A teologia do estupro, uma história quase verdadeira

As fake news ganharam as eleições e foram diplomadas pelo TSE. Portanto, doravante a liberdade de imprensa e de expressão abrigam o sagrado direito de mentir. A história que vou contar é ou poderia ser verdadeira.

Toda boa história começa com um vazamento. Domingo comprei goiabas numa feira. Ao tentar provar uma delas fui severamente repreendido pelo bicho que estava dentro da fruta. Ele me disse que se fosse poupado delataria a pastora que ganhou um mistério.

A homologação desse acordo de delação goiabada não foi feita “com o Supremo com tudo”. Sua validade é meramente literária, ou seja, ele tem tanto valor jurídico quando as acusações baseadas nas convicções dos procuradores do MPF sacadas contra os petistas.

Disse o verme.

– Eu nasci numa família que há décadas habita as frutas de uma mesma goiabeira. A história que vou lhe contar é uma tradição passada de pai para filho ao longo de gerações.

Após tomar fôlego, o delator continuou:

– Certa feita um dos meus antepassados estava tomando ar, quando presenciou um milagre. A menina que vivia roubando frutos nas vizinhanças viu Jesus na goiabeira. Ele contou a história das origens dele para a menina.

– O que foi que ele disse? Perguntei.

– Jesus disse que a mãe dele havia sido estuprada por um soldado romano. Maria e o esposo dela inventaram a história do anjo para evitar complicações no vilarejo. Naquele tempo os invasores romanos eram profundamente odiados e a mão de Jesus poderia ser apedrejada, entende? Alguns meses depois, o casal teve que se mudar e Maria pariu numa manjedoura. Ela queria abandonar o filho indesejado, mas José ficou com pena da criança e resolveu cria-la como se fosse seu filho. Maria foi obrigada a obedecer ao esposo e todos teriam sido felizes para sempre se Jesus não tivesse sido crucificado por causa de sua mania de dividir o pão e o vinho e de dizer que todos eram iguais. Um dia antes dele ser preso, Maria reencontrou o soldado romano em Jerusalém. Ele já era centurião e pertencia ao círculo próximo do governador da província. Maria resolveu apresenta-lo ao filho acreditando que o pai haveria de proteger Jesus. Entretanto, ao invés de reconhecer a paternidade o centurião preferiu ser leal a Roma e cumpriu o decreto de prisão que havia sido expedido contra seu filho bastardo.

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O bicho precisou fazer uma pausa antes de terminar a história. Ele estava emocionado.

– Meu pai estava presente quando eu morri e proferi minhas últimas palavras, disse Jesus à menina.  Ué… – disse a menina – eu aprendi que Maria foi fecundada por um anjo. Então… – respondeu o Jesus da goiabeira – o nome do romano era Angelus (anjo em Latim). Portanto, a história que Maria e José contaram não era inteiramente falsa.  Mas o estupro não é crime? – perguntou a menina. Não é não – respondeu o Jesus da goiabeira. Agora vou revelar a você uma profecia. Eu vou renascer em algumas décadas e quando isso acontecer você irá impedir que minha mãe me abandone ou me aborte. A menina fez o sinal da cruz e o Jesus desapareceu.

– Você tem alguma coisa gostaria de acrescentar algum detalhe à sua delação goiabada?

– Sim disse – disse o bicho. Durante aquele encontro, meu antepassado notou que Jesus mantinha os dedos cruzados nas costas sempre que falava com a menina. Mas eu não sei o que isso significa.

– Depois que a menina fez o sinal da cruz o Jesus reapareceu na goiabeira? – perguntei.

– Não! – respondeu o verme.

Eu já estava me preparando para cumprir minha parte do acordo quando um bicho apareceu numa das outras goiabas.

– Aê, mano… o negócio é o seguinte. Você não deve acreditar numa palavra que o nóia do meu primo disse.

– Porque? – perguntei.

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– Por que ele é um mentiroso do caralho. Ele diria qualquer coisa para sobreviver.

– Você presenciou o que aconteceu?

– É claro que não, maluco. Mas eu conheço a história verdadeira – disse o verme. Só que eu não gostaria de conta-la na presença desse nóia (e apontou para o primo).

Deixei o primeiro delator na cozinha e levei o primo dele para a sala. Quando fechei a porta de comunicação entre os dois cômodos o bicho começou a regurgitar sua delação goiabada:

– Então… Segundo a verdadeira tradição passada de pai para filho na família, no dia dos fatos aquela ladra de frutos veio bulir nas redondezas. Mas antes de chegar na goiabeira, ela sentiu dor de barriga e se agachou para dar uma cagada. Depois de aliviar o intestino, a menina apanhou as folhas de um arbusto próximo para limpar a bunda. Ocorre que o arbusto em questão era um pé de maconha.  De tanto ela esfregar as folhas no rabo o princípio ativo da droga deve ter entrado na corrente sanguínea dela. Ela havia tido um sangramento anal, entende? A coisa toda foi muito loca, mano. A maconha deixou a menina chapada. Durante quase duas horas ela ficou agachada com os olhos arregalados falando sozinha, como se alguém estivesse na árvore. Mas segundo meus antepassados não tinha ninguém lá, maluco.

Infelizmente não tive tempo de interrogar novamente meu primeiro informante. Quando retornei à cozinha dei de cara com um passarinho que havia entrado pela janela e devorado a goiaba e o verme que alegou que seu antepassado viu a ministra de Bolsonaro conversar com o Jesus da goiabeira.  

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