Buenos Aires, Zona Sul, San Telmo.
Dentre todos os sustos cotidianos, gracejos urbanos recebidos quando piso porta afora, outro dia deparei-me com um assombro de estremecimento impositivo e gracioso: vi a realidade de uma velharia. Ao levar para xerocar o livro de contos do escritor argentino Haroldo Conti – mas não o livro inteiro, era apenas um só conto.
– Irá se esfacelar, as folhas vão sair uma a uma, e estou dizendo, porque isso já me aconteceu ao xerocar esses livros assim antigos.
As palavras são do moço que realiza as fotocópias, aqui na Avenida Independência. E de repente, o que eu quis foi mesmo aquilo: matar o livro, ver a desossa do antigo bem diante dos meus olhos. Voem folhas, voem. Foi assim, livre pelas ruas, que pensei poder cometer um crime sem sentir remorso. Eram meus lábios suculentos naquele momento, diante do susto comigo mesma, com tamanha sede e desprezo formidáveis frente aquilo que, estando em casa, lido tão amigavelmente e frequentemente: peças vivas de uma coisa antiga.
Mas ali, com o moço do xerox, foi dada a mim oportunidade de finalizar um bom chega-pra-lá nessa velharia tão costumeira da palavra escrita. Porque escrevo trazendo, com mãos de quem puxa vento de trás de. Além do mais, Buenos Aires já tem passado de sobra andando, e esbarrando-nos vamos por aí.
Então, foi com ardor e triunfo que autorizei as dobras e desdobras do livro, “La Balada del Álamo Carolina”, edição de 5 de junho de 1975 – veio-me em pensamento o colega livreiro e seu entusiasmo quando vendeu-me por merrecas essa bela prima edición! Ainda assim, segui com vontade destemida e determinada, disposta a ver-voar-adeus à impressão do passado no presente.
Poeira vá. Mas agarro a poeira para escrever, e conto do tal livro um pouco. Um pouco do conto que é o conto da lamúria do xerox, e prossegue seu nome-título: Perfumada Noche. Suas 13 páginas (folheio o livro amarelecido), objeto renovado fotocopiado com o qual me preparava para viajar, levando-o justamente e coincidentemente até Chacabuco – presente simbólico para alguns companheiros da pequena cidade argentina. E falar de Chacabuco é falar de Haroldo Conti, ele que tanto dedicou escritos a seu povo. Mas olha!, o escritor perdeu-se aqui em meio a toda essa rebeldia para livrar-me de velharias, num afã cabal por matar o livro. É mesmo assustador, estou a secundarizar o H. Conti neste escrito, tudo em prol da morte desses cotidianos resquícios envelhecidos; pois quero ver quem mais terá tamanha elegância para escrever a vagareza rústica, violenta e desprovida duma vida na beira do rio, a passo jangada no delta Paraná. Mas isso já não é nem mesmo o conto, e estou a falar de novela*.
Retorno. San Telmo. Esqueci-me de que ao matar uma antiguidade não se livra dela por completo, ela é um todo-eles. São presenças amontoadas na falta de identidade com excesso de espíritos. A antiguidade renasce porque já morreu, e ao ter passado pelo processo de reinvenção de si, volta com forças extraordinárias para estar presente. Tentar destruir um livro de 1975 não proporcionou o abandono do antigo sobre mim. Vivo esbarrada e encostada por. Ao escrever sou coisa antiga, torno-me um pouco mais esquecida do mundo e mais cuidadosa comigo mesma, digerindo paladares mais certeiros e gostos insossos pela vida. E esse mofo da antiguidade tem-me a mim porque expressa-se pela escrita, mesmo que eu seja ainda jovem, é que uma das minhas partes necessita escrever, e não aprendeu a se comunicar de outro modo. Assim vivo aprendendo com os mais antigos a tarefa da fala exata.
Ah! Está bem, posso render-lhes às velharias todas as graças merecidas, mas nesse dia da fotocópia de um conto, esse dia o que eu quis, realmente, foi desfazer-me do antigo despedaçando um grande livro. E o que ganhei, ganhei apenas sustos comigo mesma envolta no querer arruinar um livro. E haja tanta santa ingenuidade. Obviamente não matei coisa antiga alguma, o livro sobreviveu ao meu gesto maligno. Vivinho José da Silva!
E agora estou renovada e vencida por um livro velho. Conformada: algum dia palavrearei sobre os contos de Haroldo Conti, ou sobre ele, o escritor do pueblo de Chacabuco. Essas palavras chegarão, nalgum presente visitado pela velharia de um passado; será este instante agora? E cumprirei quieta tal afazer, ou já o estou a obedecer? Porque escrevo é com a força de estar pacata em casa, estou aqui reservada, abandonada sem impulsos dos caminhares por Buenos Aires. Claro! Estas palavras não conseguiram se rebelar, a escrita tem polido cada vez mais a minha rebeldia. E estas palavras são, já e simplesmente, minha dedicação a Haroldo Conti.
*Sudeste é a novela mais famosa de Haroldo Conti (nascido 25 de maio, de 1925), escrita em 1962. Conti militava no Partido Revolucionário dos Trabalhadores, foi sequestrado no dia 5 de maio de 1976, e se encontra entre os desaparecidos pela ditadura militar argentina.
Mércia Vasconcelos
17 de maio de 2014 3:30 pmForças ocultas de um livro antigo
Andei por essa bela e antiga Buenos Aires e também fui ao livreiro. Você me levou.
Parabéns pelo escrito.