Recomeçando do fim: pau que bate em Jair bate em Messias
por Sebastião Nunes
Estavam meus amigos mortos meio que desesperados, sofrendo dolorosíssimas pinicadas do espinho da consciência, quando, exasperado, protestou Otávio Ramos:
– Assim não dá. Repousamos a cabeça em macias almofadas de nuvens celestes; calçamos pantufas de algodão hidrófilo plantado no deserto do Saara; nossas camisolas são de seda importada da China de Confúcio. Tudo de bom e do melhor. Então por que essas ferroadas infernais?
Filosoficamente escolástico, ripostou Luís Gonzaga Vieira:
– Porque, ainda que pura consciência desmamada, alguma coisa nos restou da humana travessia: por exemplo, lembranças idas e vividas de leros e boleros, de sambas e de tangos, de esperanças e de sonhos.
Com um muxoxo chocho, Adão Ventura, de grossos beiços, a lembrar-nos que de escravo e de louco a maioria de nós tem um pouco, discordou:
– Besteira! Ou alguém pensa que, pelo fato de estarmos desprovidos de carne e osso e sangue e fluidos variegados, deixamos de ser humanos?
Farmacêutico famigerado, o prestativo Manoel Lobato prontificou-se:
– Não seja por isso. Basta misturar bem misturados e triturados ópio, morfina, beladona, haxixe, crack, mescal, LSD, éter e algumas ervas aromáticas e teremos boa poção, das mais eficazes contra pinicadas, seja da consciência, seja de carapanãs.
– Amigo Sancho! – berrou Sérgio Sant’Anna, que era todo ouvidos. – Venha de lá seu alforje de benfeitorias e sirva aqui ao companheiro Lobato e a nosotros. Também estou pinicando que não me aguento.
Mais que depressa, e saudoso de sua antiga serventia, ressurgiu o velho Pança com seu carregado burrico, escoltado por Dom Quixote a bordo do magrelo Rocinante e seguido pelos cantadores das altas esferas Janis Joplin e Jimi Hendrix.
TROCANDO EM MIÚDOS
Por que teima este país em tropicar nas próprias pernas, nunca saindo da merda em que chafurda desde que se entende como povo ou, melhor, como ajuntamento de gentes diversificadas sobre território surrupiado?
A pergunta é retórica, mas a resposta veio do peripatético Otávio Ramos:
– As respostas são quatro: primeira, ignorância; segunda, ignorância; terceira, ignorância; quarta, ignorância.
– Concordo ipsis litteris – declarou Dom Quixote, ajustando o falsificado elmo de Mambrino à descarnada cabeça. – E acrescentaria uma quinta, que se espalha como gafanhoto na Mancha que me viu nascer e endoidecer: IGNORÂNCIA. Embora, como fidalgo, não me queixe, pois é na seara da ignorância alheia que nós, os bem-nascidos, colhemos maduro trigo e doce vinho e lã macia, sem gastar sangue, suor e lágrimas.
– Ipso facto – prorrompeu Vieira, que tinha lá seus fumos de latim, adquiridos no seminário menor e também no maior, quase chegando a padre de missa e turíbulo. – De ignorância nos fartamos, senão por que, senão pela ignorância de direitos e deveres, podem nossas gentes seguir sob canga, per omnia saecula saeculorum?
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PÁLIDA ESTRELA TREMULANTE
Temos, portanto, que pergunta e respostas não passam de retórica. Sabe-se desde sempre as causas e os efeitos da, digamos, gonorreia. Ou do cancro mole. Ou mesmo do cavalinho de crista. No entanto, existe sempre quem diz que a Terra é quadrada e que tais doenças não passam de castigo do céu enviado aos ímpios. Por ímpio, entenda-se nós, os que insistem em que Jair é irmão siamês de Messias, e que os seguidores de tal desconjuntado estrupício não passam de:
01) Ignorantes;
02) Ignorantes;
03) Ignorantes e
04) Ignorantes.
Donde se deduz que, curada a ignorância, teremos aplainada a estrada que nos levará, se não ao paraíso, pelo menos a futuro menos inglorioso.
– O diabo é separar o trigo do joio – declarou Adão Ventura, o Sábio, certeiro como sempre.
– Facílimo! – ponderou Sérgio, sempre chegado a achegas. – Basta devolver o surrupiado território aos legítimos donos e distribuir os falsos proprietários a quem os queira acolher de mão beijada ou paga.
– Não é má ideia – alvoroçaram-se em uníssono Janis e Jimi, os cantadores. – ficariam felizes os indígenas em seus naturais territórios, cuidando, cultivando, preservando, nadando e, naturalmente, impedindo que malucos, doidivanas e larápios invadam e depredem o que jamais deveria ser invadido e depredado.
– Sei não – sempre o pessimista Vieira. – Tudo bem quanto a devolver a terra usurpada a quem de direito. Mas espalhar pelo mundo o mundaréu de descendentes de quem aportou, escravizou e multiplicou? Tenho cá minhas dúvidas.
E, assim, acabou-se o que era doce. No próximo domingo, a divisão das gentes.
Sebastião Nunes é um escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.
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josé Oliveira de Araújo
9 de outubro de 2022 8:31 amJá que o texto aborda a usurpação das terras dos povos nativos pelos honestos e civilizados europeus, é bom que se repita para os grandes combatedores da corrupção, que esta surgiu junto com a primeira usurpação das terras coletivas. Daí podermos concluir, que a CORRUPÇÃO SURGIU, COMO IRMÃ XIFÓPAGA, DA PROPRIEDADE PRIVADA. Soa estranho, que aqueles que defendem a propriedade privada como principio basilar da sociedade, pretendem acabar com a corrupção.