No estado de Benue, na região centro-oeste da Nigéria, voluntários passaram meses visitando comunidades rurais para garantir que pessoas vivendo com HIV não abandonassem o tratamento. A mobilização começou após o governo de Donald Trump suspender a ajuda externa dos Estados Unidos, em janeiro de 2025, comprometendo o acesso a medicamentos essenciais.
Entre os voluntários está Josephine Angev, de 40 anos, integrante da Afrocab, organização sem fins lucrativos que atua em diversos países africanos. Conhecidas como “campeãs do HIV”, essas agentes comunitárias acompanham pacientes de perto. Angev relata o caso de uma mulher de 65 anos que interrompeu o tratamento após ficar sem remédios e teve a saúde agravada. Após sucessivas visitas, ela conseguiu convencê-la a retomar a medicação.
A interrupção do tratamento antirretroviral pode trazer consequências severas: o vírus volta a se multiplicar rapidamente, elevando o risco de complicações e de transmissão. Segundo Angev, muitos pacientes desconhecem esses impactos.
Impacto
A suspensão temporária da ajuda externa, válida por 90 dias e decretada no início do mandato de Trump, teve efeitos imediatos. Os Estados Unidos financiavam cerca de 90% dos custos do tratamento de HIV no país, além de parte significativa da força de trabalho na saúde.
Em Makurdi, capital de Benue, os dez centros de tratamento chegaram a fechar por um mês. Quando reabriram, passaram a distribuir medicamentos para períodos muito mais curtos, de uma ou duas semanas, em vez dos seis meses habituais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou, na época, para o risco de desabastecimento total.
Diante do cenário, voluntários da Afrocab atuaram para preencher as lacunas: reconectaram pacientes aos serviços de saúde, combateram desinformação, incluindo falsas promessas de cura por meio de oração, e incentivaram gestantes a retomarem o acompanhamento pré-natal. Entre junho e dezembro de 2025, mais de mil pessoas voltaram ao tratamento em Benue, incluindo 95 crianças menores de cinco anos.
“Quando não conseguíamos contato por telefone, íamos até a casa”, relata Dinah Adaga, coordenadora da iniciativa.
Recuperação
Com cerca de 2 milhões de pessoas vivendo com HIV, a Nigéria concentra uma das maiores populações afetadas no mundo. Após o congelamento da ajuda, estimativas do UNAIDS indicavam que 200 mil pessoas haviam interrompido o tratamento.
Apesar disso, dados do fim de 2025 apontam uma leve recuperação: 1,7 milhão de pacientes estavam em tratamento, número superior aos 1,6 milhão registrados no ano anterior. Para Krittayawan Boonto, diretora do UNAIDS no país, não houve relatos significativos de mortes por falta de acesso aos medicamentos, o que é considerado um sinal positivo. Em fevereiro de 2025, os EUA também anunciaram uma exceção para ajuda considerada “vital”, incluindo antirretrovirais.
Retrocesso
Se o tratamento apresentou melhora, a prevenção foi duramente afetada. O número de pessoas com acesso a medicamentos preventivos caiu drasticamente — de 43 mil em novembro de 2024 para menos de 6 mil em abril de 2025. A distribuição de preservativos teve queda de 55%.
Os testes de HIV também diminuíram: dados preliminares indicam que mais de 1 milhão de pessoas deixaram de ser testadas em 2025, em comparação ao ano anterior. Para especialistas, isso pode resultar em casos não diagnosticados e aumento da transmissão. “Qualquer falha na prevenção tende a gerar novos casos”, alerta Oluwafunke Odunlade, da OMS.
Novo acordo
Para o futuro, Estados Unidos e Nigéria negociam a implementação de um acordo de saúde firmado em dezembro de 2025, válido até 2030. O pacto prevê investimento de US$ 2,1 bilhões por parte dos EUA e US$ 3 bilhões do governo nigeriano, com foco no combate ao HIV e na transição gradual do financiamento para o país africano.
O acordo também estabelece que apenas profissionais vinculados a estruturas governamentais serão financiados pelos EUA e prioriza prestadores de saúde ligados a instituições cristãs.
Enquanto isso, voluntárias como Angev seguem atuando nas comunidades. “Ver essas pessoas recuperando suas vidas é o que nos motiva a continuar”, diz.
*Com informações da Folha e Reuters.
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