10 de junho de 2026

EXCLUSIVO: Policiais federais relatam ambiente de perseguição e assédio profissional na corporação

Insalubridade compromete a saúde física, mental e emocional dos policiais: 90% sofrem com estresse e 74% são alcóolatras
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Foto: Agência Brasil

A Polícia Federal, instituição responsável pela preservação da ordem pública e incolumidade das pessoas, bens e interesses da União, na verdade se mostra um ambiente de perseguição e insalubre para os próprios policiais. 

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Isso porque uma pesquisa de 2014 revelou dados alarmantes. Entre 390 pesquisados, 60,76% nunca ou quase nunca se sentiram valorizados pelo órgão. Os policiais relataram ainda que sentem pressão no trabalho (87%), classificam a infraestrutura e rotina da PF péssima (28,52%), já tiveram afastamento do trabalho por motivos médicos (65%), em especial por questões psiquiátricas (23%), e nutrem sentimentos de indignação em relação à corporação (74%), sentimento que pode causar efeitos na saúde emocional e física dos profissionais, como esgotamento profissional, síndrome de Burnout e transtornos psicológicos. 

Em 2002, a própria PF realizou uma pesquisa em que constatou que 90% dos policiais sofriam de estresse. Os problemas de saúde não param por aí: 74,87% são alcoólatras, 38,46% são depressivos, mais de 20% já teve uma ideação suicida, 19,74% apresentam síndrome do pânico, mais de 40% têm tendência ao infarto e alguns já apresentam inclinação para a loucura e uso de drogas ilícitas. 

“De lá para cá, nada mudou. Pelo contrário. Nós tivemos a piora dessa instituição Polícia Federal, porque cada vez mais se tenta impor uma chefia por meio da 4.878, que é 4878/65 de 1965, que é o processo administrativo disciplinar do qual o Policial Federal é responsável. Então, eles usam a hierarquia e disciplina indiretamente. O problema não é da segurança pública, não é só a militarização, a gente não precisa só de uma desmilitarização, a gente precisa também de uma desmilicianização, a gente precisa disso dentro da Polícia Federal também”, comenta o criminólogo Flávio Werneck. 

Para Werneck, tais índices só se mantêm porque não há, na Polícia Federal, uma lei orgânica que regulamenta as atribuições na corporação, em cumprimento à exigência, inclusive, do Supremo Tribunal Federal. 

Perseguições

O criminólogo participou, na última sexta-feira (27), do programa TVGGN Justiça, em que relatou as perseguições sofridas no ambiente de trabalho. Ele explica que a PF é dividida em castas e, enquanto escrivão da corporação, está relegado à última casta e está exposto ao assédio moral e excesso de trabalho.

Acusado de ser autor de um dossiê contra a corporação, ele sofreu 13 processos administrativos, dos quais oito almejavam a sua demissão. 

“Esse é o nível de estresse ao qual você é exposto, porque é um regime disciplinar que visa apenas a manutenção do status quo, a manutenção da força via um sistema paramilitar dentro da Polícia Federal”, aponta Werneck.

O criminólogo comenta ainda que não temos, no país, uma polícia cidadã e democrática, mas sim uma instituição herdada da ditadura, em que as aplicações não estão abertas. Os policiais podem, por exemplo, sofrer penalidades por “trabalhar mal”, mas não há uma diretriz específica para delimitar o que seria trabalhar mal exatamente.

Há, na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado (CCJ), um projeto para substituir a lei 4878/65, mas que não está em pauta para votação. 

Prisão infundada

Também convidado do TVGGN Justiça, o policial federal Sandro Araújo compartilhou um episódio em que foi preso, em 2010, por 21 dias em represália à publicação de um livro com os bastidores da PF. 

À época, Araújo somava 14 anos de profissão. “Eu era um questionador da estrutura investigativa brasileira. Era, sou e serei, independente disso me atingir funcionalmente ou não.”

Em 9 de novembro daquele ano, o policial lançou seu segundo livro em que, além de relatar o quanto os policiais sofrem com problemas mentais e de saúde, ele também apontou a falta de cuidado dos analistas de informação em um capítulo chamado “Grampolange descontrolada”.

A resposta da corporação não demorou a chegar. “No mesmo mês, 25 do mesmo mês de novembro, amanheci diferente. Tive a visita dos colegas às 9 horas, amanheci às 6 horas da manhã com os colegas na minha casa.”

Naquele momento, o policial recebeu a notícia de que era acusado de envolvimento com máquinas caça-níquel, ainda que ele atuasse no setor de imigração.

“Estava sendo acusado de fazer uma coisa que, tecnicamente, era impossível fazer. A minha acusação foi de vazar informações de operações de monitoramento para os alvos. Ocorre que só quem conhece os alvos das operações de monitoramento é quem faz o monitoramento. Então, geralmente, essa estrutura é de um delegado de polícia e dois outros colegas, que são os analistas de informação”, explica Araújo. 

Afastado da PF desde 2018, por conta do diagnóstico de estresse pós-traumático e ser alvo de diversos processos administrativos, Sandro Araújo.  

Confira o debate na íntegra na TVGGN:

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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