O triunfo dos ninguém na Colômbia, por Diego Andrés Guevara Fletcher e Eduardo Rivas

O futuro do governo de Petro e Márquez e o futuro da Colômbia dependem de que os “ninguém” deixem de ser “ninguém”

por Diego Andrés Guevara Fletcher e Eduardo Rivas

A vitória de Gustavo Petro nas recentes eleições presidenciais colombianas tem múltiplas arestas para sua análise e se posiciona como um vértice diante de uma possível mudança de época na Colômbia e na América Latina. Sua chegada ao Palácio de Nariño significa que a esquerda governa pela primeira vez no país de García Márquez.

Para isso, Petro acrescentou à sua campanha a líder social Francia Márquez, uma liderança afro-colombiana que soube ser a “voz dos sem voz”. Pela primeira vez, muitos colombianos encontraram uma opção política que os representasse diretamente, muitos colombianos da região profunda, esquecida e discriminada que sentiam que alguém como eles procurava representá-los. O impacto da incorporação de Márquez foi muito mais importante do que os votos que obteve individualmente. Sua chegada à fórmula presidencial a fortaleceu e gerou que o todo é mais do que a soma das partes.

Mas isso também fez com que as esperanças que os colombianos depositavam neles fossem muito altas, e aí está a chave para o futuro de seu governo. Seu sucesso não se deve tanto ao cumprimento das promessas eleitorais, que foram variadas e muitas delas disruptivas e até populistas, como em matéria de hidrocarbonetos, educação ou programas sociais, mas fundamentalmente, por poder cumprir as ilusões de seus eleitores, e é um imaterial de difícil compreensão.

É a primeira vez na vida republicana que a esquerda vai governar na Colômbia, e é a primeira vez que muitos colombianos esperam ver suas demandas atendidas. Por isso, obtiveram-se índices de votação muito bons em áreas marginais do país, permeadas pela situação de violência que os aflige, com indicadores socioeconômicos precários, pois os cidadãos foram apresentados a um futuro diferente, um futuro melhor após a má experiência de os governos anteriores, principalmente pelos indicados pelo ex-presidente Uribe, que se materializa no péssimo presidente Iván Duque. Esses setores esperam que, com Petro e França, se promova o desenvolvimento rural que encurrala o narcotráfico, que continua sendo um fator econômico determinante no país caribenho, e que permita acabar com o deslocamento interno e garantir a presença do Estado nessas vastas áreas, sem controle, onde gangues paramilitares de drogas estabeleceram um país paralelo.

Mas não será fácil. Petro e Márquez triunfaram numa eleição polarizada que expôs praticamente um empate técnico entre as duas clivagens políticas em que se divide o país, realidade que também se vive no Parlamento, área em que o Executivo poderá contar com maiorias graças a alianças políticas que terão uma maioria que apoie seus projetos. Você terá que negociar, é claro. Você terá que construir maiorias. Você vai ter que fazer política.

Mas não será impossível. Há muitos colombianos que querem um novo país, guiado por novos paradigmas e novas coalizões. Um governo, como afirma Francia Márquez, “para viver gostoso”; um governo como disse o novo presidente, a demanda da hora é a construção de “uma potência mundial da vida”. E se quisermos sintetizar em três frases em que consiste um governo de vida, diríamos: primeiro, em paz; segundo, na justiça social; terceiro, na justiça ambiental”.

O contexto internacional parece estar do seu lado. Luiz Inácio ‘Lula’ Da Silva caminha para um terceiro mandato presidencial e a harmonia entre outros líderes como AMLO e Boric no Chile é inegável. Isso permitirá que ele evite o isolamento internacional e um novo clima para o país, obtusamente esquecido pelo atual presidente, o que pode resultar nas primeiras medidas anunciadas, incluindo a reabertura das fronteiras com a vizinha Venezuela, favorecendo o comércio entre os dois países. bem como a diminuição do fluxo migratório. Isso também terá impacto no processo de paz, no qual o Petro decidiu avançar de forma decisiva, e nele como incorporar o Exército de Libertação Nacional; os grupos dissidentes das FARC, os sujeitos à extradição, bem como os grupos criminosos. Os Estados Unidos, por sua vez, já haviam anunciado antes da eleição, e repetido após as eleições do último domingo, que a vitória de Petro não seria um obstáculo nas relações bilaterais.

As condições estão certas para ele continuar mudando a história da Colômbia, uma história que começou a mudar com sua vitória. Mas você deve saber que o caminho não será fácil. A experiência chilena de Gabriel Boric mostra que quando a esquerda chega ao governo as demandas são incessantes e as ilusões muito pesadas, então satisfazê-las torna-se um objetivo em si.

O primeiro passo já está dado. O triunfo dos “ninguém” é uma realidade. Esses “ninguém” de que falava Eduardo Galeano. Aqueles que ‘pulgas sonham em comprar um cachorro e ninguém sonha em sair da pobreza, que em algum dia mágico a boa sorte de repente chove, a boa sorte chove sobre você; mas boa sorte não chove ontem, hoje, nem amanhã, nem nunca, boa sorte nem cai do céu numa garoa, por mais que ninguém chame e ainda que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou começar o ano trocando de vassoura’. Porque para sair da pobreza é preciso trabalhar e trabalhar duro, com um objetivo claro e um procedimento concreto.

Por isso a figura de Francia Márquez é tão central. Porque aquela mãe solteira de pouco mais de 40 anos é uma fiel representante daqueles ‘que não são, mesmo que sejam’. Eles não falam línguas, mas dialetos. Eles não fazem arte, mas artesanato. Não pratique cultura, mas folclore. Que eles não são seres humanos, mas recursos humanos. Eles não têm rostos, mas braços. Que não têm nomes, mas números. Que não aparecem na história universal, mas na crônica vermelha da imprensa local. porque Galeano o conhecia bem, e os colombianos sofrem bem, eles são ‘o ninguém, que custa menos que a bala que os mata’.

Esse é o desafio da hora. Governar para todos, mas privilegiando os “ninguém”. Ouvindo a todos, mas dando aos “ninguém” o lugar que merecem… e que reivindicam. Porque no domingo passado os “ninguém” venceram. Porque a partir de 7 de agosto eles serão o governo. Porque pela primeira vez na história da Colômbia os “ninguém” se vêem e se ouvem. Pela primeira vez na história da Colômbia alguém governa com eles, não em seu nome.

O futuro do governo de Petro e Márquez e o futuro da Colômbia dependem de que os “ninguém” deixem de ser “ninguém”, dessa Colômbia Humana que o novo presidente prometeu a seus compatriotas. A história os julgará por isso.

Espero que se concretize.

Diego Andrés Guevara Fletcher – Doutor em Ciências Sociais (FLACOS)

Eduardo Rivas – Mestrado em Estudos da União Europeia (UdC)

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