Dominó de Botequim, por Rui Daher

Liga o Osorinho. Estranho o horário. Muito cedo para um domingo.

– Rui, acho que a reunião de hoje na paróquia não rola. Esquecemos o Dia dos Pais. Um monte de gente ligou dizendo que não poderá ir.

– Aqui também ligaram. Melhor cancelar. A conta já foi aberta e o dinheiro depositado.

– Ficou em nome de quem?

– Conjunta. O General e o Padre. O Estado lida bem com empreitas e a Igreja leva fé. Toda a semana serão prestadas contas. Nota fiscal para qualquer coisa. Nada por fora.

– Assim tem que ser. É a tradição.

– Onde? Na Dinamarca?

– Soube alguma coisa do Campeonato de Dominó, em Porto Rico?

– Acho que o Manoel ainda não voltou, mas soube de alguma coisa no site da Confederação. O que você está fazendo agora?

– Falando com você, escondido da Alzira. Ela está me apressando para ir comprar um nhoque que diz só haver num lugar e logo acaba.

– Fica longe?

– Não muito. Aí do seu lado.

– Então, vem pra cá. Compramos a massa, você liga dizendo que vai demorar, terá que esperar fazerem mais, sei lá, qualquer desculpa.

– Você não imagina o quanto ela é desconfiada. Diz que eu afino a voz quando vou mentir.

– Vem, aproveito e te conto do dominó e de um alambique que descobri em Minas. Trouxe 10 litros de amostra. Conforme o horário, fazemos uma singela degustação pré-nhoque.

– Ôpa, tô saindo.

– Avise se vier de bicicleta pelas ciclovias. Guardo uma vaga para você estacionar.

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– Claro.

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Dia dos Pais. Bom, né? Perdi o meu aos 19 anos, num domingo ensolarado como este em São Paulo. Era 27 de junho de 1965.

Voltava de duas obrigações dominicais: aula de Termologia com o professor Dráuzio Varella no cursinho Nove de Julho, para medicina; e missa na Igreja de São Bento, colégio onde estudara.

Vi a ambulância estacionada na porta do prédio, do outro lado do Viaduto Santa Efigênia, onde morava com meus pais. Logo achei que o assunto era comigo. Naquele dia troquei de mal com Deus, como escreveu Paulo César Pinheiro e cantou João Nogueira.

Entrei no apartamento, minha mãe aos prantos. Papai estava deitado no sofá da sala, já morto. Duas sacolas de feira cheias estavam jogadas no hall do primeiro andar.

Ele subira as escadas, tocara a campainha, e caíra, fulminado por um enfarte. Tinha 43 anos de idade.

Coube a mim e a um primo que morava no andar de cima seguirmos a ambulância, num fusca branco, até o prédio da Santa Casa, onde o confirmaram apto ao enterro.

No percurso, Avenida São João, Largo do Arouche, chorei o tempo todo, enquanto repetia: “ele não, ele não, ele não”.

Hoje, pergunto-me por que a frase “ele não”, se todos, até o Eduardo Cunha, mais cedo ou mais tarde, também irão?

Talvez, arrependimento de jovens que perdem oportunidades de convivência. Poderia ter conversado mais, saber a história de nossos ancestrais árabes, sua adolescência em São José do Rio Preto, o motivo da fuga para São Paulo aos 17 anos, as dificuldades para nos sustentar, engolir sapos e conquistar vitórias. Por que votava em Adhemar de Barros e não em Jânio Quadros? Para ele, 1964 foi revolução ou golpe? Queria-me médico? Para quê?

Salve Fritz, “turcão sem nada de alemão”! Seu turquinho, que no próximo domingo completa 70 anos, te avisa que irá a uma manifestação. Levará flores ao seu túmulo no Araçá. Divida o buquê com a mamãe. Beijo.

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Toca a campainha. Deve ser o Osorinho. Abro a porta e nem o deixo entrar. Logo para a casa de massas garantir o nhoque de Alzira e da minha cachorra Filó.

Rações garantidas, começo pelo dominó.

– Sete atletas foram para San Juan. Pagaram do próprio bolso, com alguma ajuda das Federações. É o sexto evento internacional a que assim comparecem. O dominó não é considerado modalidade olímpica.

– Curioso, hipismo é.

–  O catarinense Dudu Oliveira obteve a melhor classificação de brasileiros até hoje. Ficou em vigésimo na individual, vencendo caras bons.

– Que cavalo ele montava?

Dou risada e passo para o tema alambique, aflito com as horas demorando a passar e adiando o rito da comunhão.

– Cara, como o Brasil vai bem.

– Tá louco? Não percebe a crise? Não assiste ao Jornal Nacional, não lê Veja, os jornalões?

– Não. Converso. Com o senhor Divino, por exemplo. Dono do alambique e o seu divino ajudante NéNé. Dois hectares de cana-de-açúcar, sem adubo químico ou agrotóxico, apenas bosta de vaca e sobras da fermentação do melaço. Um baita tacho fervendo à lenha, água para o resfriamento, sobras da rapadura caindo num cocho de boi, e as fôrmas retaangulares da rapadura. Só então vem a área industrial, de onde sai a mais pura cachaça que nem na Argentina, com Papa Francisco e tudo, seriam capazes de fabricar.

– Onde fica?

– Segredo. Vai que a 51 ou a Sagatiba descobrem e vão lá fazer oferta hostil para tirá-los do mercado.

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– Fala aí, pô!

– Petúnia, um distrito de Nova Rezende, em Minas Gerais. Nem o Waze conseguia achar o local entre tantos cafezais.

– Você me deixou curioso. Sei que é meio cedo, mas não podemos antecipar uma só horinha o pré-nhoque?

– Vamos lá!

Enquanto degustamos, vou dando mais detalhes do local, dos acondicionamentos em garrafas pet “para viagem”, desarranjos de layout, improvisos que poderiam sugerir sujeira. O sabor é maravilhoso, não arranha, como dizem os especialistas.

Somos interrompidos pelo celular do Osório, cujo toque é um samba do Germano Mathias falando de uma esposa desgracenta.

Depois de alguns minutos, ele me passa o telefone.

– O Netinho quer falar com você. Más notícias.

Pensei logo na saúde do Serafim.

– Oi Netinho, fala.

Osório passa a andar pela sala, cabisbaixo.

– Não pode ser, Neto. Ela ainda estava muito nova. Qual a causa? Suicídio?

Desligo. A negra Neide Celebração estava morta. 

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5 comentários

  1. SAN JUAN

     

     

    Caro Rui,

    Agradeço imensamente a divulgação através de suas maravilhoras cronicas do nosso querido esporte o Dominó.

    Não pude ir a Porto Rico, nem eu nem meu parceiro o xará Manoel Gomes, aliás sobre o Gomes, tenho que comentar sobre a sua paixão sobre o esporte. Tem 77 anos, mora em Santo Amaro, todo domingo atravessa a cidade e vem à Zona Leste (sede da Federação) jogar dominó. Participamos dos Mundiais de 2013 em Orlando (USA) e 2014 na Cidade do México (MEX).

    Infelizmente este ano devido a dificuldades financeiras, principalmente a alta do dolar, já com as passagens compradas, hotel reservado, tivemos que cancelar a viagem na última hora.

    Rui, o Dominó no Brasil não tem o mesmo incentivo que em outros países como no México, Venezuela, Porto Rico, Republica Dominicana, onde o mesmo é reconhecido como esporte e já existem projetos principalmente na Venezuela para a sua transformação em esporte olimpico com um viés de Esporte Olímpico da Mente, juntamente com o Xadrez.

    Mas aqui o Dominó apesar de ser um dos jogos mais conhecidos em sua forma recreativa, (todos sabem jogar dominó), como esporte competitivo e organizado é muito pouco divulgado, não tem projeção, não há interesse politico apesar dos seus benefícios comprovados na educação (ensino da matemática, raciocínio lógico, estratégias etc.) na saúde no combate ao estresss, a solidão e aos males da terceira idade como o alzheimer e parkinson.

    Não há esporte de maior socialização que o Dominó.

    Sómente uma correção o atleta brasileiro classificado em 20º lugar na categoria  individual foi o DUDU SILVEIRA, tendo realizado a façanha de vencer o atleta dominicano: JOAQUIN MARTINEZ, que já foi campeão mundial por 10 vezes, inclusive campeão por duplas em San Juan.

    DUDU SILVEIRA, é a melhor performance de um atleta brasileiro em Mundiais.

    Obrigado Rui, e por favor continue divulgando o nosso Dominó.

    Um abraço.

    Manoel Mendes Vieira 

    Presidente da FEPAD

     

     

    • Admirável o seu xará

      e este seu comentário aqui me deixa muito feliz.

      Apesar de em meio a crônicas e ficções é sempre gratificante divulgar fatos do esporte Dominó e o esforço de vocês para mostrar a expressão intelectual desse divertimento.

      O que não é ficional é a quantidade de vezes que noto nas praças das cidades brasileiras pequenas por onde passo me alegrar vendo a concentração dos jogadores. E aí não tem como não me lembrar de vocês.

      Desculpe-me a troca do sobrenome do grande Dudu.

      Não pararei. Um abraço.

       

  2. Amigo Rui!

    Como sempre, precioso e muito bem urdido!

    Que teu domingo tenha sido de muita paz junto aos teus.

    Estarei ausente por um tempinho, mas o arquivo GGN está aí para isso mesmo.

    Considere-se cumprimentado pelas próximas domingueiras.

    Abraço da Anna.  Até!

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