3 de junho de 2026

O esquema de mineração bilionário que devastou Minas Gerais

Mesmo na mira da Justiça, empresas do esquema se mantiveram por anos operando com licenças questionáveis e corrupção
Foto: Bernardo Doas - Câmara Municipal de Belo Horizonte

A Polícia Federal (PF), em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU), o Ministério Público Federal (MPF) e a Receita Federal, desmantelou nesta quarta-feira (17) um esquema bilionário de corrupção e exploração ilegal de minérios em Minas Gerais. A Operação Rejeito cumpriu 22 mandados de prisão preventiva e 79 de busca e apreensão, envolvendo empresários, servidores públicos e órgãos ambientais.

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A investigação aponta para um conglomerado com mais de 40 empresas que operavam com licenças questionáveis e pagamentos de propina, causando danos ambientais graves ao estado.

O esquema tem ligação direta com a Operação Poeira Vermelha, de 2020, revelando sua continuidade e sofisticação ao longo dos últimos cinco anos, já que suas principais empresas como Fleurs Global Mineração, Mineração Gute Sicht e Minerar Participações continuaram operando mesmo diante de decisões judiciais contrarias e multas.

O núcleo financeiro do esquema: Fleurs Global Mineração

A investigação atual mostra que Fleurs Global Mineração funcionava como núcleo financeiro do grupo, movimentando R$ 4,3 bilhões entre 2019 e 2024, usados para sustentar aquisições, pagamentos e a cadeia de empresas que operacionalizavam as lavras.

Na Operação Poeira Vermelha, a PF investigou mineração ilegal e usurpação de bens da União no munícipio mineiro de Nova Lima, entre outros locais, especialmente por extração ilegal de minério de ferro sem autorização ambiental, dissimulada como terraplanagem. A Fleurs era uma das empresas envolvidas e a Justiça Federal, por meio da operação, suspendeu suas atividades de beneficiamento.

Contudo, mesmo com processos e impugnações, ao menos parte do conglomerado obteve autorizações formais para operar, por meio de Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) acumulados pela Fleurs. Em agosto de 2024, o Governo de Minas, por meio do Conselho de Política Ambiental (Copam), chegou a conceder uma licença ambiental de seis anos que autorizava a Fleurs a atuar na região da Serra do Curral, próxima à bacia do Rio das Velhas.

A ação gerou reação da sociedade civil e do próprio Ministério Público pela proximidade com áreas protegidas e riscos de impacto ambiental. Contudo, só em janeiro desde ano, a Justiça Federal determinou a suspensão imediata das atividades da Fleurs, juntamente com outra empresa chave – a Mineração Gute Sicht – por “novos fatos apresentados pela PF”. 

A gênese do esquema: Mineração Gute Sicht

Desde 2020, os relatórios da PF e decisões judiciais já descreviam o uso de certidões e licenças de natureza diversa como instrumentos para camuflar extrações de minério sem o licenciamento adequado, uma prática detectada sobretudo na atuação inicial da Mineração Gute Sicht, na Serra do Curral, uma área tombada de Nova Lima.

A organização é considerada a empresa original do esquema, usada nas primeiras operações irregulares. Em 2022, a Gute Sicht extraía minério de ferro na região mesmo após impedir fiscalizações e ser interditada pela Prefeitura de Belo Horizonte, acumulando 18 infrações e mais de R$ 1,2 milhão em multas em apenas um mês. 

Já em 2023, as atividades Gute Sicht foi abandonada, após o Supremo Tribunal Federal (STF) cassar suas licenças. A ação trouxe novos riscos a Serra do Curral, já que encostas desabaram e rombos foram ampliados, causando ameaça a espécies endêmicas.

A persistência do esquema também levou a destruição de uma caverna pela Patrimônio Mineração em Ouro Preto, empresa que nega relação direta com a Gute Sicht e a Fleurs Global Mineração, mas é suspeita de pagar R$ 500 mil em propina para licenciamento. A cavidade, não prevista nos estudos, teve um impacto irreversível, segundo a Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM). 

A consolidação do conglomerado: Minerar Participações e holdings

Já a Minerar Participações consolidava o esquema, controlando os principais projetos minerários bilionários. A empresa funcionava como “guarda-chuva” para dezenas de empreendimentos irregulares. Isso porque a estrutura de holdings permitia a migração de ativos e a aparente “limpeza” de operações nos balanços, tornando mais difícil rastrear proprietários finais e fluxos de caixa. Além disso, possibilitava transferir direitos minerários, dividir responsabilidades e “diluir” a visibilidade das operações em documentos oficiais.

Após a Poeira Vermelha, o grupo criou 21 novas empresas entre novembro de 2020 e maio de 2022, fortalecendo sua rede e diversificando operações, incluindo projetos como:

  • AIGA Mineração: exploração de rejeitos no valor de R$ 200 milhões, prejudicando a Vale.
  • Projetos HG, Prisma e Rancho do Boi: núcleo bilionário com potencial de R$ 17,3 bilhões e lucro líquido estimado de R$ 9,54 bilhões.

Estima-se que as ações criminosas do grupo geraram um lucro de R$ 1,5 bilhão. Contudo, o dano ambiental estimado à União supera R$ 18,2 bilhões, segundo a investigação.

Quem são os alvos e como se relacionam às empresas

Entre os presos preventivamente, nesta quarta, estão:

  • Alan Cavalcante do Nascimento: chefe do grupo, sócio majoritário da Fleurs Global e atuante na Gute Sicht.
  • Helder Adriano de Freitas: sócio de Alan, responsável por licenciamento e operação das empresas.
  • João Alberto Paixão Lages: sócio, participante de projetos bilionários.
  • Guilherme Santana Lopes: ex-diretor da Agência Nacional de Mineração (ANM), envolvido em decisões favoráveis a empresas do grupo.
  • Caio Mário Trivelatto Seabra Filho: diretor da ANM, suspeito de receber R$ 3 milhões em propina.

Servidores públicos afastados:

  • Fernando Baliani da Silva (FEAM – Fundação Estadual do Meio Ambiente de Minas)
  • Breno Esteves Lasmar (IEF – Instituto Estadual de Florestas)
  • Fernando Benício de Oliveira Paula (Copam – Conselho de Política Ambiental)

Todos teriam sido corrompidos para facilitar licenciamento irregular e tramitação de processos em favor das empresas.

Linha do tempo: da Poeira Vermelha à Rejeito

2020 – Operação Poeira Vermelha

  • A Polícia Federal deflagra a ação contra fraudes em licenciamento mineral em Minas Gerais.
  • Empresas ligadas à Mineração Gute Sicht já aparecem no inquérito, com suspeitas de extração ilegal na Serra do Curral.
  • Investigações apontam o envolvimento de empresários como Alan Cavalcante do Nascimento e Helder Adriano de Freitas, mas as medidas de punição foram limitadas.
  • O grupo começa a diversificar suas operações, criando empresas de fachada para diluir responsabilidades.

2021–2023 – Reestruturação e expansão

  • O núcleo empresarial migra parte das operações para outras companhias, como a Minerar Participações, que passa a controlar os maiores projetos.
  • A Fleurs Global Mineração assume papel central como braço financeiro, movimentando recursos e viabilizando pagamentos de propina.
  • Segundo a PF, servidores de órgãos ambientais estaduais passam a receber “mesadas” para liberar licenças.
  • Nesse período, o grupo amplia seu alcance: mais de 40 empresas são incorporadas à rede criminosa.

2024 – Autorização polêmica

  • Apesar do histórico de denúncias, o governo de Minas Gerais concede à Fleurs Global Mineração uma licença ambiental de seis anos para atuar novamente na Serra do Curral.
  • A decisão gera forte reação de ambientalistas e moradores locais, mas a mineradora retoma operações perto da bacia do Rio das Velhas.
  • Essa autorização é hoje usada pela PF como exemplo da infiltração do grupo nos órgãos reguladores.

2025 – Operação Rejeito

  • A PF, em ação conjunta com CGU, MPF e Receita Federal, deflagra a maior ofensiva já registrada contra o setor de mineração irregular.
  • São 22 prisões temporárias e 79 mandados de busca e apreensão em Minas Gerais, com bloqueio de R$ 1,5 bilhão em bens.
  • Entre os presos, estão o diretor da ANM, Caio Mario Seabra, e o delegado federal Rodrigo de Melo Teixeira, revelando a profundidade da corrupção.
  • O grupo é acusado de fraudes sistemáticas, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e exploração ilegal em áreas de preservação.

Com informações do Estado de Minas

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Ana Gabriela Sales

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3 Comentários
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    17 de setembro de 2025 6:14 pm

    A direita transforma o Brasil num país de merda. Não que ele tenha sido um país muito melhor no passado. Nem mesmo os governos do PT deixaram de merdalizar o Brasil para que os vagabundos de sempre ganhassem mais alguns dólares. O que Lula e Dilma Rousseff poderiam ter feito de diferente?

  2. Fábio

    17 de setembro de 2025 11:04 pm

    “Será que é só eu que bebo? Será que é só eu que estou bebendo?” Os entendedores entenderão.

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