21 de maio de 2026

Memórias de um foca no dia do Jornalista, por Luis Nassif

Veja montara uma super-redação, grande demais para o faturamento inicial da revista. Depois foi reduzindo o quadro.

Meu início do jornalismo veio, curiosamente, através da música. Em 1969 venci inúmeros festivais no interior, inclusive uma semifinal da Feira Permanente de Música Popular Brasileira, na TV Tupi.

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Em Casa Branca, uma das juradas era Laís, repórter da revista Realidade. A música era “Frevo Gamado”, interpretado por nossa cantora Mônica e Paulo Molin, cantor que havia feito muito sucesso na rádio Nacional nos anos 50.

Voltando a São Paulo, ela comentou sobre as músicas com seu chefe, Luiz Fernando Mercadante. Para sua surpresa, ele contou:

  • É meu sobrinho!

De fato, em fins dos anos 60 ele se casou com minha tia Zélia. Através do meu avô, Issa Sarraf, conheceu Carlos Lacerda, começou a trabalhar na Tribuna da Imprensa, morando na casa do pai do jornalista Luiz Garcia. Depois, voltou a Poços, casou-se com a tia Zélia em um casamento que foi um verdadeiro comício: Lacerda, padrinho do noivo; Bilac Pinto, da noiva.

Tempos depois ficou doente, voltou para Poços, separou-se e foi para São Paulo, onde fez carreira vitoriosa na editora Abril, sendo um dos mentores da criação da histórica Realidade. Nunca mais o tinha visto.

Apesar de separado de tia Zélia, uma vez por semana ele ia à sua casa, levando um amigo para almoçar com ele, para rever os filhos e a tia – que, mesmo após inúmeros casamentos de Mercadante, permaneceu seu arrimo psicológico.

Formei-me no antigo ensino Clássico em 1969, terminei o Tiro de Guerra e matriculei-me no Vestibular da recém fundada Escola de Comunicações e Artes da USP. Passei, mas só consegui, em um primeiro momento, matrícula no período da tarde.

Através de tia Zélia, Mercadante mandou o aviso para que o procurasse, assim que chegasse a São Paulo.

Participei de um dos almoços com Luiz Garcia, mas o horário de aula impediu o trabalho. No segundo semestre, mudei para a parte da manhã. Mercadante conversou com Laerte Fernandes, Secretário de Redação do Jornal da Tarde. E levou Talvani Guedes da Fonseca – que tinha assumido a chefia da Reportagem Geral da Veja – para um almoço na casa da tia.

Foi Talvani que me proporcionou o primeiro estágio, que se iniciou no dia 1o de setembro de 1970. 

Na inauguração, três anos antes, Veja montara uma super-redação, grande demais para o faturamento inicial da revista. Depois foi reduzindo o quadro. Em 1970 reabriu os estágios. Os três primeiros aprovados foram Dailor Varela, Ângela Ziroldo e eu.

A reportagem geral oferecia repórteres para todas as editorias. Sabendo de meu pendor para a música, Talvani me alocou para atender os pedidos de Artes e Espetáculos. O editor era Carmo Chagas, o crítico da música Tárik de Souza, o editor da muito lida seção Gente era José Ramos Tinhorão, o crítico de cinema Geraldo Mayrink e o de literatura Léo Gilson Ribeiro.

A convivência com Tárik e Tinhorão me permitiu entrar no mundo mágico dos meus ídolos musicais, especialmente depois que a Abril publicou os famosos Fascículos da Música Popular Brasileira.

Foi um início curioso. Depois de três meses de estágio, Talvani me chamou para uma conversa e me orientou:

  • Olha aqui. Agora estou te falando como seu amigo. Amanhã falarei como seu chefe. Vou te oferecer um salário de 500 reais para efetivá-lo (eu ganhava 250 como estagiário). Não aceite. Exija no mínimo 1.500.

No dia seguinte, como combinado, me chamou na sua sala, fez sua oferta e, conforme o combinado, não aceitei. Sua resposta foi desconcertante:

  • Então lamento muito. Vou te indicar para a Folha de S. Paulo ou outro jornal.

Recém chegado a São Paulo, supus que fosse assim mesmo, todos os jornalistas eram pirados. Saí da sala e fui me despedir do editor Carmo Chagas.

  • Porque está se despedindo?

No mês anterior, Tárik tinha tirado férias e eu o substituí, diria com relativo sucesso, com críticas e comentários de shows. Carmo pediu paciência:

  • Tire uma semana, vá a Santos namorar um pouco (minha primeira esposa tinha se mudado com a família para Santos). Semana que vem o Tárik volta e iremos falar com Sérgio Pompeu (o secretário de redação).

Na 2a feira voltei, Carmo me disse que minha proposta tinha sido aceita e que eu podia voltar ao trabalho. Encontrei Talvani no corredor:

  • Nassif, veio nos visitar?
  • Não. O Sérgio Pompeu aceitou minha proposta.

Talvani ficou enlouquecido. Disse que tinha sido atropelado e prometeu que, dali para frente, minha vida não teria moleza:

  • Vai acabar essa história de materinha de música, comportamento e vai pegar pedreira.

De fato, foi um belo aprendizado, que passou por entrevistas com empresários japoneses – o horror dos repórteres pelo seu habito de responder a tudo monossilabicamente.

De pedreira em pedreira, fui incumbido de uma reportagem para a editoria de Negócios com o Circo Orlando Orfei. Talvani recomendou-me que não pedisse fotógrafo, porque ele mesmo queria fotografar, aproveitando seu curso de fotografia.

Admito que sou distraído, muito mesmo. E não foi por mal que avisei a fotografia a respeito do evento, atrapalhando a estreia do fotógrafo amador Talvani.

A redação da Veja era dividida em baias, separada por paredes de madeira de 1,5 metro de altura. Ainda não acostumado com a zoeira da baia da reportagem geral, costumava ir à baia de Artes e Espetáculos que, de manhã, ficava vazia.

Estava escrevendo minha matéria quando ouço um berro, vindo da Geral.

  • Nassif, venha aqui.

Fui e levei a maior bronca da minha vida por ter solicitado o fotógrafo.

  • E quem é você para ficar na baia de Artes e Espetáculos, se não passa de um reles repórter.

Voltei para a baia, cabisbaixo. Olhava a máquina de escrever e todas as teclas se misturavam. Não ía conseguir conviver com aquela bronca, dada na frente de todos os colegas.

Voltei para a baia da Geral, fui em direção à mesa do Talvani, chutei uma cadeira que estava na frente e, de pé na frente dele, devolvi a bronca:

  • Quem tem chefe é índio! Quando tiver que gritar, vá gritar com suas negas! Não admito ser tratado assim.

E voltei para a outra baia, ainda com a cabeça quente. Para minha surpresa, Talvani veio atrás, disse que eu tinha razão e pediu desculpas. Ainda com cabeça quente, fui ríspido:

  • Não aceito!
  • Como não aceita?
  • Você me ofendeu na frente de todo mundo e agora vem pedir desculpas em particular?

Ele saiu da baia e eu lamentei minha cabeça quente. De repente, ouço ele me chamando novamente, e com voz educada. Fui até a Geral e, na frente de todos os repórteres, ele me pediu desculpas.

Dali por diante, foi o melhor chefe de reportagem que tive.

O segundo tempo do jogo

A partir dali, foi a convivência com quem era considerada a nata do jornalismo da época.

Admirávamos o texto de Tão Gomes Pinto e Renato Pompeu mas, especialmente, o de Geraldo Mayrink. Nos encantávamos com as reportagens de Pena Branca,  tipo malandro carioca que conhecia tudo do submundo. Nos divertíamos com as brigas entre o internacionalista Léo Gilson Ribeiro e o nacionalista-raiz José Ramos Tinhorão.

Certa vez, Tinhorão irritou tanto Léo que ele subiu na mesa com um livro, ameaçando jogar em Tinhorão. E Tinhorão, com seu humor ferino:

  • Para com isso, Léo. No máximo, você consegue jogar brochura.

Quando Veja pegou de vez, todos na redação passaram a se considerar gênios. Lembrava muito o antigo personagem Bozó, da Rede Globo – que se vangloriava, com todo mundo, por trabalhar na Globo.

O mais irônico de todos nós era Mayrink. Um dia, em uma roda, Mayrink falou uma frase banal qualquer. Um dos presentes olhou para ele com aquele olhar de “saquei o que você quis dizer” e ficou com um sorriso vitorioso no rosto.

Eu tinha chegado do interior. Fiquei muito amigo de outro interiorano, o gaúcho Geraldo Hasse e o paraense Sérgio Buarque. Chamei Hasse de lado:

  • Você entendeu a ironia do Mayrink?

E Hasse:

  • Não entendi nada.

E fomos nós tentar entender. Chegamos na mesa do Mayrink e perguntamos o que ele quis dizer com aquela frase. E ele:

  • Não quis dizer nada. Não entendi a reação do colega.

Continuei fazendo minhas reportagens de música, comportamento, entremeadas de alguma pedreira. Um dia, o Mayrink me passa uma pauta para cobrir a exposição de esculturas de futuristas italianos, seguidores do Manifesto Futurista de de Filippo Tommaso Marinetti 

Nunca tinha escrito sobre artes plásticas. Desci até o Dedoc (Departamento de Documentação), li vários livros de arte para entender o linguajar e os critérios de julgamento dos críticos. E perpetrei minha reportagem-crítica.

No dia seguinte, Mayrink me chama à sua mesa e me diz com ar zombeteiro:

  • O Mino quer falar com você.

A revista estava atrás de um novo crítico de arte. Entramos na sala de Mino – que a redação chamava de cenáculo, porque apenas os escolhidos podiam entrar. Lá, Mino  me convidou para o cargo. Fui sincero:

  • Mino, não tenho o menor conhecimento de artes plásticas. O que fiz foi ler vários livros para entender o estilo desse pessoal. Só isso.

Mayrink, do lado, contendo o riso. O olhar de Mino dizia tudo de seu estado de espírito. Logo depois, convidou Olívio Tavares de Araújo, que se tornou uma referência na crítica de artes do jornalismo da época.

A ida para a Economia

Depois de Talvani, passaram pela chefia de redação o Guilherme Velloso, Ulisses Alves de Souza e Paulo Totti.

Foi Totti que me trouxe a proposta para me tornar Repórter Especial. Poderia escolher entre a música e a Economia.

De fato, Tárik estava voltando para o Rio e o cargo ficaria vago. Tinha todas as condições de, aos 24 anos, assumir o mais ambicionado cargo de crítica de música da imprensa, só alcançado pelo Jornal da Tarde, com o imbatível José Lino Greewald.

Mas algo me incomodava profundamente. Vivíamos sob ditadura. Não havia liberdade para a editoria de Política. Havia algum espaço para crítica na Economia. Mas todo o espírito revanchista se concentrava na Música.

A crítica de música na época limitava-se a dividir os artistas em dois grupos: os alienados e os participantes. Os supostos alienados eram destinados ao cemitério do Henfil. Até Ligia Fagundes Telles foi enterrada lá. Aos participantes, todos os adjetivos e elogios, mesmo que fossem medíocres.

Eu tinha um bom conhecimento de crítica musical, para o qual muito ajudou meu período prévio de compositor. Mas as limitações da crítica de música da época me incomodavam. Escolhi, então, a Economia. E fui trabalhar em uma editoria que tinha como editores Emilio Matsumoto e Paulo Henrique Amorim, como editores assistentes o Mário Alberto de Almeida de Alexandre Machado e, logo depois, José Paulo Kupfer.

Mas essa é outra história.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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5 Comentários
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  1. Campbell

    7 de abril de 2023 2:47 pm

    Memória de sua obra e fé jornalistica cativante. A recompensa é a jornada.

  2. AMBAR

    7 de abril de 2023 7:40 pm

    “Não aceito!
    Como não aceita?
    Você me ofendeu na frente de todo mundo e agora vem pedir desculpas em particular?”
    Qualquer um teria parado ali. O chefe se desculpou, tá beleza! Poucos têm esse senso de dignidade e auto respeito. A maioria de nós deixa passar, a partir dos pais que humilham os filhos diante de estranhos e nunca se desculpam.

  3. eric fernandes

    8 de abril de 2023 6:28 am

    Lindo texto, Nassif. Já pensou em publicar suas memórias?

  4. Fernando Moreno

    8 de abril de 2023 9:20 am

    Não é à toa que Nassif é um dos, senão o melhor jornalista de economia do país. Parabéns pela notável carreira profissional.

  5. João Gilberto

    9 de abril de 2023 12:22 pm

    Quem será que eram os artistas alienados? Mas deve ter muitas outras histórias hilariantes como a do brochura, nos bastidores. Muito bom.

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