Guimarães Rosa e Cyro dos Anjos discutem a precária imortalidade, por Sebastião Nunes

Que fazer nessa falta de como agir, além de fofocar sobre vivos e mortos? Tomo dois mortos queridos e ilustres como testemunhas de que esse nosso país virou isso mesmo: uma grande merda

Guimarães Rosa e Cyro dos Anjos discutem a precária imortalidade

por Sebastião Nunes

Sentados frente a frente na beirada de seus túmulos, conversavam, numa noite de lua cheia, o pai do jagunço Diadorim e o progenitor do amanuense Belmiro. Papeavam discretamente, como convém a dois sertanejos: discretos no falar, discretos no maldizer, discretos no viver e até discretos na não-vida post-mortem.

Não tanto o diplomata, com sua espantosa carga de erudição, seu conhecimento de línguas sem fim e – sejamos sobriamente ferinos – seu orgulho inaudito. Orgulho tão portentoso que certo dia, num dos recontros tradicionais da livraria José Olympio, olhou do alto de seus seis metros de literária estatura o rival e pensou, como se falasse:

– E agora, o que é que vocês, romancistas tradicionais, irão fazer?

Não lembro quem foi o maledicente, mas lembro bem a altanaria do gordo ficcionista e a humildade pendente do quase machadiano narrador, que mudo permaneceu, perdido nas entrelinhas. A lenga-lenga prosseguia, já agora no além-vida:

– Besteira, não é mesmo, Cyro? Rematada tolice minha, naquelas alturas.

– Também acho – disse o outro, tossindo seu pigarro inexistente e sorrindo vão, como se pedisse desculpas, mineiro discretíssimo dos mais que há.

– Quem estava certo era o sacana do Bilac, com aquela conversa de “Última flor do Lácio, inculta e bela”.

– “És, a um tempo, esplendor e sepultura”, estava certo ele sim – emendou Cyro, completando a profecia bilaquiana formulada em dois decassílabos.

BALANGANDO AS PERNAS

Pois lá estavam eles, sentados na beira de seus frios túmulos, balançando as nuas pernas fantasmagoricamente espirituais e jogando conversa fora.

– Você não devia reclamar, Rosa – disse Cyro. – Com seus livros, garantiu a aposentadoria em vida de centenas – quem sabe milhares? – de professores universitários, pais e guardiães de suas obras, hoje em dia bem mais conhecedores de seu trabalho do que você mesmo.

– Nem você pode se queixar, Cyro – disse o sobrinho do Iauaretê. – Com seu charme discreto da pequena burguesia burocrática, amamentou também número avantajado de estudiosos, garantindo-lhes o pão sovado de cada dia.

– Estranho, Rosa, você está falando como brasileiro comum. Nada do gigante que escavou as veredas de Minas até garimpar a riquíssima língua de seus livros.

– Sabe o que é, Cyro? Cansei de ser êmulo do irlandês Joyce. Burrice minha, repito. Esqueci que, mesmo inventando uma língua sertaneja, ancorada na fala doce do mineiro, no fundo não passava de português do Brasil recheado de estrangeirismos, neste país sem eira nem beira.

– E sem futuro, bem sei.

ENQUANTO A LUA PASSEIA

– Pois é. Joyce escreveu em inglês – e todo mundo leu, parodiou, papagaiou, o diabo a quatro. Em todos os países e línguas. – completou Rosa.

– Mas você teve inúmeras traduções, Rosa. Boas e belas traduções.

– Que ninguém leu. No máximo, folheou. No máximo, acadêmicos.

– Por aqui também vamos nos apagando, eu mais do que você. Quem se lembra do que escrevi? Quem foi A menina do Sobrado? Um sonho?

– Dentro de cinquenta anos estarei na história literária por uma frase, e só uma. Adivinha qual?

– Viver é muito perigoso – de bate-pronto, e sorrindo, o pai do amanuense.

– Sim. Viver é muito perigoso. Uma frase banalíssima, vulgaríssima, truísmo ao redor do umbigo dos que se querem inteligentes.

– Mas, de todo o frenético labor, só essa banalidade retórica restará?

Rosa nem ouviu, e continuou:

– E o resto, a amplidão dos sertões, a vida pungente e pulsante de criaturas e de bichos, a desvalia dos pobres enfurnados em grotas, onças ameaçadas e peixes boiando em águas podres, e caboclos pitando seus cigarrinhos de palha, que não passam hoje de desditosa ficção, fumaça, ardor nos olhos, e mais nada.

Continuaram balangando as imateriais pernas.

Continuaram olhando o nada com suas órbitas vazias.

Até que se recolheram, cada qual com seus ossinhos úmidos, para a eternidade dos comuns destinos humanos, o de ossos descarnados, idos e vividos.

Entre nós, os semivivos, na desditosa Terra, a vida continua a mesma merda.

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“O correr da vida embrulha tudo; a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria, e ainda mais alegre no meio da tristeza…” (João Guimarães Rosa)

Sebastião Nunes é um escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

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