo para quem do outro lado do mundo, aqui no Brasil. Mas, por lá, a agitação é imensa. A posição geográfica da Nova Caledônia representa, simplesmente, o destino estratégico da economia mundial. Está mais que claro que a questão não reside nos votos.

    5- O fardo do homem branco.

    A magnitude dos protestos indica que os caledônios deixaram de se intimidar diante da cultura, do poderio militar e da relevância econômica – e, portanto, da superioridade – do homem branco. O general De Gaulle esteve na ilha depois de 1958 e foi claro a afirmar que a Nova Caledônia era a França e que os caledônios eram franceses. Naquele após-1945, essa gramática discursiva ainda era reconhecível e, em vários aspectos, legitimável. Hoje, claramente, não. Nesta quadra do século XXI, ela simplesmente perdeu a sua força tendo se tornado, entre outras coisas, claramente politicamente incorreta. Ninguém mais aceita. Na ilha sobretudo. Mas muito também fora dela.

    Ou seja, complicado. Muito complicado. O tempo ficou nublado para a França.

    O presidente Macron retornou a Paris no mesmo dia 23 de maio com a convicção de missão cumprida. O domínio ultramarino ocupado desde 1853 na Oceania parece estar assegurado. Muita gente em Paris chegou a se congraçar a sua astúcia – e, quem sabe, virilidade – ao afirmar esse gesto. Mas não foi seguramente a percepção dos caledônios nem do resto do mundo atento aos sinais.

    Para esses, o protesto venceu ao deixar bem clara a existência de Noumea e da Nova Caledônia assim como de todo o mal-estar da prevalência da sombra do colonialismo francês na região.

    O jogo não terminou. Quem viver, vai ver o seu desenrolar. Mas, pelo que se apresenta, está claro que não vai ser necessário viver muito para ver muito. A sorte francesa está – mais uma vez – lançada.

    Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”.

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    Daniel Afonso da Silva

    Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”. [email protected]

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    2 Comentários
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    1. allan.patrick

      29 de maio de 2024 9:31 am

      Esse conflito tem reflexos no Brasil, salvo engano a mina de níquel mais importante da Nova Caledônia é explorada pela Vale.

    2. bomba11

      30 de maio de 2024 3:07 am

      Torcendo pela independêncida da Nova Caledônia. Tomara que consigam logo.

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