6 de junho de 2026

Para entender a confusão dos advogados no caso do coronel Cid, por Luís Nassif

A solidariedade da organização criminosa virou pó. Não podem confiar nem na sobrevivência política, nem na lealdade do chefe.

Tudo o que escrevo abaixo é dedução.

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A Operação Mãos Limpas já havia ensinado que a solidariedade de uma organização criminosa depende fundamentalmente da crença do grupo na manutenção do poder do chefe e na sua lealdade em relação ao grupo.

À medida que as perspectivas de Bolsonaro foram sendo reduzidas, pelo peso das denúncias, emergiu o velho Bolsonaro, desleal e pensando só na própria sobrevivência. Aliás, seu lema de que um paraquedista jamais abandona o companheiro era mero jogo de cena.

Assim como com outros cúmplices de Bolsonaro – Anderson Torres, Silvinei Vasques – a tática de silêncio visava enviar o coronel Cid para o matadouro, poupando o chefe. Neste momento, a esposa do coronel decidiu contratar um advogado de peso, e chegou a Cezar Bittencourt, um dos grandes criminalistas do país.

Cézar tem uma primeira conversa com a esposa, entende sua aflição e sai a campo distribuindo entrevistas, antes de ter todos os elementos à mão.

Aí acontece o seguinte.

  1. Sua primeira posição é que irá defender seu cliente. E a linha de defesa era a de que ele apenas cumpria ordens. Como bom militar, não lhe cabia questionar se a ordem era para cometer crime ou não. Ele era um ajudante de ordens, de formação militar. Nessa primeira etapa, o álibi do cumprimento da ordem se sobrepunha ao julgamento sobre se cometera atos criminosos ou não. Não se separa a venda do relógio da venda das demais jóias.
  2. Aí esbarra no primeiro problema: o pai do coronel Cid, general Cid, também se envolveu na venda de jóias. E não tinha o álibi do filho, de ser ajudante de ordens. Manter a primeira versão significaria admitir os crimes do pai. Toca a mudar a estratégia inicial e fixar-se apenas no relógio.
  3. No meio do caminho, há um contato com o advogado de Jair Bolsonaro. Pode ser que não se tenha combinado nada. Pode ser que sim. Um filme que assisti, certa vez, mostrava uma estratégia de defesa. Um crime foi cometido, com dois suspeitos. Há uma disputa, com um acusando o outro e se defendendo. No final do julgamento, havia a certeza de que um dos dois cometera o crime, mas sem poder apontar objetivamente qual deles. E terminou em absolvição. Pode ter sido apenas um filme. Precisaria de um criminalista para analisar essa estratégia. O fato é que, logo em seguida, o valente comandante Bolsonaro dá entrevistas dizendo que nunca deu ordens para o coronel Cid, e ele tinha liberdade para fazer o que lhe dava na cabeça.
  4. Imediatamente, o advogado Cezar Bittencourt voltou a mencionar venda de relógio e de jóias, com o dinheiro sendo entregue a Bolsonaro e à Michele.

Agora, é aguardar os próximos capítulos. O que se tem de concreto é que a solidariedade da organização criminosa virou pó. Não podem, confiar nem na sobrevivência política, nem na lealdade do chefe. Percebeu-se que, se houvesse apenas um paraquedas no avião em chamas, o primeiro impulso de Bolsonaro seria empurrar o companheiro e apossar-se do pára-quedas.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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8 Comentários
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    19 de agosto de 2023 1:48 pm

    O problema não é simples. Se Mauro Cid assumir o peculato, Bolsonaro não se livrar da prevaricação. Como presidente ele deveria impedir o subalterno de negociar objetos valiosos dados de presente à presidência da República. Mas se Mauro Cid dedurar o chefe ele poderá pleitear algum tipo de benefício ao fazer a delação. Nos dois casos Bolsonaro afunda. Não é mais possível ele se fazer de inocente ou de vítima.

  2. ROBERTO São Paulo-SP

    19 de agosto de 2023 10:03 pm

    Delação premiada. E contando com o ovo.
    Ou com a partida ganha.

    Aí vem a virada. E pimenta nós olhos dos outros é refresco.

    Certamente a turma contava com vitória nas eleições de 2022.

    O rastro é grande.

    A recompra com recebido passado. É um absurdo nunca visto.

  3. ROBERTO São Paulo-SP

    19 de agosto de 2023 10:36 pm

    De qualquer maneira longe de ser um crime perfeito.

    Muitos rastros e pistas deixados pelo caminho.

    Parece mais um filme de atrapalhados.

    Muita autoconfiança, ou na vitória ou na certeza de um golpe, que não veio.

    E na tentativa que não de certo. Muito pelo contrário.

  4. ROBERTO São Paulo-SP

    19 de agosto de 2023 10:43 pm

    Lixeira cheia e recibo de recompra não tem em nenhum roteiro.

    Poderia ate se pensar, mas seriam ligo descartadas.

  5. ROBERTO São Paulo-SP

    19 de agosto de 2023 10:56 pm

    A cena do reflexo no vidro, esta sim é padrão em qualquer filme, quase sempre tem.

    Mas usar a conta bancária do pai para transferência internacional, essa não, inacreditável.

    Será que eles não conhecem o dólar cabo?

    Essa Qualquer doleiro faria….

    São muitas trapalhadas.

  6. ROBERTO São Paulo-SP

    19 de agosto de 2023 11:28 pm

    Diálogo:
    -vamos usar o dola cabo?
    – não vamos envolver o exército nisso, tem a conta do meu pai.

  7. ROBERTO São Paulo-SP

    20 de agosto de 2023 6:35 pm

    Os honorários do advogado.

    A gritaria do investigado pode ter sido em função dos honorários.

    O mínimo que se espera do chefe, é que ele pague os honorários e garanta o sustento da família.

    Isso até o PCC faz.

  8. Jair Costa

    21 de agosto de 2023 2:33 pm

    O problema, sim, é simples. Quem detinha a posse, o controle e a propriedade
    dos bens vendidos? Cid ou Bolsonaro?

    Sim, Bolsonaro era o responsável e tinha a posse física e a propriedade dos
    bens. Isso tem muito nas auditorias de empresas que sonegam impostos, quem
    detém a posse e a propriedade é quem tem a responsabilidade fiscal pelos bens.

    Para Bolsonaro se livrar dessa responsabilidade de desvio dos bens e venda,
    teria que ter acusado o Cid de ter tomado posse (ou roubado) os itens e vendidos
    sem o seu consetimento e ter agido sozinho. O que fica dificíl usar essa estratégia,
    pois o dinheiro foi depositados nas contas da Michelle e até o advogado do
    capitão foi resgatar itens vendidos nos EUA.

    É crime de Peculato, ele tinha ciência sim que os bens eram da União, houve farta
    reportagem sobre bens da união que Lula guardou em containers em 2016, eles próprio
    acusando Lula de sumir com os bens. Agora dizem que não sabiam que não podia vender?

    Só não condena se não quiser.

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