Marcelo Beraba, jornalista que influenciou gerações de repórteres ao moldar e comandar grandes redações em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília ao longo de quase 50 anos de carreira, morreu nesta segunda-feira, 28 de julho, aos 74 anos, no Rio. A causa da morte foi câncer no cérebro.
Beraba foi o idealizador e fundador da Abraji, associação responsável pela organização dos maiores congressos de jornalismo do hemisfério sul. Segundo Rosental Calmon Alves, diretor do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, “sem Beraba não haveria Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Sem Beraba, a Abraji não teria crescido e se consolidado como uma das maiores organizações de jornalismo investigativo do mundo, indo muito além do que seus fundadores imaginavam naquele dezembro de 2002”.
Ao longo de sua trajetória, Beraba tornou-se uma referência ética e profissional em grandes redações brasileiras, como as de O Globo, Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil, TV Globo e O Estado de S.Paulo. Ele dedicou sua carreira a formar equipes, identificar e treinar talentos, e a implementar as melhores práticas jornalísticas. Almejava melhorar a qualidade do jornalismo no Brasil, e conseguiu.
Sua influência se estendeu também ao jornalismo latino-americano, como destaca Ricardo Uceda, diretor do Instituto Prensa y Sociedad (Peru): “Ele foi um dos fundadores da Conferência Latino-Americana de Jornalismo Investigativo (COLPIN) e do seu Prêmio Latino-Americano, no qual atuou como jurado por mais de dez anos. Seu papel foi decisivo na (consolidação da) relação entre jornalistas brasileiros e latino-americanos, inexistente até duas décadas atrás.”
Beraba era um defensor incondicional da liberdade de imprensa e um incansável promotor do jornalismo investigativo como ferramenta essencial para o fortalecimento da democracia. Acreditava que não se faz bom jornalismo sem bons jornalistas, daí ter incentivado cursos de treinamento de jornalistas nas redações que chefiou e como presidente da Abraji. Sua visão de um jornalismo crítico e investigativo pautou sua atuação em todos os veículos por onde passou. E se difundiu ainda mais através da Abraji.
Beraba era um editor que gostava de reportagem e de bons repórteres. “Já fui editor, fechei Primeira Página…, mas o que me deu mais prazer, deu mais motivação, foi trabalhar com produção de reportagens, com repórteres, fazer planejamento, a pauta”. O jornalismo representou para ele uma vocação, uma forma de expressar sua criatividade e de contribuir para a sociedade.
Ao longo de sua trajetória, Beraba se dedicou a produzir reportagens de qualidade, a investigar os fatos a fundo e a defender os interesses do leitor. Ele sempre valorizou a ética, a imparcialidade e a transparência no jornalismo, buscando garantir que a informação chegue ao público de forma clara, precisa e completa.
Infância e vida no seminário
Marcelo José Beraba nasceu no Rio de Janeiro em 29 de abril de 1951. Filho do comerciante Elomir Beraba e da dona de casa Maria Ester Martins Beraba, sua família não tinha envolvimento direto com o jornalismo, mas a leitura de jornais era incentivada em casa, no bairro do Rio Comprido. Seu Elomir gostava de livros. Tinha uma biblioteca com grandes autores da literatura brasileira. E era assinante do jornal O Globo. Desde cedo Beraba gostava de ler. Além do Globo, lia o Jornal dos Sports e histórias em quadrinhos.
Beraba estudou no Colégio Santo Inácio, tradicional escola jesuíta em Botafogo, na Zona Sul do Rio. Por pouco, o jornalismo não perdeu Beraba para a Igreja. Ele passou quase quatro anos em um seminário, primeiro em Vila Velha, no Espírito Santo, e depois em Mendes, no interior do Rio de Janeiro. No seminário, foram anos de intensa atividade literária, com acesso aos clássicos brasileiros e franceses, além de ser incentivado a escrever. A vida de padre acabou não vingando e, lá no seminário, surgiu seu interesse em se tornar jornalista.
No final de 1970, ele voltou ao Rio decidido: prestou um único vestibular, apenas o da Escola de Comunicação da UFRJ. E ficou em primeiro lugar na lista dos aprovados.
Em uma entrevista dada ao projeto Memória da TV Globo, Beraba descreveu seu período na UFRJ, cursado nos primeiros anos da ditadura militar, como um “período fortíssimo de repressão, de prisão de professores e expulsão de alunos”. Embora sua turma não tenha vivido diretamente a repressão, sofreu as consequências dela.
Naqueles anos de chumbo, o jornalismo acabou não sendo o assunto que mais se estudava na ECO. “A gente tinha pouca aula de jornalismo mesmo. Era muito mais atividade política, discussão”. Ele cita alguns exemplos contrastantes de professores: “telecomunicação era um coronel que ia dar – como se liga rádio, como é que é uma válvula”, enquanto outros professores “eram libertários que davam Hegel, Heidegger, Foucault, Althusser e poesia”. Dentre os que o influenciaram no jornalismo prático, ele destaca “Nilson Lage, que foi um orientador de todos nós”.
Início da carreira em O Globo
Em fevereiro de 1971, antes mesmo do início das aulas na faculdade, Marcelo Beraba conseguiu seu primeiro emprego como aprendiz de repórter, no jornal O Globo. Sua iniciação teve a ajuda de um vizinho do prédio onde morava, Péricles de Barros, que trabalhava em eventos do jornal. Ele indicou-o para o chefe de reportagem, Pery Cotta, que contratou Beraba de imediato. O “foca” (jargão jornalístico para novatos) voltou para casa animado e pediu aos pais que lhe comprassem um terno para que ele pudesse dar os primeiros passos no jornalismo – carreira que abraçou até o fim da vida.
As faculdades de jornalismo eram novidade, e Beraba era um dos poucos na redação de O Globo que cursava a universidade – era comum jornalistas com dois ou mais empregos. Beraba logo começou a trabalhar na editoria de Cidade, acompanhando um repórter em uma matéria sobre cercas na avenida Rio Branco, cuja função era evitar atropelamentos.
Amigo de muitas décadas, o jornalista Marcelo Pontes conheceu Beraba nessa época, em O Globo. Eles viriam a ser companheiros mais tarde já como executivos de sucesso no Jornal do Brasil dos anos 1990. Daqueles tempos em O Globo, Pontes lembra de um grande furo do repórter Beraba, que conseguiu a fotografia do capitão terrorista ferido no atentado do Riocentro, em 1981.
Marcelo Pontes descreve Beraba como “o cidadão indignado com injustiças e tiranias, o repórter corajoso e o militante sindical que, nos anos de chumbo, fazia discursos em cima das mesas da redação”. Beraba afirmava que a investigação jornalística sobre o atentado terrorista no Riocentro foi exemplar e contribuiu para o fim da ditadura.
Outra grande amiga que Beraba conheceu em O Globo foi a jornalista Silvia Fiuza. Silvia, Pontes e Beraba formaram um trio que nunca mais se separou. Nos últimos anos, se encontravam para almoçar pelo menos uma vez por mês. Para Silvia, Beraba tinha a palavra do bom senso e uma capacidade de ler as situações sob diversos ângulos. Silvia lembra que Beraba sempre surpreendia com seu jeito irônico e conhecimento profundo sobre detalhes dos fatos do noticiário.
Os anos na Folha de São Paulo
Foi na Folha de S. Paulo que Beraba vivenciou a maior parte da sua carreira, em duas passagens importantes. A primeira delas durou doze anos. Nesse período, ele ajudou a Folha a se consagrar como o maior jornal do Brasil à época. Um sucesso editorial comandado por Otávio Frias Filho.
Beraba começou a trabalhar na Folha em 1984, convidado por Matinas Suzuki Jr., que dirigia a sucursal do Rio de Janeiro. Inicialmente como repórter, sua entrada coincidiu com a implementação do “Projeto Folha”. Na sucursal, conheceu a repórter Elvira Lobato, que viria se tornar sua esposa, mãe de uma de suas filhas, e com quem Beraba viveu até o fim da vida.
Em 1985, Beraba foi promovido a diretor da sucursal do Rio. Durante sua gestão, a sucursal produziu reportagens de grande impacto nacional, como a revelação de testes nucleares feitos pelo Ministério da Aeronáutica em plena selva amazônica, na Serra do Cachimbo.
Elvira foi quem descobriu a história. “Ele era meu chefe quando eu recebi uma informação em off sobre a construção do local de teste nuclear pelos militares na Serra do Cachimbo. Cheguei à redação e imediatamente lhe passei a informação. Ele me disse: ‘se você conseguir provar isso, vai ser sua consagração’, e me mandou desaparecer da redação para investigar o caso. Fiquei 15 dias sem aparecer na redação e voltei com a história que rendeu manchetes por um mês na Folha”.
Companheira de todas as horas, Elvira compartilha a paixão de Beraba pelo Jornalismo. Ela como repórter, ele como editor. “Como chefe, ele não gostava de apurar notícias. Dizia que sua função era outra e não iria competir com os repórteres”, conta Elvira. “Foi um grande jornalista, não só pela capacidade profissional, mas pelo comportamento ético, pela integridade. Ele tinha talento para identificar as qualidades de cada repórter e estimulá-las”.
Em 1988, Beraba foi convidado por Otávio Frias Filho a trocar a sucursal do Rio pelo comando da editoria de Cidades, e, logo depois, de Política, na sede do jornal, em São Paulo. Nesse período, Matinas Suzuki conta que Beraba “ensinou o jornal a estruturar e planejar grandes coberturas e formou uma geração de repórteres na imprensa paulista. Pautando, orientando, lembrando as perguntas que precisavam ser feitas numa cobertura, ele valia por uma escola inteira de jornalismo dentro da redação”.
Em 1989, o Brasil iria ter a sua primeira eleição direta para presidente depois da ditadura militar. A última vez que o Brasil tinha votado para presidente tinha sido em 1961, quando Jânio Quadros foi eleito. Beraba era o editor de Política da Folha e comandou a cobertura, que seria inédita para todos os jornalistas da equipe. Ninguém daquela geração havia participado de uma cobertura de eleição presidencial. Tudo era novo. “Não só nós. O país não tinha experiência, os candidatos não tinham experiência”, dizia Beraba..
Para um desafio tão grande, a Folha se baseou na experiência de cobertura em outros países, principalmente nos Estados Unidos. Cada candidato tinha dois repórteres “carrapato” acompanhando cada passo. E foi assim que a Folha foi o único veículo a revelar casos de corrupção que envolviam Fernando Collor, então líder nas pesquisas e mais tarde eleito presidente. “A Folha consegue revelar contratos secretos com usineiros. Ele tinha feito acordos lesivos ao estado de Alagoas. A gente revela já na campanha o Paulo César Farias”. Beraba se orgulha de ter sido a Folha a primeira a chamar a atenção para o lado B do candidato que era chamado na imprensa de “Caçador de Marajás”.
“Ficou uma imagem de que a imprensa foi muito omissa nessa eleição de 1989, que ela não apresentou para a sociedade quem era de fato o Collor. Em geral, tem razão, mas em relação à Folha de S. Paulo, é uma crítica injusta”. Nesta primeira passagem pela Folha, Beraba tornou-se um dos principais executivos do jornalismo, chegando a secretário de Redação. Em 1996, Beraba trocou a Folha pelo Jornal do Brasil, onde ficou até 1999. Após o JB, Beraba foi editor-executivo do Jornal da Globo, na TV Globo, por um breve período.
Ainda em 1999, ele voltou para a Folha, novamente como diretor da Sucursal do Rio. Em 2004, Frias Filho convidou-o para se tornar ombudsman, em São Paulo – um dos postos mais importantes do jornal, que é dos raros no continente a manter um funcionário pago para ser o representante do leitor junto à redação.
Sobre aqueles anos, Beraba dizia que o ombudsman deve ter “um olhar distanciado do jornal”, e “ler o jornal com o olhar do leitor”, defendendo que “não interessa se eu estou entendendo ou não porque o jornal está cometendo esse erro. Interessa o seguinte: é um erro grave e isso prejudica o leitor e prejudica a credibilidade do jornal”.
Passagem pelo Jornal do Brasil
No meio das suas duas passagens pela Folha — entre 1996 e 1999 — Beraba trocou a alameda Barão de Limeira, em São Paulo, pela avenida Brasil, 500, no Rio. Hoje um hospital, ali foi o endereço do Jornal do Brasil. Beraba foi convidado para o JB pelo antigo colega de O Globo, Marcelo Pontes, então editor-chefe do jornal. Assumiu o cargo de editor-executivo. Sua chegada ao JB causou um impacto significativo na redação, que o via como uma figura experiente e com um estilo de trabalho mais sóbrio. No comando, além de Pontes e Beraba estavam os jornalistas Orivaldo Perin e Paulo Totti.
A passagem pelo JB é lembrada pelos colegas como um período de valorização do jornalismo investigativo e da importância do repórter como protagonista da redação. Na época, o jovem repórter Marcelo Moreira teve a oportunidade de trabalhar com Beraba, e descreve sua experiência como transformadora.
Segundo Moreira, Beraba o chamou para iniciar uma apuração sobre a máfia dos ônibus, que dominava o transporte no Rio de Janeiro naqueles anos 1990. Essa apuração resultou em uma das maiores reportagens investigativas da carreira de Moreira, “O Cartel dos Ônibus“. A reportagem foi premiada e marcou uma virada na carreira de Moreira, que passou a se dedicar a reportagens especiais sob a orientação de Beraba.
Em 1998 a Seleção Brasileira tentava na França o seu pentacampeonato na Copa do Mundo da Fifa. Beraba liderou a cobertura na França. Em uma redação improvisada — um salão de um hotel na pequena cidade de Bussy Saint Georges, a 40 quilômetros de Paris — trabalhava uma equipe de repórteres que inovou tanto em tecnologia quanto no formato. O JB tinha craques como Luiz Fernando Veríssimo, Artur Xexeo, Paulo César Vasconcelos, Evandro Teixeira e o veterano de Copas Oldemário Touguinhó. Tinha também estreantes. Beraba nomeou o repórter Marcelo Moreira como “carrapato” de Ronaldo Fenômeno, a grande estrela da Copa. Pautado por Beraba, Moreira foi o único jornalista a entrar na casa que Ronaldo alugou para a família na França e mostrou como era a intimidade do craque.
No comando do Estadão
No final dos anos 2000, Beraba atendeu convite do então diretor de Redação de O Estado de S.Paulo, Ricardo Gandour, e trocou a Folha pelo maior concorrente. Tornou-se editor-executivo, o segundo em comando. Completou, assim, uma quádrupla coroa: comandar as redações dos quatro jornais que, a seu tempo, foram líderes da imprensa nacional – fato raro, senão inédito no jornalismo brasileiro.
No Estado, entre 2008 e 2019, Beraba aplicou o método e o planejamento, seus conceitos fundamentais para comandar redações. Organizou e planejou a cobertura da eleição presidencial de 2010. Montou uma equipe com jornalistas especializados em pesquisas e uso de dados. Depois, topou um novo desafio e foi comandar a sucursal do Estado em Brasília, uma missão difícil e sensível em época de turbulência política no país.
Criação da Abraji
Em junho de 2002, o assassinato do jornalista Tim Lopes, morto por traficantes enquanto fazia uma reportagem investigativa na favela da Vila Cruzeiro, no Rio, foi um dos momentos mais traumáticos na história do jornalismo brasileiro. Tim Lopes era repórter especial da TV Globo e um dos mais respeitados jornalistas do país. O choque causado pela morte do Tim fez com que Beraba liderasse um grupo de colegas de diferentes redações que começaram a se reunir com o objetivo de formar uma associação de jornalistas que pudesse ser uma ferramenta de defesa da liberdade de imprensa, de expressão e da formação de melhores jornalistas investigativos.
Em um destes primeiros encontros, na sede do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, nascia o embrião do que mais tarde seria a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, a Abraji. Depois daquela reunião, Beraba enviou um e-mail a 45 jornalistas. Ele falava da necessidade e da importância de se criar uma associação. Conversou pessoalmente com muitos deles, para convencê-los a abraçarem a iniciativa.
A Abraji foi fundada ainda naquele ano e Beraba foi o seu primeiro presidente. O jornalista Rosental Calmon Alves destaca a importância de Beraba na criação e consolidação da Abraji: “Uma das maiores dificuldades na criação de organizações similares na América Latina foi a falta de um Beraba em cada país. Líderes como ele são raros na criação, no desenvolvimento e na estabilização de associações de jornalistas. Seu estilo de liderança, baseado sobretudo no diálogo sincero, na transparência, na paciência para escutar e na habilidade de encontrar pontos comuns e conciliação no meio de divergências que pareciam irreconciliáveis”.
Na Abraji, Beraba definiu as prioridades da associação com um tripé: qualificação do jornalismo via promoção de cursos para milhares de jornalistas, direito à liberdade de informação (que resultou na Lei de Acesso à Informação) e defesa da segurança dos jornalistas no exercício da profissão.
Legado para gerações futuras
O legado de Marcelo Beraba para as futuras gerações de jornalistas é marcado por sua paixão pelo jornalismo, sua dedicação à apuração dos fatos e seu compromisso com a ética e a qualidade da informação. Américo Martins, que trabalhou com Beraba na Folha, afirma que ele “Mudou a minha vida. Foi um mestre para mim”. Beraba sempre incentivou os jovens jornalistas a se aprofundarem em seus conhecimentos, a dominarem as técnicas de investigação e a buscarem a verdade com rigor e imparcialidade.
Para Beraba, alguns dos fundamentos do jornalismo incluem pesquisar, obter e dominar conhecimento, “porque você tem um leitor, um telespectador cada vez mais exigente”. Ele também enfatiza a importância da observação e critica o jornalismo “de aspas”, declaratório. Em sua visão, “um desvio do nosso jornalismo, exatamente por não ter muita observação de nada, foi se tornar um jornalismo ‘de aspas’, declaratório”.
Ao longo da vida Beraba era chamado pelos amigos de “mestre”. Era desse jeito que ele costumava chamar os colegas para uma conversa. O que começou como um vício de linguagem, tornou-se uma marca pessoal, refletindo a maestria com que apostava em novos talentos e estimulava reportagens investigativas.
Marcelo Pontes relata que uma das grandes características de Beraba era seu próprio aperfeiçoamento profissional e a obsessão por tentar sempre melhorar a qualidade do jornalismo.
Ao compartilhar suas experiências e seus conhecimentos, ele contribui para a formação de novas gerações de jornalistas comprometidos com a excelência e com a defesa da liberdade de imprensa.
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Depoimentos sobre Marcelo Beraba
Rosental Calmon Alves (diretor do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas):
Sem Beraba não haveria Abraji. Sem Beraba, a Abraji não teria crescido e se consolidado como uma das maiores organizações de jornalismo investigativo do mundo, indo muito além do que seus fundadores imaginavam naquele dezembro de 2002. Uma das maiores dificuldades na criação de organizações similares na América Latina foi a falta de um Beraba em cada país. Líderes como ele são raros na criação, no desenvolvimento e na estabilização de associações de jornalistas. Seu estilo de liderança, baseado sobretudo no diálogo sincero, na transparência, na paciência para escutar e na habilidade de encontrar pontos comuns e conciliação no meio de divergências que pareciam irreconciliáveis. Eu já tinha ouvido falar das habilidades do Beraba, e tinha ajudado a convencê-lo a me substituir como editor executivo no Jornal do Brasil.
Ricardo Uceda (diretor do IPYS – Instituto Prensa y Sociedad – Peru):
O falecimento de Marcelo Beraba é profundamente triste para o IPYS e para a comunidade da Conferência Latino-Americana de Jornalismo Investigativo (COLPIN). Ele foi um dos fundadores da COLPIN e do Prêmio Latino-Americano, onde atuou como jurado por mais de dez anos. Seu papel foi decisivo na relação entre jornalistas brasileiros e latino-americanos, inexistente há duas décadas. Considerando sua importância na fundação da ABRAJI e sua liderança internacional como defensor do leitor, perdemos uma figura fundamental. Um dos nossos pais. O IPYS perdeu um amigo e colaborador excepcional. Além de tudo isso, Marcelo sempre representou para nós uma referência de valores jornalísticos. Ele foi um paradigma do jornalista íntegro. Embora sua ausência deixe um enorme vazio, seu exemplo e a memória de sua generosidade serão inesquecíveis.
Nestes dias de extrema tristeza, quero expressar meu mais profundo respeito e gratidão a Marcelo Beraba, um pilar do jornalismo brasileiro cuja carreira moldou gerações de colegas. Sua integridade inabalável, sua honestidade intransigente e seu compromisso com a verdade o tornaram uma referência ética e profissional em tempos em que nem sempre foi fácil defender princípios. Das redações que ajudou a construir às organizações que liderou, Beraba tem sido um defensor apaixonado da liberdade de imprensa e um incansável promotor do jornalismo investigativo como ferramenta essencial para o fortalecimento da democracia.
Matinas Suzuki Jr. (jornalista, diretor da editora Casa Matinas):
Há uma lenda guardada pelas velhas pastilhas que coloriam o prédio da Folha de S.Paulo que diz que, recém chegado à capital paulista, Marcelo Beraba teria pautado uma cobertura em “Itacuera” — e não em Itaquera. Era uma brincadeira com a dificuldade que ele teve, vindo para a imprensa em São Paulo, com os nomes dos locais em tupi-guarani tão comuns na grande metrópole. Marcelo Beraba foi um “chef” que deu consistência à cozinha jornalística da Folha. Ele ensinou o jornal a estruturar e planejar grandes coberturas e formou uma geração de repórteres na imprensa paulista. Pautando, orientando, lembrando as perguntas que precisavam ser feitas numa cobertura, ele valia por uma escola inteira de jornalismo dentro da redação.
Ricardo Gandour (jornalista, ex-diretor de Redação do Estadão):
“Mestre”, era assim que Beraba se referia a quem se aproximava para um papo, um despacho corriqueiro, ou mesmo para ouvir uma das cobranças sempre muito firmes que costumava fazer quando uma pauta não tinha andado bem ou o retorno não chegara com a devida clareza.
Ouvi essa saudação pela primeira vez no final de uma manhã qualquer em 1991, na redação da Folha, em São Paulo. Como de hábito, ele saíra da reunião matinal que, como secretário de Redação de Produção, fazia questão de comandar pessoalmente. Ele caminhava em direção à bancada da Primeira Página, voz de timbre grave, passos curtos e rápidos, camisa social e gravata, às vezes um paletó, corpo levemente arcado à frente, a conferir, por cima da barba e dos óculos de lentes espessas e armação fina, quais editores já estavam à frente de suas equipes. Tempos depois, enxerguei que essa saudação embutia um teor convocatório: ao chamar o subordinado de “mestre”, ele tentava empoderá-lo, como se dissesse “seja o comandante dessa missão”.
Missão era outro conceito central de sua permanente abordagem, ao lado de outro, Planejamento. Valorizava os simples registros diários, mas era fascinado por armar em detalhe as grandes empreitadas, as disputadas pautas especiais que iriam render dois “abres” de página, às vezes um caderno especial e, invariavelmente, um crédito na Primeira Página. Estendia essa dedicação aos processos internos, como o controle de erros, as revisões do manual da redação e o processo de avaliação de jornalistas.
Mestre era ele, sempre foi. Tempos depois, no final dos anos 2000, voltamos a trabalhar juntos no Estadão, numa dessas inversões hierárquicas tão comuns no jornalismo. Continuou sendo o meu Mestre. E ficou ainda mais claro que à missão como espírito de trabalho e à obsessão por planejamento se somava a paixão pelo Método, essa disciplina que caracteriza e diferencia a verdadeira prática jornalística.
Ele foi precursor, praticante e disseminador de tudo isso. Seguiu o Método até o fim: quando de sua enfermidade, recolheu-se em discrição, como a praticar o mandamento “jornalista não é notícia”.
Marcelo Beraba. Berabinha, para alguns íntimos. Mestre.
Carlos Lauria (diretor-executivo da Sociedade Interamericana de Imprensa – SIP):
Além de seu brilhante legado profissional, aqueles de nós que tivemos o privilégio de compartilhar sua amizade lembram-se acima de tudo de suas qualidades humanas: sua franqueza, seu senso de humor, sua generosidade na formação e mentoria de jovens jornalistas e sua profunda sensibilidade. Marcelo nunca hesitou em se manifestar quando outros permaneceram em silêncio e sempre defendeu um jornalismo comprometido, rigoroso e corajoso. Ele deixa um vazio, mas seu exemplo continuará a iluminar o caminho para aqueles que acreditam que o bom jornalismo é, acima de tudo, um ato de serviço público.
Sérgio Dávila (diretor de Redação da Folha de S.Paulo):
Marcelo Beraba tinha o costume de chamar a todos os colegas de Redação de “mestre”, mas era ele o professor de jornalismo, que ensinou a mais de uma geração princípios de ética, profissionalismo e precisão. Fará falta imensa.
Andrés Alessandro (FOPEA, irmã da Abraji na Argentina):
Marcelo Beraba tem sido uma verdadeira referência para o jornalismo latino-americano e contribuiu muito para todos os jornalistas da Argentina com seu conhecimento e generosidade. Nos primeiros dias da Fopea, quando eu era diretor executivo, Marcelo participava das conferências e sempre se esforçava ao máximo para oferecer sua perspectiva especializada e profissional. Por favor, transmita meus cumprimentos e minha infinita gratidão.
Daniel Santoro (repórter especial de Clarín, Argentina):
Marcelo Beraba, além de um grande jornalista, é um amigo. Cada vez que o chamávamos do Fórum Argentino de Jornalismo (FOPEA), ele vinha à Argentina para compartilhar sua experiência conosco de forma altruísta. Ele respondia a todos os convites para congressos, conferências ou consultas, apesar do esforço ou de outros compromissos. E no meu caso particular, quando a ex-presidente Cristina Kirchner tentou me prender, acusando-me falsamente de espionagem e extorsão, Marcelo me ligou e assinou todos os pedidos em meu favor, que, na realidade, eram em apoio ao jornalismo independente, crítico e investigativo, a chama que move seu espírito.
Juca Kfouri (jornalista):
Marcelo Beraba entre tantas qualidades tinha a de ser firme e doce ao mesmo tempo.
Brilhava com perfil baixo e primava pelo bom senso.
Já faz muita falta.
Marcelo Pontes (jornalista):
O Marcelo Beraba dos nossos 52 anos de amizade fraternal, iniciados quando cheguei ao jornal O Globo em 1973, e ele já estava lá, reúne num só exemplo de vida o colega solidário e caridoso, o pai de família afetuoso, o cidadão indignado com injustiças e tiranias, o repórter corajoso que conseguiu no hospital a fotografia do capitão terrorista ferido no atentado do Riocentro, e o militante sindical que, nos anos de chumbo, fazia discursos em cima das mesas da redação (sim, o diretor Evandro Carlos de Andrade não reprimiu).
O que completava esse Beraba tão inquieto e desafiador era o foco em tudo o que fazia, tanto ao suar como zagueiro vigoroso a camisa do 3 de 13, time de futebol da redação, como ao se dedicar por toda a vida ao que acaba sendo um dos seus principais ensinamentos: o seu próprio aperfeiçoamento como profissional e a obsessão por tentar sempre melhorar a qualidade do jornalismo.
Descontente com a rotina em que apenas pesquisava, entrevistava e escrevia, Beraba tomou como exemplo, lá atrás, o Caso Watergate e, a partir daí, algumas boasreportagens de várias épocas, inclusive durante a ditadura,para sistematizar o seu aprendizado numa receita bem simples, que hoje deveria ser o básico do jornalismo sérioem qualquer tipo de mídia: o bom repórter precisa também ser um bom observador. Tem que sair da redação, ir para a rua, usar a sensibilidade, olhar ao redor, observar o ambiente, saber ver, ouvir, entender e transmitir. Com origor de quem testemunha, com a precisão de quem sabe contar uma história verdadeira com todos os detalhes, mostrando o que está vendo, não o que gostaria de ver. Sem esquecer jamais da ética, e sem deixar que a própriabagagem, a experiência, a vaidade e o preconceitoescondam o que as pessoas precisam saber. Isso dá credibilidade ao jornalista e ao veículo em que trabalha. A descoberta do repórter Beraba é o seu maior legado também como gestor de grandes equipes nos principais jornais do país. Sinto uma dor enorme, mas tenho muito orgulho de ter convivido e aprendido com um amigo e profissional que fez tanto bem ao jornalismo e à democracia.
Silvia Fiuza (jornalista):
Marcelo Beraba, amigo de tantos momentos, essa não tínhamos combinado. Foi no final dos anos 1970 que nos conhecemos: primeiro na política, depois , no jornal O Globo. Ficamos amigos. Acompanhamos muitos momentos da vida de cada um. Formamos um trio, junto com o Marcelo Pontes, e almoçávamos ao menos uma vez por mês. Eram almoços sagrados, sempre acompanhados por um bom vinho escolhido pelo Beraba. Mesmo durante a pandemia de Covid, fazíamos teste, usávamos máscara, ficávamos a um metro de distância, mas nosso almoço era mantido. Beraba sempre tinha a palavra do bom senso, uma capacidade de ler as situações sob diversos ângulos. Surpreendia com comentários irônicos e com um conhecimento espantoso sobre os detalhes dos fatos. Era um repórter na essência. Gostava de apurar, investigar, entrevistar, ler, pesquisar, descrever, escrever e descobrir um jeito diferente de contar a história. Amava o Rio de Janeiro, ainda que tenha passado longos períodos morando em São Paulo e Brasília. Recentemente, li algumas matérias que ele fez nos anos 1970/1980. Fiquei impressionada com a percepção do Beraba em abordar temas que ainda não ganhavam destaque nas páginas: a destruição do meio ambiente, os movimentos sociais no campo, as culturas das favelas e periferias, as dificuldades financeiras na velhice, os direitos dos povos indígenas. E sempre abordava o tema com sensibilidade e um olhar acurado. Estava empenhado em escrever um livro sobre os cursos que deu sobre jornalismo. Cheguei a ler um capítulo e comentamos. Estava entusiasmado com o projeto. Aliás, o Beraba era entusiasmado pela vida. Foi com entusiasmo que construiu uma brilhante carreira na imprensa, era com entusiamo que contava uma viagem com sua linda família, ficava entusiasmado com os nossos almoços mensais. Beraba tinha uma gentileza que emocionava. Bastava estar com um problema que ele tentava ajudar a encontrar uma solução. Era determinado. Quando tinha um objetivo, não media esforços. Até um mês atrás fazíamos nosso treino na academia e ele não parava, sempre focado nos exercícios. Estava decidido a enfrentar qualquer dificuldade que viesse pela frente. Chegamos a combinar novo almoço assim que ele melhorasse. Não deu tempo. Ele se foi. Deixa um vazio imenso para a família e tantos amigos que cultivou. Muita saudade e a memória carinhosa do amigo que gostava de ser amigo.
Angelina Nunes (jornalista e primeira mulher a presidir a Abraji):
Mestre Beraba sempre esteve preocupado com a proteção e segurança dos jornalistas e comunicadores. Em julho de 2017, ele e o Thiago Herdy, então presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), me convidaram para coordenar o Programa Tim Lopes. A ideia de Beraba foi gestada durante um par de anos antes de conseguir suporte financeiro para sair do papel.
Estar atento às ameaças em todo país, os perigos físicos e virtuais, tudo isso nos afligia e nos deixava em alerta. Não queríamos contar os mortos, queríamos mostrar os sucessivos ataques à democracia. Queríamos denunciar e mudar essa realidade. E fomos percorrendo o Brasil para investigar os casos, ouvir coleguinhas e tentar mapear o que estava acontecendo.
No programa fizemos investigações, transformamos esse material em texto, foto, vídeo e até um mini documentário mostrando os riscos de se fazer jornalismo na tríplice fronteira Brasil, Uruguai e Paraguai. Durante a pandemia, convidei Beraba para ser entrevistado na live do Programa Tim Lopes. E ele me disse que nem tinha perfil no Instagram. Combinamos que ele fizesse um e depois, se fosse o caso, ele poderia desativá-lo, o que não aconteceu.
Ele fez 56 postagens. Coisas pessoais, reuniões com amigos, as rodas de samba nos seus aniversários, análises do jornalismo, as lives das quais participava e uma selfie em 2 de junho de 2020. O último post foi em 1 de maio de 2024, ao lembrar a missa de sétimo dia do amigo Paulo Totti, jornalista e um dos homenageados da Abraji.
O mestre navegou no mundo digital em outras entrevistas. Também participou da primeira temporada do podcast ‘Jornalismo sem Trégua”, sobre o caso Tim Lopes e a criação da Abraji.
Apesar de trafegar no mundo virtual, Marcelo Beraba gostava mesmo era da vida real. Do olho no olho, de receber amigos no Natal ou no Ano Novo e rir com gosto das piadas e casos interessantes. Comigo, ele sempre brincava “lá vem Angel com as selfies dela”. E posava na maior alegria.
Foi através dele que eu concorri à presidência da Abraji (2008-2009). Quase não aceitei o convite. Tinha perdido minha mãe em dezembro e estava arrasada. Ele entendeu e disse para eu pensar no assunto ao longo do ano seguinte, 2007, quando haveria a eleição. Caminhamos juntos naquele biênio. Também estávamos lado a lado na homenagem que recebemos em 2022, nos 20 anos da associação.
Taurino de coração aberto, bom de garfo, de risadas, de análises precisas em política e jornalismo. E acima de tudo, extremamente generoso. Mestre Beraba é um amigo que deixa um legado precioso.
Fernando Rodrigues (jornalista e ex-presidente da Abraji):
Marcelo Beraba deve sempre ser lembrado como exemplo pelos conceitos escorreitos e objetivos que defendeu para esta que é a mais linda das profissões.
Foi um dos chefes mais organizados com quem tive o privilégio de conviver na carreira de jornalista.
Tenho muitas histórias pessoais de apurações e investigações que fiz incentivado e comandado por Beraba. Não mencionarei agora nenhuma dessas pautas. Prefiro me concentrar nele, um dos grandes nomes do jornalismo brasileiro.
Generoso, Beraba ajudava a definir meticulosamente como as pautas poderiam e deveriam ser executadas. Sugeria fontes. Dava os números de telefones. Facilitava a vida do repórter. Falava sobre a importância de definir prazos. E de cumprir prazos. Era implacável na cobrança. Em coberturas especiais, era um planejador inigualável ao distribuir tarefas e pautas a todos os envolvidos.
Sou muito grato a ele por ter me ensinado como me organizar para trabalhar de maneira correta no jornalismo.
Um dia há muito anos Beraba me mandou um e-mail e também para vários colegas jornalistas. Guardei a mensagem. Era um e-mail no qual ele propunha a criação de uma nova organização de jornalismo, logo depois de nosso colega Tim Lopes ter sido assassinado pelo tráfico, no Rio. Aquele e-mail de Beraba foi o nascimento da Abraji, a mais respeitada organização de jornalistas no Brasil. Beraba foi seu idealizador maior. Os milhares de jornalistas que já foram e que ainda irão aos congressos da Abraji serão para sempre devedores de Beraba. Sem ele e sem sua obstinação pela montagem da organização, a Abraji não teria sido criada.
Ao longo dos anos, Beraba e vários outros jornalistas que fundaram a associação nos afastamos do comando da Abraji. Lembro de maneira muito vívida como desde o início defendíamos a troca regular da diretoria, com o veto à reeleição de presidentes. Assim foi. Essa é uma das forças motrizes da Abraji: a renovação constante e o respeito pelas novas gerações que chegam e que, do seu modo, tocam a entidade. A índole tolerante e apaziguadora de Beraba é uma linda mensagem para o jornalismo e para a vida: respeitar e dialogar com quem pensa diferente de você.
Beraba foi um grande incentivador de gerações de jornalistas. Mostrava que ser bem-sucedido nessa profissão não tem nada a ver com algo inato. O bom jornalismo não é um dom divino. A praticidade e infinita capacidade organizacional de Beraba deixava claro que os apaixonados pelo jornalismo poderiam ter muito sucesso com planejamento, com organização e com disciplina. Que seus ensinamentos prosperem cada vez mais para que o jornalismo profissional seja crítico, apartidário, obcecado pela busca da objetividade e da imparcialidade, tendo como norte a apuração da verdade dos fatos.
Marcelo Moreira (jornalista e ex-presidente da Abraji):
Beraba pra mim é como se fosse um pai no Jornalismo. Quando chegou ao Jornal do Brasil, em 1996, eu e toda a redação ficamos meio assustados. Ele tinha fama de durão e trazia uma cultura que ele mesmo tinha ajudado a implementar nos doze anos que passou pela Folha de São Paulo. Era carioca, mas o jeitão sério de trabalhar não combinava muito com a redação descontraída do JB naqueles anos 90.
Eu era repórter da editoria de Cidade ainda começando a fazer minhas primeiras matérias, quase sempre assuntos factuais sem grande destaque. Beraba vinha com uma história de grandes reportagens na Folha. Tinha coordenado coberturas como as Diretas-Já, eleição do Collor, Impeachment entre outras.
No JB ele não iria fazer por menos. Era uma oportunidade e ao mesmo tempo dava medo pra mim que estava começano. Um dia o Bruno Thys, editor de Cidade me disse que o Beraba queria falar comigo sobre uma pauta. Eu gelei!! Entrar no aquário de um editor-executivo não era muito o meu perfil.
Entrei na sala e ele me pediu para começar uma apuração sobre a máfia dos ônibus, que dominava o transporte no Rio de Janeiro naqueles anos 90. Era até então a maior missão que eu tinha recebido como repórter. Sem tempo para entregar. “Apura tudo que puder. Quero saber como eles atuam em todas as esferas: executivo, legislativo, Judiciário, tudo. Não se preocupa com o tempo”, disse ele.
Seis meses e muitos encontros na sala dele depois, nascia uma das maiores reportagens investigativas da minha vida: “O Cartel dos ônibus”, assinada em parceria com meu amigo e colega Renato Fagundes. A reportagem desencadeou uma série de desdobramentos. Uma investigação no Ministério da Justiça, um redesenho da forma como o poder público operava o sistema estavam entre as maiores. Até hoje, quando se fala do domínio das empresas de ônibus no Rio, nomes que foram relevados pela primeira vez com detalhes de seu poderio pelo JB ainda são lembrados.
Aquela matéria seria a minha virada de carreira para um repórter especial e minha carreira no jornalismo nunca mais seria a mesma. Depois dos ônibus o Beraba voltaria a me chamar outras vezes. “Moreirão, tenho uma pauta pra você”. E já sem medo lá ia eu mergulhar em tantas outras pautas que vieram. “Metrô mais caro da Terra”, especial Baía de Guanabara, cobertura da Copa do Mundo da França, conflitos da PM no Ceará, e muitas outras.
Beraba saiu do JB em 1998 e eu me senti órfão na redação. O jornalista que acreditava nas grandes matérias. Que fazia do repórter um protagonista da história. Ele não estava mais ali. A gente nunca mais trabalhou na mesma redação, mas ficamos mais próximos do que antes.
Em 2002, eu já estava na Globo quando o jornalista Tim Lopes foi assassinado em uma favela na Vila Cruzeiro, zona da Leopoldina do Rio. Beraba tinha voltado pra Folha e me chamou para fazer parte de um grupo de jornalistas que mais tarde criaria a Associaçao Brasileira de Jornalismo Investigativo, a Abraji.
Da morte de um colega nasceu o maior legado que Berabapoderia ter deixado para gerações futuras. Uma associação que se preocupava com a formação, a proteção da liberdade de expressão e na criação de ferramentas que tornassem mais preciso o trabalho do repórter. Mais tarde, a convite do Beraba eu viria presidir a Abraji. E foram anos difíceis, das manifestações nas ruas de 2013. Criamos um observatório que monitorou os ataques. No fim do ano a Abraji foi reconhecida pelo jornal O Globo com o prêmio Faz Diferença, um dos meus maiores orgulhos.
Beraba fazia a diferença, eu que perdi meu pai biológico recentemente, sinto essa dor novamente da perda do meu pai no jornalismo. Os valores que aprendi com ele ficam pra sempre e tenho orgulho dos anos que vivemos juntos. Muitos ele chamava de “mestre” e esse era também um dos jeitos carinhosos que os colegas o chamavam. Pra mim, sempre foi mais que um mestre. Era um pai. Fica com Deus, Beraba.
José Roberto de Toledo (ex-presidente da Abraji, apresentador de A Hora e UOL Prime podcast):
Marcelo Beraba há muito tempo se convenceu de que jornalismo é melhor em equipe. Percebeu também que, para trabalhar como um time que joga unido, é preciso ter método: um conjunto de regras e princípios sobre os quais todos concordam e se baseiam para exercer suas funções. Agiu persistentemente para concretizar essa ideia. E conseguiu.
Beraba melhorou o jornalismo no Brasil.
Pelo que aprendi na convivência de quase quatro décadas, foi a isto que Beraba dedicou sua carreira: formar equipes, identificar e treinar talentos, implementar o método jornalístico na prática – nas melhores práticas.
Além de unir repórteres, editores e redatores em torno de um método comum em muitas das principais redações do Brasil (O Globo, Folha, Jornal do Brasil, TV Globo e Estadão), Beraba espalhou essa oportunidade para todo e qualquer jornalista ou estudante de jornalismo que queira enfrentar o desafio de trabalhar bem em conjunto.
Beraba foi o idealizador e fundador de uma associação de jornalistas criada para difundir as melhores práticas da reportagem e para compartilhar conhecimento, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo). Fez isso em 2002, quando a regra na profissão era concorrer, não cooperar. Poucos dividiam técnicas, fontes, dicas. A Abraji multiplicou esses poucos.
Cooperar e jogar junto pode parecer banal, óbvio. Mas, não raras vezes, redações de jornalismo operam como aquilo que o jargão do futebol chama de “catado”: cada um correndo para um lado e se embolando em campo para tentar não tomar gol (ou furo). Na era dos influenciadores antissociais, o risco do “jornalismo cada um por si” é crescente.
Por causa de seu trabalho permanente de formar equipes, implementar as melhores práticas de reportagem e difundir conhecimento, Beraba transformou minha carreira como jornalista pelo menos três vezes. Profundamente.
Em 1989, ao planejar a cobertura jornalística que a Folha faria daquela histórica eleição presidencial, Beraba criou equipes distintas. Entre elas, um time dedicado a reportar em profundidade os principais desafios que o primeiro presidente eleito após a ditadura militar no Brasil teria que enfrentar, e o que os presidenciáveis propunham sobre cada desafio. Ali, à sombra do maior repórter do país à época, Clóvis Rossi, e editado por Beraba, comecei a aprender a fazer reportagem de fato.
Em 2002, Beraba me convenceu a entrar para uma associação que ele estava criando. Era o que viria a ser a Abraji. Beraba queria que eu desse treinamentos de uma técnica que à época ainda engatinhava no Brasil, a Reportagem com Auxílio do Computador (RAC). Me dediquei por pelo menos uma década à missão dada por Beraba. Como eu, muitos outros a cumpriram: a Abraji treinou dezenas de milhares de jornalistas e estudantes no que hoje se chama jornalismo de dados.
Em 2009, Beraba me convidou para voltar à redação de um jornal. Deixei a empresa de conteúdo jornalístico que eu havia criado dez anos antes para aplicar o jornalismo de dados no Estadão. Virei colunista de política do jornal e criei, com incentivo de Ricardo Gandour, o Estadão Dados.
São três exemplos triviais na carreira de Beraba. Ele influenciou e moldou o jornalismo praticado por milhares de jornalistas. Na imensa maioria dos casos, para melhor. Não por acaso, o chamamos de “Mestre Beraba”. Agora e sempre.
Thiago Herdy (ex-presidente da Abraji, colunista e editor do núcleo de jornalismo investigativo do UOL)
A crença de Marcelo Beraba na capacidade do jornalismo de informar a sociedade de forma precisa, ética e responsável inspirou gerações e gerações de repórteres. Tanto aqueles que tiveram a sorte de conviver com ele em algum momento da vida, como aqueles que foram impactados por alguma iniciativa da Abraji nos últimos 20 anos.
Beraba não foi apenas fundador e presidente da principal entidade de defesa da profissionalização do jornalismo do país. Poucos sabem o quanto ele se dedicou a ela nos bastidores, o quanto lutou para que ela crescesse cada vez mais diversa e participativa.
É uma das pessoas mais generosas que conheci, amigo e orientador a quem dedico toda minha trajetória profissional.
Marcelo Träsel ( ex-presidente da Abraji e professor de Jornalismo):
Marcelo 1º, como gosto de chamar carinhosamente o Beraba, por ter sido o primeiro dos três presidentes chamados “Marcelo” ao longo das duas décadas de Abraji, poderia ilustrar o verbete “Jornalista” da enciclopédia. Transitava tão bem nos altos escalões do Estado de S. Paulo quanto entre jornalistas independentes na Amazônia. Só vim a conhecê-lo quando comecei a participar da diretoria da associação que, sem dúvida, era um de seus principais interesses na vida. Encontrei um colega sempre disposto a compartilhar sua vasta experiência e aconselhar os menos veteranos. Sou muito grato por ter tido a oportunidade de aprender com ele e pela dedicação que ele demonstrou ao aprimoramento do jornalismo no Brasil até o último momento.
Daniel Bramati (jornalista e ex-presidente da Abraji)
Querida, já mandei para o Toledo: No final de 2017, fui surpreendido pela notícia de que me candidataria à presidência da Abraji pouco tempo depois – o plano inicial era que eu concorresse como vice, mas motivos de força maior alteraram a composição da chapa. Confesso que fiquei um pouco desnorteado. Foi uma conversa direta e esclarecedora com Marcelo Beraba que me fez entender o desafio a encarar e a missão a cumprir.
Naquele dia, o Mestre me deu instruções precisas e rigorosas, como costumava fazer ao comandar grandes coberturas. Explicou as intenções dos fundadores, as conquistas e os objetivos ainda a atingir. Deixou claro que eu teria de me dedicar muito e que as exigências do cargo eram altas, mas também me tranquilizou ao dizer que os “cabeças brancas” estariam a postos para ajudar sempre que necessário. Não era só da boca pra fora: ele e outros veteranos de fato colaboraram em momentos chave, com conselhos, críticas e trabalho voluntário em cursos e nos congressos.
Entre as muitas boas coisas da Abraji, um destaque é a possibilidade de conviver com ídolos da profissão. Fui colega de Beraba na Folha e no Estadão, mas sem muita proximidade – ele vivia em São Paulo quando eu morava em Brasília e vice-versa. Em 1994, ele já era secretário de Redação da Folha quando eu era apenas um foca que diariamente tomava sol na cabeça em plantões na frente da casa de Fernando Henrique Cardoso, então presidente eleito. No Estadão, a partir de 2008, ele comandava a sucursal de Brasília enquanto eu, na sede do jornal, transitava pela Política, pelo Estadão Dados e pelo Estadão Verifica. Nessa época, os encontros eram raros, mas sempre marcados pela gentileza e pelos comentários certeiros sobre o trabalho e os rumos do país. Na Abraji, posso dizer que passamos a ser amigos. Guardo na memória os bons momentos, os sorrisos, os abraços e os ensinamentos. Valeu muito, Mestre.
Katia Brembatti, presidente da Abraji
A preocupação do Marcelo Beraba com os fundamentos do Jornalismo, com o rigor da apuração, sempre revelou o que ele representa: Uma pessoa fundante, fundamental, um alicerce.
Como impulsionador da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), ele deu as diretrizes que seguimos e seguiremos na organização.
Tivemos a satisfação de homenageá-lo várias vezes, principalmente quando a Abraji completou 20 anos, e também no congresso de 2025, mostrando claramente nossa reverência ao que ele significa para a Abraji e para o jornalismo.
Beraba fará falta, mas estará sempre presente a partir das marcas evidentes que deixou em nossas vidas. Para mim, ficam os ensinamentos e a missão de levar a Abraji adiante, a partir dos ensinamentos que ele deixou. Que a querida Elvira Lobato, diretora na atual gestão da Abraji, e todos os demais familiares e amigos encontrem força nesse momento difícil de despedida.
Veridiana Sedeh (ex-diretora-executiva da Abraji):
Meu primeiro contato com o Beraba foi por meio de sua coluna. Ele, ombudsman da Folha, eu, estudante de jornalismo. Cada texto seu era uma aula. Pouco tempo depois, quando me tornei gerente-executiva da Abraji — associação que ele havia fundado cinco anos antes e que dirigia com um cuidado ímpar —, percebi que não era só a mim que ele impressionava e inspirava: grandes nomes do jornalismo brasileiro e internacional também o chamavam de mestre.
Os anos-luz que separavam nossa experiência, e a posição hierárquica que ele ocupava, não foram barreiras para que construíssemos uma relação de amizade. Porque, além de culto, ético e visionário, o Beraba era profundamente humano e generoso. Ele nutria um amor genuíno pelo jornalismo e pelos jornalistas.
Eu tinha tanto carinho e admiração por ele que, muitas vezes, pensava: “Gosto tanto do Beraba como se ele fosse meu avô”. Não que ele tivesse idade para isso, ele era contemporâneo do meu pai, mas, com uma figura paterna forte na minha vida e sem ter conhecido nenhum avô, era essa a forma que eu encontrava para nomear o amor e o respeito que sentia por esse homem mais velho.
Hoje entendo: era o reconhecimento de estar diante de um sábio. Alguém que conjugava erudição com altruísmo e uma alegria imensa de viver. Defensor intransigente da democracia e apreciador de um bom samba, Beraba foi mestre no jornalismo e na vida.
Ao Mestre Beraba, minha eterna gratidão.
Tiago Mali (jornalista, colunista do UOL e ex-gerente de Treinamento da Abraji):
Beraba foi o melhor de muitas gerações na sistematização de como se fazer bom jornalismo. Uso diariamente os conceitos de organização que aprendi no seu curso Fundamentos da Reportagem. A generosidade do mestre Beraba, que nos legou a Abraji, permanecerá na forma de reportagens e na transmissão desse conhecimento pelos muitos jornalistas que tiveram sorte de conhecê-lo.
Marina Atoji (diretora de programas da Transparência Brasil e ex-gerente executiva da Abraji):
Beraba sempre foi e será a referência.
Sua visão, sempre ponderada, era o norte para decisões sobre os rumos da Abraji. Não porque ele assim se impusesse, ao contrário. Mas porque vinha não só de sua experiência, mas de sua dedicação permanente à organização que fundou e, principalmente, ao bom jornalismo.
Era generoso em compartilhar o muito que sabia, fosse com jornalistas profissionais ou estudantes – inclusive os próprios erros, para mostrar que eles acontecem e devem servir para melhorar. Na mesma intensidade, estava o tempo todo aberto a aprender.
Foi um grande privilégio ter convivido com o Beraba e tido com ele uma relação não só de mentoria e admiração, mas também de amizade.
Marcelo Soares (jornalista, diretor do estúdio de inteligência de dados Lagom Data e primeiro gerente executivo da Abraji):
Marcelo Beraba foi um mestre –e ouça essa palavra dita com seu simpático sotaque carioca– para todos os que o conheceram. Só alguém com sua experiência e visão, raríssimas, poderia ter inventado algo como a Abraji. Beraba conhecia Tim Lopes, cujo assassinato em 2002 reuniu 40 jornalistas para pensar em uma associação. Conhecia a experiência do IRE, a associação de jornalistas investigativos criada nos EUA em 1975. E conhecia todo mundo no jornalismo brasileiro, dos patrões até um jovem que toureava planilhas, no caso eu, que virei o primeiro gerente da associação. Beraba sabia articular, sabia inspirar, sabia planejar e sobretudo sabia fazer jornalismo investigativo, como repórter, editor e executivo. Suas raríssimas qualidades deixam uma falta irreparável na profissão.
Sérgio Gomes (jornalista e coordenador da Oboré):
Beraba, meu amigo,
Sua vida está cravada na pedra do Jornalismo e no coração dos que convivem com você. Seus gritos já se transformaram em alertas para bem conduzir a nossa profissão. E continuam ecoando, como nesta canção que lhe ofereço, do fundo de minha alma…
Serjão
A canção do albatroz
Máximo Gorki, 1901
“Sobre a superfície cinzenta do mar,
O vento reúne
Pesadas nuvens.
Semelhante a um raio negro,
Entre as nuvens e o mar,
Paira orgulhoso o albatroz,
Mensageiro da tempestade.
E ora são as asas tocando as ondas,
Ora é uma flecha rasgando as nuvens,
Ele grita.
E as nuvens escutam a alegria
No ousado grito do pássaro.
Nesse grito – sede de tempestade!
Nesse grito – as nuvens escutam a fúria,
A chama da paixão,
A confiança na Vitória.
As gaivotas gemem diante da tempestade,
Gemem e lançam-se ao mar,
Para lá no fundo esconderem
O pavor da tempestade.
E os mergulhões também gemem.
A eles, mergulhões,
É inacessível a delícia da luta pela vida:
O barulho do trovão os amedronta…
O tolo pingüim, timidamente
Esconde seu corpo obeso entre as rochas…
Apenas o orgulhoso albatroz voa,
Ousado e livre sobre a espuma cinzenta do mar.
Tonitroa o trovão.
As ondas gemem na espuma da fúria.
E discutem com o vento.
Eis que o vento
Abraça uma porção de ondas
Com força e lança-as
Com maldade selvagem nas rochas,
Espalhando-as como a poeira,
Respingando uma noite de esmeraldas.
O albatroz paira a gritar
Como um raio negro,
Rompendo as nuvens como uma flecha,
Levantando espuma com suas asas.
Ei-lo voando rápido como um demônio;
Orgulhoso e negro demônio da tempestade;
Ri das nuvens, soluça de alegria!
Ele – sensível demônio –
Há muito vem escutando
Cansaço na fúria do trovão.
Tem certeza de que as nuvens não escondem,
Não, não escondem…
Uiva o vento… Ribomba o trovão…
Sobre o abismo do mar,
Um monte de nuvens pesadas
Brilham como centelhas.
O mar pega as flechas de relâmpagos
E as apaga em sua voragem.
Parecem cobras de fogo.
Os reflexos desses raios,
Rastejando sobre o mar e desaparecendo.
_ Tempestade!
Breve rebentará a tempestade!
Esse corajoso albatroz
Paira altivo entre os raios
E sobre o mar furiosamente urrando
Então grita o profeta da Vitória:
QUE MAIS FORTE ARREBENTE A TEMPESTADE!”
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