a) Tá ruim; b) tá péssimo; c) tá danado; d) pior não pode ficar
por Sebastião Nunes
Meus amigos mortos aparentavam tristeza, desalento, desencanto e desesperança em relação ao futuro deste país. Não era por estarem desencarnados e transformados em pura essência que aparentavam pessimismo. O buraco era mais embaixo, ou seja, bem lá embaixo, no jardim de delícias e infelicidades que haviam deixado.
Foi então que, para se alegrarem um pouco e deixarem as mazelas no limbo, do qual jamais deveriam ter (elas, as cruéis mazelas) escapado, decidiram buscar, entre as representações simbólicas desta terra, alguma que retratasse o tormentoso momento que vivemos. Em caravana celeste, ultrapassaram os portões do Paraíso e, servidos do salvo-conduto fornecido por São Pedro (pois ninguém ali era besta de correr o risco de ser impedido de voltar), chisparam para o Rio de Janeiro que, mais que Brasília, São Paulo ou Minas, representa lá fora o que somos aqui dentro, tipo o enunciado abaixo:
SAMBA FUTEBOL SEXO PRAIA DROGA
TUDO COM FARTURA – TUDO A PREÇO DE BANANA!
É desse modo que clamam os reclames que nos promovem internacionalmente ou o que têm na cabeça os turistas pães-duros que nos visitam com seus dólares metidos nas fedorentas cuecas. Estarão certos? Talvez. Se é para gozar, melhor uma terra onde se deita e se rola impunemente como o diabo é servido.
DEIXANDO DE LERO-LERO
– O Brasil é hoje uma praça de guerra – disse taciturno Otávio Ramos, a mão direita no queixo e o cotovelo apoiado numa pequena nuvem. – Tudo lembra o ano de 1933 quando, na Alemanha, Hitler assumiu o poder.
– Culpa de quem? – perguntou Luís Gonzaga Vieira, como se não soubesse a resposta, mas plantando verde para colher maduro.
– Na Alemanha, do velho Hindenburg, ele próprio, o parlamento e boa parte da população; no Brasil, a culpa é de quase metade dos viventes, que parece enlouquecida por um capetão ignorante, mentiroso e neonazista. Ah, e das emissoras de televisão.
– Seremos nós, os afrodescendentes, os novos judeus, a serem caçados a ferro e fogo? – indagou Adão Ventura, tremendo que nem vara verde.
– Ora, Adão, deixa de ser medroso – disse Sérgio Sant’Anna, com a risadinha de sempre. – Esqueceu que tá morto? Vai sobrar é pros pretos vivos.
– E pros brancos pobres também – acrescentou Manoel Lobato, o taciturno.
– E pros índios e quilombolas e mulheres – continuou Sancho Pança, que sempre sabia onde meter a colher. – A corda arrebenta é do lado mais fraco, digo.
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E NINGUÉM FAZ NADA?
– E ninguém faz nada? – papagaiou Dom Quixote. – Lembro muito bem que antes de endoidar eu era bastante sábio e ajuizava com sapiência toda pendência.
– Pois é o que não acontece lá embaixo, digo, no Brasil – retornou Otávio, pouco ligando para a conversa mole do famigerado cavaleiro. – Com ajuda da Rede Globo, que quase derrubou o presidente Lula…
– Mas a Globo parece que tomou vergonha – interrompeu Vieira. – Desde uns tempos pra cá deu uma de neutralidade. Ou de ficar em cima do muro, sei lá.
– Só espero que não seja tarde – disse Adão. – Se a gente fosse escolher uma boa imagem pra ilustrar o momento atual brasiliano, qual seria?
– Que tal uma de Hitler discursando em Berlim diante do exército?
– Ainda é cedo pra isso e espero que nunca aconteça – respondeu Sérgio. – Mas que Bozo parece uma caricatura tupiniquim de Hitler, lá isso parece.
– Enquanto vocês vinham com o milho o autor voltava com o fubá – sussurrou o velho sacana Lobato. E riu da cara de bobo que fizeram os amigos.
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Pode não parecer, mas parece: o Brasil atual está igualzinho à Batalha de Avaí, de Pedro Américo. No dia 30 vamos ter de apartar essa briga. Ou melhor: a partir de primeiro de janeiro de 2023. Que venha Lula com a bandeira da paz!
Sebastião Nunes é um escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.
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Albertino Ribeiro
23 de outubro de 2022 12:45 pmNossa, Que texto fabuloso! Um Mix de ensaio, com ótimo conteúdo, e conto. Parabéns por essa obra de arte, senhor Sebastião!
Waldemar Alves Filho
23 de outubro de 2022 7:30 pmQue consigamos, eleger LULA. Mas caso aconteça, não vai ser fácil, governar. Mas esperança, devemos ter. Para melhorar, a vida do brasileiros e o crescimento de, nosso país.