4 de junho de 2026

Godard e o cinema nos anos 1980, por Fábio de Oliveira Ribeiro

O autor relembra alguns filmes do cineasta Jean-Luc Godard

Godard e o cinema nos anos 1980

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

A morte do diretor francês Jean-Luc Godard me fez lembrar algumas experiências no cinema durante os anos 1980.

O primeiro filme que gostaria de mencionar aqui é “Tron” (1982), que vi na sala de exibições do MASP em 1982 ou 1983. Quando eu, o Feijão e o Japonês chegamos ao local, a entrada ainda não estava liberada. Mas a fila era imensa e todos os ingressos esgotados.

O que fazer? Não podemos ficar sem ver esse filme.

Um dos meus amigos que trabalhava como técnico em eletrônica na Sweda, o Feijão, teve uma ideia genial para garantir nossa entrada. Ele deixou a bolsa que usava para trabalhar aberta com placas eletrônicas e ferramentas bem visíveis. Então, faltando uns 10 minutos para a entrada ser liberada, nós fomos com a cara e a coragem até o início da fila.

Quando alguém reclamava que nós estávamos furando a fila, meu colega exibia a bolsa do trabalho e dizia que nós éramos a equipe de manutenção chamada para consertar o projetor que havia dado uma pane. Na porta de entrada fomos barrados pelo segurança.

Aê… moçada. Esse cara não quer deixar nós entrarmos para consertar o projetor. Se nós não entrarmos, não vai ter filme!

Todo mundo na fila começou a protestar.  

Você vai ter que explicar isso para quem está na fila! – disse o Feijão girando nos calcanhares como se fosse embora.

O segurança imediatamente nos deixou entrar e nós nos escondemos no banheiro até o filme começar. O filme é espetacular, melhor do que a sequência dele feita em 2010. A estratégia que nós usamos para entrar no cinema foi inesquecível. 

Em 1988 ou 1989 vi um filme sobre a vida e obra de Gustav Mahler (se não me engano também na sala de projeção do MASP). Antes de entrar eu e meus colegas fizemos uma pajelança. Isso me proporcionou uma perspectiva interessante sobre a obra, especialmente quando da projeção de cenas metafóricas. Lembro com emoção que me senti mergulhado na trilha sonora. 

O terceiro filme marcante que vi na década de 1980 foi “Brazil, o Filme”. Esse filme é sensacional e dispensa qualquer comentário. O vi num cineclube na Praça Roosevelt, acho que em 1987. A ascensão do bolsonarismo me fez rever esse filme algumas vezes nos últimos anos.

A tortura é um dos temas de “Brazil, o Filme”. Essa prática desumana era, é e continuará sendo uma coisa asquerosa e repulsiva. Confesso que fiquei extremamente surpreso e triste ao saber que o diretor inglês passou a adotar uma retórica racista.

No Cineclube do Bixiga, em 1987 ou 1988, vi o filme “Rosa Luxemburgo”. Fomos em três ou quatro amigos. Aquele que se dizia seguidor dos ideais da escritora polonesa comunista dormiu durante toda a projeção. Ele ficou irritado quando começou a ser cobrado por causa da impostura ideológica.

Em 1985 ou 1986 o filme “Je vous salue, Marie”, de Jean-Luc Godard, foi censurado no Brasil. Na época uma pequena rebelião cultural foi organizada. Cópias ilegais do filme circularam por todo país e exibições clandestinas foram organizadas em cineclubes, residências, universidades e bares. 

Em Osasco SP, cidade em que eu moro, uma exibição clandestina desse filme foi organizada por militantes de esquerda num bar que existia na Vila Campesina. Fui ver “Je vous salue, Marie” com colegas da Faculdade de Direito, pois era rebelde e politicamente engajado na luta contra a censura e a favor da redemocratização do país. A decepção foi grande.

Achei esse filme tão chato que cochilei durante quase toda a projeção. Os peitos grandes e belos da atriz que interpretava o papel principal são as únicas coisas que considerei relevantes naquela obra do Godard. Revi esse filme há alguns anos e confirmei minha primeira impressão: “Je vous salue, Marie” é pretensioso, esteticamente irrelevante e muito, muito, muito chato. Um verdadeiro sonífero francês.

Ainda hoje não consigo entender porque “Je vous salue, Marie” provocou tanta ira da Igreja naquela época. Se não tivesse sido proibido no Brasil esse filme provavelmente teria provocado apenas uma epidemia de sono nos cinemas.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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1 Comentário
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  1. Antonio Uchoa Neto

    14 de setembro de 2022 9:58 am

    Lamentável desencontro entre dois inimigos do fascismo, do fundamentalismo religioso, e da mediocridade e estupidez humanas em geral.

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