8 de junho de 2026

Garimpo ilegal muda de tática para driblar fiscalização em terras indígenas

A principal mudança observada pelos pesquisadores é a substituição de grandes maquinários por equipamentos menores e menos potentes
Garimpo na foz do rio Aracaçá em janeiro de 2022 - Bruno Kelly/Relatório Yanomami Sob Ataque

Depois de anos de pressão do governo federal para expulsar invasores de Terras Indígenas, o garimpo ilegal não recuou, ele se adaptou. Um novo relatório lançado nesta segunda-feira (11) pela Universidade do Estado do Pará (UEPA), em parceria com o Instituto Mãe Crioula, mostra como as operações ilegais de extração de minério estão se reinventando para escapar da fiscalização, sobretudo nas terras dos Munduruku, no Pará.

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A principal mudança observada pelos pesquisadores é a substituição de grandes maquinários por equipamentos menores e menos potentes, uma estratégia deliberada para reduzir a visibilidade das operações e dificultar a ação das autoridades. A aparente “decadência técnica” do setor, portanto, esconde uma adaptação calculada para preservar o faturamento.

Crime organizado

O estudo revela ainda uma conexão preocupante entre o financiamento do garimpo e o crime organizado. O mesmo sistema financeiro que sustenta facções criminosas, exposto por operações como a Carbono Oculto, também financia as estruturas de extração de minério. Essa ligação apagou a fronteira entre o garimpo artesanal e a mineração industrial de larga escala, com esquemas que envolvem fundos de investimento e lavagem de dinheiro, já mapeados pela Polícia Federal.

Em dezembro de 2024, a operação Flygold II investigou um grupo que movimentou R$ 6 bilhões com o comércio ilegal de ouro. Em fevereiro de 2025, a operação Munduruku Log bloqueou R$ 24 milhões de suspeitos.

Quem trabalha nos garimpos

A pesquisa também investigou o perfil da mão de obra que abastece o garimpo ilegal no Pará. A maioria dos trabalhadores é oriunda do Maranhão, num fluxo migratório intrarregional que se consolidou desde os anos 1990, com pessoas alternando entre a lavoura e o garimpo conforme a demanda.

O cenário é ainda mais complexo nas comunidades indígenas. Muitos Munduruku aderem ao garimpo por falta de alternativas econômicas. O pesquisador Fabiano Bringe, um dos autores do estudo, chama esse fenômeno de “minero-dependência”, uma relação em que pequenos comércios e prestadores de serviço locais sustentam e ao mesmo tempo dependem dos garimpos para sobreviver.

Os jovens indígenas, em especial, encontram no garimpo uma atratividade que a agricultura e a pesca não oferecem. “A atividade no garimpo também é penosa. No entanto, a renda obtida é muito maior do que na agricultura, na pesca ou no artesanato”, observa Bringe.

Comunidades transformadas

Os impactos sobre os municípios da região são visíveis. Em Jacareacanga, cidade às margens do rio Tapajós onde os Munduruku representam 59,1% da população, o PIB municipal saltou de R$ 177 mil para R$ 625 mil entre 2014 e 2023. O número de caminhões quase triplicou no mesmo período, e os estabelecimentos comerciais e de serviços também cresceram expressivamente.

Mas essa riqueza tem um custo social alto. Indígenas expulsos de suas terras migram para periferias urbanas precárias, em bairros sem saneamento adequado, como o bairro dos Alagados, em Jacareacanga, formado justamente por esse processo de desterritorialização.
“Há a desterritorialização deles, que vão para periferias próximas, conformando bairros precarizados com condições de saneamento péssimas”, afirma Bringe.

O relatório, intitulado O Circuito Espacial do Garimpo Ilegal no Pós-Desintrusão, cobre o período de 2017 a 2023 e foi viabilizado com apoio do Ministério dos Povos Indígenas. Os Munduruku estão entre os grupos indígenas mais afetados pelo garimpo no Brasil, ao lado dos Yanomami e dos Kayapó.

*Com informações da Agência Brasil.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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1 Comentário
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  1. valdemar gonçalves da silva

    13 de maio de 2026 3:08 pm

    É ilegal por incompetência do governo.milhoes deixa de entrar no cofre do povo “governo” através de impostos. É só fiscalizar ao invés de destruir máquinas polindo mais q a operação.

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