5 de junho de 2026

Quando a Justiça é seletiva, corrupção encontra ‘lado certo’ para se abrigar

Seletivismo de setores do Judiciário determina quem ficará impune das denúncias de corrupção. Mas essa prática apenas muda a correlação de forças políticas e econômicas que vivem da corrupção

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da Rede Brasil Atual

Quando a Justiça falha, corrupção encontra ‘lado certo’ para se abrigar

por Helena Sthephanowitz

A função das penas judiciais nas sociedades civilizadas não é apenas punir quem comete crimes. A função mais importante é passar a mensagem para toda a sociedade de que “o crime não compensa”, dissuadindo todos de cometerem delitos. Mas essa mensagem não funciona quando o próprio poder Judiciário deixa impune quem fica ao abrigo de alguns intocáveis grupos de poder. A mensagem passa a ser outra: “O crime pode compensar se não ficar do lado errado”. Por aqui, o “lado certo” para corruptos ficarem impunes tem sido o da oposição comandada por tucanos, democratas e afins, juntamente com os milionários grupos de mídia.

Exemplo claro foi a opção do ex-presidente do STF, Joaquim Barbosa, de priorizar o julgamento do mensalão petista e deixar o mensalão tucano, anterior ao primeiro, para segundo plano – e apesar de acumular inúmeras denúncias, evidências e provas.

Com arbitrariedades como essa, em vez de diminuir a corrupção na política, Barbosa criou o caldo de cultura que levou à eleição de um Parlamento, em 2014, que colocou o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na presidência da Câmara, com apoio velado das mesmas grandes empresas de mídia que amplificaram o “mensalão” petista. Até hoje essas forças políticas se sentem confortáveis em manter Cunha lá, pois os representam e representam seus interesses econômicos e de poder – apesar de, igualmente, acumular contra si denúncias, evidências e provas de envolvimento em corrupção e recebimento de propinas.

Cunha na presidência da Câmara, e sentindo-se do lado escolhido para permanecer impune, impôs votações de leis que agravariam a corrupção, como a tentativa de constitucionalizar a doação empresarial de campanha, vetada pelo STF.

A sanha de Joaquim Barbosa fez ainda mais: enfraqueceu as bancadas progressistas nas eleições de 2014, elegeu menos negros, menos lideranças de movimentos sociais, menos pensadores, menos representantes da classe trabalhadora e mais milionários. Pelo menos nas últimas legislaturas, nunca o topo da pirâmide social brasileira foi tão bem representada na Câmara, tendo o povão tão pouco representado.

Se quando teve a oportunidade, Barbosa tivesse priorizado também o julgamento do mensalão tucano, o PSDB sairia da zona de conforto da impunidade e, pelo menos parte de seus membros, apoiariam uma reforma política de verdade, que reduzisse a influência do poder econômico corruptor e que aumentasse a participação popular.

Constatado o erro histórico das escolhas políticas de Barbosa na hora de priorizar processos, vemos o mesmo erro em curso na Operação Lava Jato, com conseqüências muito mais ruinosas à nação. É o caso da inusitada votação no Senado para colocar em urgência a entrega do petróleo descoberto no pré-sal para petroleiras estrangeiras, de autoria do Senador José Serra (PSDB-SP).

Muitos senadores citados ou investigados na Lava Jato como supostos beneficiários de contratos na Petrobras, agora que a empresa é vigiada, votaram contra a estatal brasileira e a favor de petroleiras estrangeiras, que estão fora do alcance dos órgãos de controle nacionais.

Empresas estrangeiras, que já patrocinaram guerras e golpes de estado mundo afora, mantêm seus lobistas e operadores também atuando no Brasil, pressionando (e talvez corrompendo) por seus interesses econômicos bancadas no Legislativo e grupos de mídia que, por sua vez, exercem forte influência na pauta do Judiciário.

Nem estamos acusando de ilegalidades, mas apenas falamos de pressão por todos os meios que, até onde são visíveis, podem até estar dentro da lei. Porém, é claro que há suspeitas de que interesses escusos também podem estar sendo saciados clandestinamente.

Na Lava Jato, investigações sobre petistas são priorizadas a jato. Sobre tucanos, ou não vem ao caso, ou são engavetadas a jato ou jogadas para segundo plano. Investigações que lincham a imagem da Petrobras, inclusive alimentando processos movidos no exterior contra a empresa, andam a jato. Sobre empresas estrangeiras que pagaram propinas a diretores corruptos da estatal, se é que está havendo alguma investigação profunda de fato, são cercadas de sigilo e há todo um cuidado especial de não expor à execração pública.

A mesma diferença de tratamento ocorre com empreiteiras brasileiras, que devem, sim, ser investigadas e punidas pelo que ficar comprovado, mas os mesmos pesos e medidas devem ser aplicados às concorrentes estrangeiras envolvidas em malfeitos.

Essa seleção de quem deve ser ou não ser investigado, que são escolhas sobretudo políticas, é que determinam quem ficará impune ou não. Mas essa prática não ataca o sistema e não reduz a corrupção. Apenas muda a correlação de forças políticas e econômicas que vivem da corrupção. Os corruptos mudam para o lado do dinheiro sujo impune, e os corruptores, que agem nas sombras, mudam o modo de operar para dar ar de legalidade na obtenção de vantagens.

Não será surpresa se, daqui a pouco tempo, um ex-diretor corrupto da Petrobras, premiado com acordo de delação, se mudar para Miami ou Houston, assim que a Justiça permitir, e ser contratado como executivo de alguma petroleira estrangeira, recebendo polpudos bônus pelo sucesso dos resultados obtidos na exploração do pré-sal no Brasil. Tudo “dentro da lei”. Outros abrirão suas consultorias lá, onde o lobby é legalizado e conta com um arcabouço jurídico para sua proteção.

Não será surpresa se algum ex-doleiro vier a ser contratado com “head hunter” em Miami de alguma petroleira estrangeira, para caçar “talentos”, coincidentemente encontrados entre filhos ou netos de deputados ou senadores que votaram pela entrega do pré-sal. Tudo “dentro da lei”.

Para dar um exemplo real deste tipo de meritocracia tucana, um dos filhos do governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) é executivo do Banco Santander no México. O fato de o pai ter privatizado o Banespa para o Santander é apenas coincidência perante a lei.

O Santander também comprou por um valor astronômico a empresa argentina Patagon após Verônica Serra, filha do senador José Serra, virar sócia. Meritocracia tucana.

Na Itália, a operação Mãos Limpas levou ao poder Berlusconi. No Brasil, o seletivismo do “mensalão” levou Eduardo Cunha à presidência da Câmara. Nesse ritmo de seletivismo judiciário na Lava Jato, a entrega do pré-sal a estrangeiros fará o “petrolão” parecer “petrolinho” diante do “petrolón” transnacional que já está dando sinais de vida.

Será que é pedir demais que se combata a corrupção no Brasil como um todo, para haver mudanças de fato, e sem lesar a pátria?

 

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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10 Comentários
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  1. Vanderli

    28 de fevereiro de 2016 7:22 pm

    Aécio indignado

    Aécio está indignado por tanta corrupção.

    veja

    http://www.dailymotion.com/video/x3r71zg_faca-um-favor-ao-brasil-mostre-este-video-ao-eleitor-do-aecio-neves-chega-de-tanta-corrupcao_people

  2. Claudio melo

    28 de fevereiro de 2016 7:44 pm

    kid cavaquinho
    Aldir Blanc foi pegar o cavaquinho e hoje no O Globo disse tudo isso de forma direta do jeito porrada que só ele sabe dar.

  3. peregrino

    28 de fevereiro de 2016 7:51 pm

    prova do que foi colocado, e muito bem…

    é a facilidade com que culpam, julgam e condenam

    impressão que fica é a de que não há partes, pois dificilmente temos a inocência de volta ou sendo considerada e tratada na mesma medida

    sendo assim, o retorno para a sociedade não é de inocência e sim de vantagens políticas para qualquer corrupto do mesmo partido da justiça e mais prejuízos para o país

    judicialização da política será, se já não é,  a maior desgraça que temos

  4. JoaoMineirim

    28 de fevereiro de 2016 9:23 pm

    Surreal o meu Brasil. Uma

    Surreal o meu Brasil. Uma quadrilha formada por políticos corruptos e empresários  gananciosos fazem de tudo para manter o país subdesenvolvido.  É a mídia que  determina quem o MP e Judiciário devem perseguir e condenar. E os inimigos do Estado são sempre quem ousar querer tirar o país da condição de quintal do Tio Sam.

     

     

  5. JoaoMineirim

    28 de fevereiro de 2016 9:46 pm

    Muita gente do bem assiste a

    Muita gente do bem assiste a tudo isso e nota que há algo de muito errado, mas depois, na dúvida, se conforma, se silencia na esperança de que a lavajato será o divisor de águas no combate á corrupção e à impunidade de políticos e poderosos. Só que estas pessoas sofrerão uma grande frustração. Depois desta tempestade, virá mais sujeira e tudo voltará a ser como era antes: o país da desigualdade, da injustiça social, da corrupção e da impunidade, o eterno país do futuro.  

  6. Carlos roberto de andrade

    28 de fevereiro de 2016 10:00 pm

    Injustiça

    voto do relator da ação, Luís Roberto Barroso, foi acompanhado pelos ministros Teori Zavascki, Rosa Weber, Luiz Fux, Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Marco Aurélio e Celso de Mello. O presidente da Casa, ministro Joaquim Barbosa, foi o único a votar por manter o processo no Supremo. Ausentes, os ministros Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia não votaram.

    Acho interessante a pessoa faz um artigo interiro encima de uma premissa falsa dizendo que o Joaquim Barbosa foi o responsavel pelo retorno do processo a primeira instancia sendo que foi o unico que votou contra.

    Joga nas costas dele todos os problemas que enfrentamos se esquecendo das mazelas do PT enquanto governo.

    Que seria justo o Azeredo estar preso e verdade mas jogar a culpa no Joaquim Barbosa e demais. 

    1. Ulisses s

      28 de fevereiro de 2016 10:49 pm

      Se o Barbosa

      Tivesse pelos menos gasto 10% do seu esforço em criminalizar o PSDB como fez com o PT. Mas o capitão do mato é exxxxperto. Sabe que detonar o PT era crédito na casa grande. Mexer no vespeiro PSDB era cutucar a onça mídia, judiciário oposição com vara curta. Como bom macunaína? Quanto ao resto da canalhada do STF você está certo. São um band de PULHAS mesmo. 

  7. Carlos roberto de andrade

    28 de fevereiro de 2016 10:09 pm

    Injustiça

    Por um placar de 8 a 1, a maioria dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) votou nesta quinta-feira (27) a favor de mandar para a primeira instância da Justiça de Minas Gerais a ação contra o ex-deputado federal Eduardo Azeredo (PSDB-MG) no processo do chamado mensalão tucano.

     

    voto do relator da ação, Luís Roberto Barroso, foi acompanhado pelos ministros Teori Zavascki, Rosa Weber, Luiz Fux, Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Marco Aurélio e Celso de Mello. O presidente da Casa, ministro Joaquim Barbosa, foi o único a votar por manter o processo no Supremo. Ausentes, os ministros Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia não votaram.

    Acho interessante a pessoa faz um artigo interiro encima de uma premissa falsa dizendo que o Joaquim Barbosa foi o responsavel pelo retorno do processo a primeira instancia sendo que foi o unico que votou contra.

    Joga nas costas dele todos os problemas que enfrentamos se esquecendo das mazelas do PT enquanto governo.

    Que seria justo o Azeredo estar preso e verdade mas jogar a culpa no Joaquim Barbosa e demais. 

    1. Neotupi

      29 de fevereiro de 2016 2:33 am

      Não inventa. Isso foi depois atrasar o julgamento de Azeredo.

      Não tem jeito de apagar fatos históricos.

      O mensalão tucano ocorreu em 1998.

      A denúncia pelo Procurador Geral foi apresentada pouco depois do mensalão petista. O STF aceitou a denúncia 2 anos depois do petista. Mas o mensalão tucano era bem mais simples, pois em vez de ter 40 réus no STF só tinha um: Eduardo Azeredo, pois ao contrário do petista quem não tinha mandato foi jogado para a primeira instância imediatamente. Portanto, forma muito menos testemunhas para ouvir, muitos menos audiências, menos documentos probatórios, etc. Teoricamente poderia ser até 40 vezes mais rápido. Realisticamente poderia ter sido julgado antes do petista sem a menor sombra de dúvida, se desse a mesma prioridade a ambos. Mas JB só fez andar com celeridade o mensalão petista (foi tão apressado que deixou provas que envolviam tucanos no BB de fora, caso Tom Brasil, pagamentos à TV Globo sem comprovar serviços prestados, no inquérito chamado gavetão).

      O episódio que você cita foi depois, quando JB assumiu a presidencia do STF e transferiu a relatoria para Luis Roberto Barroso, que concluiu para levar a julgamento. Por recomendação da defesa, Azeredo renunciou ao mandato de deputado e aí teve essa decisão que você cita. 

  8. Luiza

    29 de fevereiro de 2016 9:58 am

    SupremoTrambiqueFederal:o stf do Br, Q tal?

    Helena Sthephanowitz é jornalista e, indiscutivelmente, foi muito polida na sua análise. Mas, como eu nao sou jornalista e posso ousar mais,, então  na minha opinião, se não houvesse o noso Supremo Trambique Federal nada disso que a jornalista escreceu estaria acontencendo no Br. Quando a nossa justiça irá resgatar a decência, a honestidade e imparciallidade ? Talvez nunca, talvez daqui há décadas depois que todos nós já estivermos mortos….mas isso ninguem saberia dizer ao certo. Pior é que toda essa barbaridade é financiada com o dinheeiro daquele que só recebe em troca a traiçao e, ainda aasim, pelas costas. Juiz encerrado dentro da própria toga nao saberia mesmo o que é pátria porque isso é conceito de tolo e nacionalista, e eles estão acima da lei dos homens…

     

     

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