Sérgio Sant’Anna, Luís Gonzaga Vieira e Manoel Lobato chegam ao Paraíso, por Sebastião Nunes

Uma pausa na distopia foi uma homenagem a três grandes amigos que se foram recentemente.

Sérgio Sant’Anna, Luís Gonzaga Vieira e Manoel Lobato chegam ao Paraíso

por Sebastião Nunes

A Eternidade é a Eternidade.

Fazia um tempão (pelos parâmetros humanos) que Sérgio estava sentado num degrau de mármore na porta do Paraíso. Tinha uma senha, de número 10-66.1944, presa no pulso por uma fitinha azul. Não perguntem quando e onde lhe impuseram a etiqueta, ele não sabia. Com certeza indicava o dia da chegada e a ordem na fila de espera.

Sérgio parecia, como é natural – e mais natural nele, que tinha estopim curto – profundamente irritado com a demora, a falta de orientações, a absoluta ausência de movimento. Reinavam um silêncio e um torpor quase totais. Além disso, ele se julgava lesado: tantos amigos mais velhos continuavam vivos e logo ele, que estava na metade de um conto e tinha material para um livro inteiro, fora ceifado pela foice da Megera aos 78 anos. Logo ele, que contava chegar pelo menos aos 88.

Sérgio olhou em volta e notou que milhares de outras criaturas esperavam a vez, também sentadas em degraus de mármore: a porta do Paraíso parecia infinita. Como se fosse um campo de futebol infinito com infinitas arquibancadas de mármore, e não de cimento vagabundo. Um pouco distante, cerca de 10 metros, digamos (pelos parâmetros humanos), viu uma cabeça completamente calva, não muito diferente de muitas outras, que lhe pareceu familiar: ergueu o esqueleto (a ele pareceu esqueleto) e caminhou, ou quem sabe flutuou, na direção da calva.

Com alegria (sentimentos humanos eram admitidos até o portão), reconheceu na careca reluzente e suada seu velho amigo e compadre Luís Gonzaga Vieira, romancista-contista-filósofo-jornalista.

– Vieira, você por aqui! – exclamou Sérgio, num rompante de entusiasmo. – Quando foi que chegou?

– Não sei cara – respondeu Vieira. – De repente apareci diante deste portão e no meio desta multidão, com uma etiqueta presa no pulso por uma fitinha azul.

(Seu número: 17-88.1937. (1937: o ano de seu nascimento.)

– Mas você deve se lembrar de alguma coisa anterior – disse Sérgio ansioso, já que sua própria memória era uma espécie de branco sobre branco.

– Nada de nada – disse Vieira. – Branco total.

– Então estamos fodidos (palavrões eram permitidos na antessala) – admitiu Sérgio, com a tristeza mais pungente no rosto e na alma (se é que, ao entrar, não fora despojado de alma, e se é que, em vez de possuir um corpo, ele fosse alma pura).

MAIS UM VELHO COMPANHEIRO

Então ficaram ali, olhando em volta e um para o outro, verificando se o portão dava sinal de abrir, imaginando o que acontecia do outro lado.

– Será que São Pedro faz a triagem sozinho? – perguntou Vieira.

– Imagino que não – disse Sérgio. – Tem uma tonelada de anjos aí dentro. Não me parece que passem o tempo todo só entoando hinos de louvor. Seria uma torração de saco monumental.

– É – concordou Vieira. – Os anjos devem ser uma espécie de ajudantes de São Pedro e dos santos.

– Paus para toda obra – riu Sérgio, botando a mão em frente da boca, pois não tinha certeza se podia fazer piada com anjos. – Com certeza fazem um pouco de tudo.

Nisso, e ao mesmo tempo, os dois velhos amigos, perceberam um velhinho com cara de poucos amigos, que logo identificaram.

– Olha quem está ali! – disse Vieira. – Parece que é o Manoel Lobato.

– Porra, é ele mesmo, cara – respondeu Sérgio. – O velho Manoel Lobato enfim resolveu dar as caras.

De fato, lá estava o velho romancista-contista-cronista-farmacêutico, sentado num degrau de mármore, meio que de boca aberta com as novidades.

– Vamos lá – disse Vieira.

– Quem sabe ele se lembra de alguma coisa? – comentou Sérgio esperançoso.

– Não custa nada tentar – disse Vieira. – Quem sabe ele pode nos dar notícias do lado de lá?

É SÓ UMA PEQUENA HOMENAGEM

Sérgio Sant’Anna morreu em 10 de maio, puxado pela Covid. Vieira, debilitado pelo Mal de Parkinson, subiu no dia 17 de maio, exatamente uma semana depois. Já o velho Lobato, depois de passar 10 anos desmemoriado e ausente da vida e dos amigos (esquecia o nome de quem lhe telefonava quase no momento mesmo em que o reconhecia), foi-se em 24 de julho, aos 94 anos.

Eles se foram e eu fiquei. Por enquanto. Fomos amigos durante mais de 50 anos, desde que a literatura nos uniu no final da década de 1960. Partilhamos sonhos, livros, papo furado, tardes, noites, desejos. Eles sabiam que eu não sou capaz de textos líricos, panegíricos, rebarbativos. Esta, portanto, de um jeito grotesco, é minha homenagem a eles, aos três juntos, agora que se juntaram no Além, à espera de que um dia, amanhã ou daqui a 10 bilhões de anos, a Porta se abra.

Adeus, amigos. Até um dia.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora