Chegaram a algum lugar – mas que diabo de lugar é esse?, por Sebastião Nunes

Mais uma futurista da nova série, um tanto teatral, introduzindo três dos maiores profetas do século XX: Augusto dos Anjos, Franz Kafka e Jorge Luis Borges, além de um grande poema pessimista sobre nosso futuro.

Chegaram a algum lugar – mas que diabo de lugar é esse?

por Sebastião Nunes

Foi um deus nos acuda.

Assim que o arcanjo Gabriel deu a partida na máquina do tempo, ouviu-se tremenda explosão, seguida de intermináveis sacudidelas, que jogavam as almas dos imortais-mortais-imortais de um lado para o outro, aos trambolhões.

– Caralho! – berrou São Pedro. – Esta máquina é maluca!

Exceto Gabriel e o santo guardião, os demais tinham desmaiado. Só acordaram com muita droga aplicada na veia e cachaça despejada goela abaixo.

Quando todos pareciam recuperados e com a típica palidez anímica, Gabriel abriu a porta e olhou para fora, recuando imediatamente e fechando a porta.

– Não acredito! Isto não pode ser verdade!

Era verdade sim, conforme constataram os ex-viventes e os celestiais quando a coragem voltou (ou a curiosidade foi mais forte) e um deles reabriu a porta.

OS DOIS MUNDOS PARALELOS

Pareciam duas fotos, uma sobre a outra. Numa delas, uma espécie de Avenida Paulista antiga, absurdamente vazia, com prédios desmoronando e carros despedaçados, espalhados aleatoriamente. Na outra, a mesma imagem absurdamente cheia de gente, mas com apenas meia dúzia de prédios quadrados, muito feios e sombrios, sem portas ou janelas, separados uns dos outros por fileiras de casebres miseráveis. As pessoas pareciam tristes e desamparadas. Amarelada e densa neblina cobria as paisagens.

– Estranho, muito estranho – disse Sérgio Sant’Anna. – Nenhuma das duas fotos parece a Avenida Paulista que eu conheci. Parecem mais caricaturas grotescas, sem nada de real. Vamos descer?

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No que desceram, deram de cara com duas multidões de miseráveis, vindas dos dois lados da Avenida rumo ao centro da imagem. A primeira levantava bem alto um cartaz gigante com a expressão incompleta: IDEALIZAÇÃO DA… A segunda erguia gigantesco cartaz, que parecia completar o primeiro: HUMANIDADE FUTURA. Carregado nos ombros pelas duas multidões, um sujeito magérrimo em duplicata, de terno e gravata à moda antiga, parecia pouco à vontade.

– Eu conheço esses caras! – pestanejou Luís Gonzaga Vieira. – Ora vejam se não é o poeta Augusto dos Anjos em dose dupla. Mas ele não devia ter ficado lá em cima (ou lá embaixo, não sei mais), esperando diante do portão do Paraíso? Ele não é um dos imortais-mortais-imortais?

São Pedro coçou a barba antes de responder:

– Como em todo lugar, no hall diante do portão existem privilégios. E alguns dos privilegiados são artistas excepcionais, que transcendem os conceitos celestiais, dão nó nas regras e introduzem ruídos na Música das Esferas. Esse aí deve ser um dos tais.

LENDO O FUTURO TENEBROSO

Como se respondendo a um comando invisível, as duas metades da multidão passaram a declamar, alternadamente, uns versos atrozes, que se ouviam em altíssimo e retumbante cantochão:

Multidão de miseráveis da esquerda:

RUGIA NOS MEUS CENTROS CEREBRAIS

Multidão de miseráveis da direita:

A MULTIDÃO DOS SÉCULOS FUTUROS

Multidão de miseráveis da esquerda:

HOMENS QUE A HERANÇA DE ÍMPETOS IMPUROS

Multidão de miseráveis da direita:

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TORNARA ETNICAMENTE IRRACIONAIS!

Multidão de miseráveis da esquerda:

NÃO SEI QUE LIVRO, EM LETRAS GARRAFAIS,

Multidão de miseráveis da direita:

MEUS OLHOS LIAM! NO HÚMUS DOS MONTUROS

Multidão de miseráveis da esquerda:

REALIZAVAM-SE OS PARTOS MAIS OBSCUROS

Multidão de miseráveis da direita:

DENTRE AS GENEALOGIAS ANIMAIS!

Multidão de miseráveis da esquerda:

COMO QUEM ESMIGALHA PROTOZOÁRIOS

Multidão de miseráveis da direita:

METI TODOS OS DEDOS MERCENÁRIOS

Multidão de miseráveis da esquerda:

NA CONSCIÊNCIA DAQUELA MULTIDÃO…

Multidão de miseráveis da direita:

E EM VEZ DE ACHAR A LUZ QUE OS CÉUS INFLAMA

Multidão de miseráveis da esquerda:

SOMENTE ACHEI MOLÉCULAS DE LAMA

Multidão de miseráveis da direita:

E A MOSCA ALEGRE DA PUTREFAÇÃO!

Ouviram-se aplausos frenéticos. E nossos amigos viram a seu lado, aplaudindo com o máximo de energia, os ilustres defuntos Franz Kafka e Jorge Luis Borges.

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1 comentário

  1. – Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
    Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
    Deus pôs almas nos cedros… no junquilho…
    Esta árvore, meu pai, possui minh’alma!…
    1.a República. República Paulista. Trocamos enorme Elite Intelectual e Cultural pela ridicularização caricata de Povo com fruteira na cabeça. Nossa Transformação Cultural metamorfoseando cabeça em rabo. Alguns ainda tentam negar o abismo. Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação.

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