5 de junho de 2026

Radicalizando: a devolução das gentes a seu lugar de origem, por Sebastião Nunes

Como além de sonhar adoro uma boa briga intelectual (e não a briga estúpida dos bozoloides), lá vai mais uma proposta de redistribuição territorial de nosso enorme bananão.

Radicalizando: a devolução das gentes a seu lugar de origem

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por Sebastião Nunes

Estavam meus amigos suspensos diante da tremenda resolução proposta pelo nunca satisfeito contista-mor Sérgio Sant’Anna, qual fosse: entregar aos naturais a terra que ocuparam desde sempre e devolver às origens os remanescentes surrupiões.

Disso resultaria que nossos índios ocupariam o vastíssimo continente brasiliano, desde o Oiapique até o Chuó, de norte a sul e de leste a oeste, representando o que hoje significam 26 estados e um distrito federal. Terra pra cacete!

– Sei não – ponderou o afrodescendente Adão Ventura, retomando como seu o discurso do filósofo escolástico Luís Gonzaga Vieira. – Teria a mãe-África capacidade para recolher, abrigar e sustentar os muitos milhões que hoje somos, ainda que em boa parte esfarrapados, desnutridos, semi-analfabetos, favelados, banguelas?

– Raciocinemos – conclamou a botar em funcionamento as cacholas Otávio Ramos, o cético. – Tomando como exemplo a Bahia, teriam seus filhos de cor (como se expressam os estadunidenses, aí englobando retintos, tisnados, chicanos e morenos de todas as latitudes e longitudes) vontade de retornar, ainda que soubessem para onde e quando?

– Os baianos brancos, novos e velhos, incluindo os autodenominados pardos, adorariam, pois deles seriam as terras, os quitutes e os cafunés, e só deles – sopitou Sérgio, com aquele riso maroto que usava para acentuar ironias e deboches.

– Será? – pessimizou Manoel Lobato, que não distinguia putas pretas de putas brancas, a todas servindo com galharia e presteza no balcão de sua farmácia. – Imagino que os baianos brancos, pachorrentamente acostumados a desfrutar nos mais diversos sentidos a mais-valia oferecida pelos pretos, detestariam.

– Também acho – dedilhou o guitarrista Jimi Hendrix, retinto e perspicaz, bem sabedor de que, músico não fosse, e dos excelentes, o pão que o diabo amassou comeria. A branquela Janis Joplin, saboreando as iguarias fartamente ofertadas por Sancho Pança, nada acrescentou nem lhe foi perguntado.

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TÁ DANADO, DISSE O AUTOR

 Crudelíssimo impasse. Como retornar sírios, libaneses e turcos a suas origens, se os turcos que enricaram se tornaram libaneses e os sírios não estão dispostos a servir de bucha de canhão? E os ex-germanos, acantonados nas terras sulinas, produzindo boas cepas certificadas e ótimos fluidos inebriantes, além de terem aprendido a chutar bola e a degustar churrasco? E os lusitanos, esquecidos de que em vez do “veio-me!!!!!” aqui se diz “gozei!!!!!” em bom brasileiro, quando lhes vem o bem-vindo êxtase?

Certo que nos livraríamos da extrema-direita, mas também é certo que nessas levas muitos dos bons se iriam para sempre. Que fazer, em tal encruzilhada?

QUEM NÃO TEM CÃO…

– Vivendo adonde vivemos, temos a onipotência, a onipresença e a onisciência do nosso lado – soprou as labaredas quase extintas da ótima ideia dom Quixote. – Se não podemos repatriar os povos, que tal redistribuí-los?

– Não entendi – confessou sua insapiência Adão, coçando o nariz. – Redistribuir o quê e como, se me faz o favor?

– Muito simples – retornou o Cavaleiro da Triste Figura. – Na Espanha, que na palma da mão tenho circunscrita, temos andaluzes, bascos e catalães que, embora sigam lá seus princípios éticos-morais-linguísticos-territoriais-místicos, partilham como bons vizinhos (sic) suas diferenças e se comportam civilizadamente, ou quase.

– Tá – admitiu Otávio, para não dar asa a cobra. – Embora não concorde com uma única palavra do que dizeis, defenderei até a morte vosso direito de dizê-las. Qual é afinal a vossa proposta, se é que existe e de sofisma não passa?

– Muito simples – prontificou-se a esclarecer o fidalgo. – Podemos transferir os povos de Santa Catarina pra Pernambuco (sem esquecer aquele papagaio careca) e, em troca, recambiar pra Santa Catarina os habitantes de Pernambuco. E fazer o mesmo nos demais estados da federação, mutatis mutandis.

– E o que espera Vossa Alteza com tão esdrúxulo escambo?

– Ainda não tenho certeza – perorou honestamente o amante de Dulcineia. – Mas, quem sabe, passando a viver em terras mais calorosas, deixem os barrigas-verdes de lado seu mate e adotem a água de coco? E abandonem suas ideias de extrema-direita adotando postura mais democrática e mais afinada com nossa brasilidade?

– Mas, assim, caro senhor, estaremos botando todos os gatos no mesmo saco – disse Sérgio. – Pois nem todos os barrigas-verdes são de extrema direita.

– Sei disso – veio de lá o outro. – Mas pensei que uma valente chacoalhada seria uma boa maneira de levar gregos e troianos a se entenderem melhor e, quem sabe, de uma democracia caolha fazer uma democracia inteiriça.

– Faz sentido – ponderou Lobato. – E, como somos todo-poderosos no assento etéreo onde subimos, não nos custaria, por exemplo, transportar e depositar o Estado de São Paulo no sítio onde hoje pairam Altamira e seus arredores. Se não servir pra nada, servirá pelo menos para as crianças aprenderem a gostosura de nadar em rio limpo e colher frutinhas gostosas no mato.

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A ilustração é só uma ideia virando realidade. Que realidade gostosa, né?

Sebastião Nunes é um escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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Sebastiao Nunes

Escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

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