4 de junho de 2026

Um Dia das Mães sem o filho amado

Acordamos, hoje, sem o café da manhã encomendado por Vini. Mas com a inesquecível declaração às mães, às “mulheres do Brasil”, que ele deixou no seu Instagram.

Quando Vinicius nasceu, o médico veio até Eugenia para falar dos cuidados a se ter com um filho com síndrome de Down. Foi um choque para a mãe, que até então não sabia. 

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Nos dias seguintes, recebeu a visita de outras mães de crianças Down, e as recomendações sobre como proceder. E Eugenia cumpriu todas as determinações com a vontade férrea que sempre a marcou, que permitiu, tendo apenas um diploma da Faculdade de Direito de São João da Boa Vista, passar no concorrido concurso para procurador do estado de São Paulo e, depois, da procuradoria federal.

Foi um exercício diário de puxar conversa com a criança, fazê-la falar, exercitar-se, tomar seus remédios, pressentir todos os momentos de perigo pelos quais passava, com sua saúde frágil. E sempre se fortalecendo com a cena inesquecível do filho, com apenas um mês de idade, procurando-a com os olhos, a ponto de virar a cabecinha, enquanto ia para a sala de cirurgia, para uma operação do coração.

O modo como Eugênia reagiu à dor, mudou a vida de milhares de crianças por todo o país. Empenhou-se na luta pela inclusão escolar de crianças com deficiência, escreveu uma cartilha que se tornou o amparo de todas as famílias, percorreu o país em conferências em defesa de sua tese, enfrentando a ira de Associações de Pais e Amigos de Excepcionais, enfrentando 3 mil processos movidos por eles e, no final da caminhada, conseguindo convencer o futuro Ministro Fernando Haddad a montar um programa que incluiu milhares de crianças na rede federal.

Passei a acompanhar sua história, principalmente seu papel de mãe, a partir dos 11 anos de Vinicius, o rigor com que exigia que tomasse medicamentos, que se exercitasse. Ou a maneira como o olhava, que derretia Vinão por dentro:

  • Olha não!, dizia ele, enquanto se derretia com o olhar de paixão da mãe.

Todo Dia das Mães, Eugenia acordava com o café da manhã servido por Vinicius. Quando viajávamos, Vinicius recusava-se a atender o telefone, por motivo de força maior:

  • Estou com alergia de saudades.

Combinava palavras, recriava expressões mas, em todas as frases, as declarações irrestritas de amor.

No ano passado, junto com a irmã Gabriela, encomendou o presente que daria no aniversário da mãe, em 21 de março. Um travesseiro com a inscrição: “Para descansar sua cabeça”.

Não entregou. No meio do mês foi abatido por uma dengue. Foi internado no Hospital 9 de Julho, com um atendimento horroroso, teve um instante de melhora, depois foi para a UTI e nos deixou.

Eugenia, mais uma vez, transformou a dor em um bem para as pessoas. Levantou minuciosamente todas as falhas cometidas pelo hospital, na chegada de Vini, na falta de visitas de médicos na UTI, na falta de cuidados. Depois, solicitou uma reunião com a diretoria.

Nela, explicou que não pretendia acionar, nem pedir nada. Apenas exigia que o Hospital corrigisse todas as falhas, para não atingir outras crianças, especialmente aquelas debilitadas pela Síndrome de Down.

Este ano, no seu aniversário, a filha trouxe a almofada de presente. Toda noite, Eugenia dorme abraçada à almofada.  

Acordamos, hoje, sem o café da manhã encomendado por Vini. Mas com a inesquecível declaração às mães, às “mulheres do Brasil”, que ele deixou no seu Instagram.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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8 Comentários
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  1. Miguel Henrique vieira

    11 de maio de 2025 1:25 pm

    Nassif, você é um economista que tem um coração pulsante… Isto é raro. Feliz dia dos que gostam dos outros.. é pra Dona Eugênia, também…

  2. ROSANIA MARIA DE CARVALHO ABRANTES

    11 de maio de 2025 1:37 pm

    Vinicius me emociona até hoje. Transmitido pelo amor incansável de vcs, Nassif e Eugênia, pelos filhos e pais e mães de todo o Brasil, estão semore em busca de melhorar a vida de todos nós. Obrigada, queridos.

  3. Filó Mariano

    11 de maio de 2025 1:53 pm

    Que menino maravilhoso vocês tiveram o privilégio de conviver.
    Gostaria de tê-lo conhecido.
    Parabéns mãe Eugênia. Nesse dia.como já disse anteriormente, admiro você mesmo sem conhecê-la pessoalmente. Forte abraço a você e aí Nassif querido.

  4. AARON SCHWARTZZ

    11 de maio de 2025 4:45 pm

    Nassif o seu filhotão cumpriu a sua missão na Terra e foi recolhido com ctz foi uma BOA INSPIRAÇÃO e vida q segue né Nassif !!!Seus arrigos últimos têm sidos libertadores né Nassif não precisa dizer nada EU SEI !!!

  5. fabricio coyote

    11 de maio de 2025 9:34 pm

    Para Sempre

    Por que Deus permite
    que as mães vão-se embora?
    Mãe não tem limite,
    é tempo sem hora,
    luz que não apaga
    quando sopra o vento
    e chuva desaba,
    veludo escondido
    na pele enrugada,
    água pura, ar puro,
    puro pensamento.
    Morrer acontece
    com o que é breve e passa
    sem deixar vestígio.
    Mãe, na sua graça,
    é eternidade.
    Por que Deus se lembra
    – mistério profundo –
    de tirá-la um dia?
    Fosse eu Rei do Mundo,
    baixava uma lei:
    Mãe não morre nunca,
    mãe ficará sempre
    junto de seu filho
    e ele, velho embora,
    será pequenino
    feito grão de milho.

    Carlos Drummond de Andrade
    “Lição de Coisas: poesia”. São Paulo: J. Olympio, 1965

  6. Anônimo

    11 de maio de 2025 10:40 pm

    Relato inspirador e comovente. Parabéns a mãe e ao pai por terem cuidado tão bem do garoto enquanto ele viveu, retribuindo em vida toda a afeição incondicional e desvelo com que foi acolhido.

  7. Silvia

    11 de maio de 2025 10:55 pm

    Uma crônica que honra nossa tradição neste gênero. E ao mesmo tempo nos enche de emoção pelo modo como traduz o afeto que inspira o amor do filho, e a coragem e força da mãe.

  8. María Izabel de Faria Marcondes

    12 de maio de 2025 3:03 pm

    Meu irmão caçula era portador da síndrome de Dow.Viveu por 69 anos e meio. Era uma criatura linda, amoroso, prestativo. Ajudei minha mãe a cuidar dele desde o dia em que nasceu. Era meu filho. Cuidei dele até o dia em que se foi. Quanta saudade. Parabéns para vocês dois, principalmente para Eugênia pelo lindo trabalho.

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