4 de junho de 2026

Terceira carta ao Presidente Lula: qual deve ser o piso da educação básica?, por Sebastião Nunes

Na próxima semana, espero que nosso Presidente Lula esteja eleito no primeiro turno, para exorcizar quatro anos de demência

Terceira carta ao Presidente Lula: qual deve ser o piso da educação básica?

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por Sebastião Nunes

            Senhor Presidente:

            Se fosse possível escolher as prioridades de um bom governo no Brasil, eu diria que as prioridades são todas. Todas as urgências são prioritárias, da saúde ao emprego com carteira assinada, da agricultura à indústria, dos serviços à construção civil e até à cervejinha do fim de semana, no papo entre amigos.

            Tudo é prioridade e é tudo urgente, urgentíssimo, dado o estado de calamidade pública a que chegamos, por nossa culpa de eleitores incautos. No entanto, somos mais de 215 milhões de habitantes, e alguma coisa há de ser mais urgente do que outras. Nesse caso, eu diria que a educação está em primeiro lugar e o salário dos responsáveis pela educação básica deve estar na frente de outras demandas, exceto a saúde, o combate à fome e ao desemprego.

            Existe então o dever de espantar a fome, cuidar dos doentes e gerar o máximo de empregos. Mas também existe a obrigação de elevar o piso salarial da educação básica a um nível que o torne convidativo e atraia para as escolas o olhar de quem procura um bom trabalho.

            Escrevi trabalho, não emprego.

            É preciso que os profissionais dedicados à educação de crianças e jovens mirem como objetivo primordial melhorar o ensino de tal maneira que, em dez ou quinze anos, o Brasil se coloque entre os mais desenvolvidos e compromissados do mundo.

            Assim, qual deve ser o piso salarial desses profissionais?

            Cinco salários mínimos por mês? Dez?

            No primeiro caso, teríamos R$ 6.510,00. No segundo, o dobro: R$ 13.020,00.

            Ah, dirão os sonhadores, você está confundindo salário com mordomia.

            De forma alguma. Quem se ocupa da formação básica dos futuros engenheiros e médicos, deve receber pelo menos o equivalente ao ganho desses profissionais.

            Ah, voltará o sonhador, mas esses estudam durante muito mais tempo.

            De forma alguma. Um bom professor nunca para de estudar, pois está sempre se atualizando para poder compreender, gerenciar e transmitir o que deve transmitir.

            Chiarão de um lado os conselhos de medicina, que nunca viram com bons olhos profissionais melhor remunerados que seus pupilos.

            Resmungarão de outro os porta-vozes dos engenheiros.

            Arrancarão os cabelos prefeitos e prefeitas de cidades pequenas, minúsculas e médias, apavorados com a sangria de seus cofres já (quase) vazios.

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IMAGINANDO O INVIÁVEL

            Senhor presidente Lula:

            Nos idos de sei-lá-quando os habitantes do distrito de Sei-Lá-Onde porfiaram com tal denodo que conseguiram, por um plebiscito de favas contadas, elevar a cidade não só seu distrito de 3.000 habitantes quanto microscópicos distritos circunvizinhos, de modo a totalizar 6.666 moradores, doravante autodenominados sei-lá-ondenses.

            Como não podia deixar de ser, o novo município passou a ter seu prefeito e sua câmara municipal (com o mínimo permitido em lei de vereadores), além de tantos secretários e sub, todos naturalmente remunerados, e quase sempre bem remunerados, além de funcionários superiores e inferiores idem.

            O alcaide de Sei-Lá-Onde, de olho no Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e outras verbas, via com olhos turvos a exígua e mal dotada escola municipal, que lhe chupava, com sua mania de arrebanhar moleques nas roças e pagar professoras de nariz empinado, boa parte dos recursos.

            Daí que foi o prefeito, seguido do presidente da câmara, arengar na câmara dos deputados etc. etc. Multiplique-se por alguns milhares o acontecido em Sei-Lá-Onde e teremos o retrato escarrado do Brasil depauperado.

REVIRANDO O REVIRÁVEL

            Presidente Lula:

            Sei que o senhor preza uma boa piada, mas o capítulo acima nada tem de piada. É o retrato do que acontece no Brasil, com seus 26 estados e um distrito federal (que poderiam ser redimensionados tranquilamente para o dobro, isto é 52) e seus 5.570 municípios (que, ao contrário, poderiam ser reduzidos para 2.875, isto é, a metade). Estou especulando, é claro. Mas a Teoria do Chute também ajuda a pensar.

            De qualquer forma, o problema de como sustentar a educação básica, com suas escolas tipo CIEPs e seus professores muito bem remunerados (de modo a se exibirem orgulhosamente em praça pública e não se escondendo pelos cantos), será o maior de todos os abacaxis que o senhor herdará do desgoverno que nos atormenta e sucateia.

            Caberá ao Senhor, Presidente, e a seus ministros, secretários e assessores, dar ao país e ao mundo o exemplo do Bom Governo, assim mesmo, com iniciais maiúsculas, pois para isso está sendo eleito por nós, eleitores incautos que, desacostumados de vilezas e traições, vimos subir à presidência um despreparado de pai e mãe.

Sebastião Nunes é um escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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Sebastiao Nunes

Escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

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