19 de junho de 2026

livrai-nos, Senhor, desta Vale de lama!, por romério rômulo

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livrai-nos, Senhor, desta Vale de lama!

por romério rômulo

 
1.
quando eu nasci
ninguém me viu.
eu era uma tropa sem rumo
um mar de lama no São Francisco.

2.
a tragédia é a Vale
e seus donos do ouro
e da praga
seus donos do dólar
e da morte
sua semântica crua
de destruição e engodo.
 
quantos infernos saem
desta boca agourenta
de malandros mundiais?
3.
dura terra que me come
com umas valas de ferro
a fazer meu caminho:
 
sobra o direito da morte
onde a vida sempre falta.
4.
as carnes não deixarão rastros
e o ferro das ruínas
não caberá no poema.
 
romério rômulo

 

Romério Rômulo

Romério Rômulo (poeta prosador) nasceu em Felixlândia, Minas Gerais, e mora em Ouro Preto, onde é professor de Economia Política da UFOP e um dos fundadores do Instituto Cultural Carlos Scliar – Rio de Janeiro RJ.

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2 Comentários
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  1. Jose mestre Carpina

    30 de janeiro de 2019 9:57 am

    Quem…
    Com ferro fere, com ferro será ferido;

  2. Roberto Monteiro

    30 de janeiro de 2019 11:38 am

    Permita-me, Romério

    usar seu espaço para também expressar minha indignação neste espaço. A tempo: obrigado por mais esta obra-prima de extrema sensibilidade.

    Aos humanos sem títulos (nem doutores, nem excelentíssimos, muito menos meritíssimos)

    Do barro nascereis
    ao pó voltareis
    mas, oh! deus dos homens
    por que deixaste
    impingir sobre nossas almas
    tanta lama, tanta infâmia
    não perdoando nem criança
    muito menos os pais
    as mães destas infâncias
    interrompidas na flor da idade
    enquanto o papel, o vil
    o devil metal, diabólico papel
    corre mundo coberto, imundo
    não de lodo, mas
    de sangue, de lágrimas
    nem vale, nem planalto
    muito menos o muro
    a rua, mausoléu infame
    das esperanças humanas
    depositadas agora
    sob sete palmos, muitas palmas
    muitos pés, muitas bocas
    cheias de terra seca
    ignoradas sobejamente
    por corações vazios, cheios de grana
    nem aí para a miséria
    que é viver à espera da morte
    chegar em previsível
    cruel aluvião de dor.

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