O sonho místico de Vieira, o filósofo existencialista do mundo pobre, por Sebastião Nunes

Continua a lenga-lenga em torno dos sonhos de meus amigos mortos. Sempre com algumas alfinetadas na estupidez e na ignorância. Não podemos baixar a guarda contra os desatinados, nunca.

O sonho místico de Vieira, o filósofo existencialista do mundo pobre

por Sebastião Nunes

Dos dois bilhões e trezentos milhões de seres humanos vivos na década de 1930, Luís Gonzaga Vieira foi apenas um deles. Nada acrescentava ou diminuía na economia terrestre, uma titica de galinha, como todos nós. Do extraordinário orador sacro barroco do século XVII, que abalou os alicerces da nobreza portuguesa, Luís Gonzaga Vieira só tinha o sobrenome e propensão a erudito.

– Prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém – disse aleatoriamente Manoel Lobato, passando o bastão dos sonhos para o prolixo autor de dezenas de livros impublicados. Aliás, como autor impublicado, Vieira deveria ter cadeira cativa no Livro dos Recordes. Pois escrevia como galinhas botam ovos: por necessidade vital e descarga emocional.

Assim, nosso amigo recém-morto pegou a palavra pelo rabo e perorou (sic):

– Do mesmo modo que meu fraterno antecessor, também sou do time daqueles quase absolutamente desconhecidos, como o são 7.999.999.999 viventes no presente em nosso tempo de desgraceira, miséria e arrogância.

– Puxa! – exclamou Sérgio Sant’Anna escandalizado. – Quer dizer que entre 1930 e 2022, menos de um século, a população mundial aumentou mais de 300%? É de torrar os miolos! Alguém me diria por quê?

– Suponho – intrometeu-se o sapiente Otávio Ramos, eficaz e suspicaz –, que tal fato se deve a fatores diversos como a invenção dos antibióticos, a proliferação do Viagra, a minissaia, o surgimento dos Beatles, a microinformática, a expansão massiva da estupidez, a multiplicação dos bilionários, os hambúrgueres, a profissionalização das prostitutas, a aceitação de práticas além da tradicional mamãe-e-papai, o agronegócio, o negócio das drogas, a falta de comida a nível nacional/mundial, a violência institucional contra negros, o confinamento dos pretos e pardos em periferias e subempregos, a nova guerra fria patrocinada pelos Estados Unidos sob o vão pretexto de…

– Pera aí – suspendeu a lenga-lenga o afrodescendente Adão Ventura, cioso de suas origens e de suas inesperadas conquistas no mundo dos branquelos. – Isso daí virou um balaio de gatos. Que mistureba é essa?

– Se querem redução, reduzirei – anuiu Otávio, eternamente ciente dos valores do contraditório. – Fiquemos no Viagra. Com a aparição do azulzinho e sua expansão ao redor do mundo, os garotões de 50, 60, 70, 80, 90 e 100 anos recolheram as muxibas, deram adeus às bengalas e puseram-se a saltitar por fêmeas, promíscuas ou não, férteis ou estéreis.

– Tá bom – acordou Adão, atento ao diálogo produtivo (e mesmo ao diálogo improdutivo). – Mas cadê o sonho?

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O SONHO DE VIEIRA

“Sentado à mesa ampla do refeitório do seminário maior de Mariana, degustava a xícara de café contumaz, temperado com açúcar, liamba (Vitex agnus-castus), no Pará conhecida por Alecrim-de-angola e nitrato de potássio. A liamba era também misturada no macarrão, no feijão, no angu e no picadinho de carne domingueiro, de modo que tesão na turma era próximo de zero. Eu lambia os beiços e pedia mais, todo santo dia pedia mais, de modo que era o mais casto dos 77 colegas da turma de filosofia. Como o cardápio dos padres era o mesmo, todo mundo ali parecia anjo, sem sexo e sem tesão.”

– Isso está parecendo relatório de eunuco – atreveu-se Lobato, cioso da limpidez do sonho que narrou no capítulo anterior. – Deixe de divagar e vamos aos fatos.

Vieira balançou a cabeça de cima para baixo e continuou:

“Na tarde de domingo saí para o passeio semanal, roupa amarrotada e sapatos de verniz. Logo na esquina duas belezas me requisitaram: uma garota de seus 15 anos e uma roseira. Mal olhei para a garota e me debrucei para cheirar uma rosa vermelha, de pétalas escandalosamente luminosas. Desapontada, a moça disse bem alto para o vento: ‘Esse cara deve ser broxa’.

– Broxa ou brocha? – quis saber Sancho Pança, que também tinha dúvidas sobre a grafia correta de chuchu e xuxu, chícara e xícara, além de outras desgraceiras da língua portuguesa, que escrevia mal e porcamente.

– Sei lá – respondeu o honesto Vieira. – Recorri ao Aurélio e ao Houaiss e fiquei na mesma. Como o inexistente leitor também não sabe, tanto faz como tanto fez.

– Basta de lero-lero. Pra frente com o sonho – irritou-se Dom Quixote, aplaudido por São Pedro, parado ali pertinho, mordendo um raminho de alecrim celeste.

– Acho que a inexistente paciência do inexistente leitor já se esgotou. Melhor continuar na próxima semana, se é que esse sonho levará a algum lugar.

– Apoiado – disse Sérgio. – Como isto aqui não é novela de televisão, que enrola o telespectador como mosca em teia, não tem importância nenhuma se continua ou não.

Todos se puseram a olhar para dentro, envergonhados de sua falta de assunto, como se os horrores do mundo não estivessem bem ali, na fria e promíscua Terra, que a cada dia de mais vermelho sangue se tingia.

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“Que coisa mais estranha não poder acreditar no homem, a história não deixa.” (Luís Gonzaga Vieira)

Sebastião Nunes é um escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

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