Viva as Rádios Livres! Ou o que matou Chico Lobo?, por Armando Coelho Neto

Volto ao GGN por haver perdido um amigo - o comunicador Chico Lobo um militante da democracia nos meios de comunicação.

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Viva as Rádios Livres! Ou o que matou Chico Lobo?

por Armando Coelho Neto

As grandes emissoras de rádio e televisão perderam parte de sua importância e o fórum dos grandes debates ganhou outros palcos. Se antes tinham tímido contraponto de rádios livres, os canais de redes sociais bem financiados (impregnados de mentiras) são hoje fortes concorrentes. Já não mentem sozinhos.

É clássico o exemplo da divulgação pela Rede Globo, dos altos rendimentos da poupança, fato passado como algo bom, mas que na prática escondia do povo o fantasma da inflação que corroía salários e incentivava especulação financeira de ricos. Com base em verdades, mentiras eram fabricadas pelos donos das mídias.

Há mais de um ano parei de escrever nesse GGN, entre outras razões, pela absoluta incapacidade de entender um país que se adaptou ao pós-golpe de 2016, cujo povo passou a rir de sua própria desgraça e de uma grande mídia que até hoje não fez sua autocrítica por haver pavimentado o caminho para o fascismo.

Volto ao GGN por haver perdido um amigo – o comunicador Chico Lobo um militante da democracia nos meios de comunicação. Para a Polícia Federal, enquanto capitã do mato das elites, Chico era um agitador pelo fato de defender rádios livres, comunitárias, capazes de levar ao povão informações de seu real interesse.

Não há um capítulo na história da radiodifusão comunitária no país que se possa abrir mão do nome de Chico Lobo. Seja como contribuição técnica, legal, mobilização, confrontos. Entusiasta, costuma orgulhar-se de haver “espetado quase 500 antenas” país afora, seja em favelas, universidades, eventos especiais…

Era o ano de 2002, quando o diretor de cinema, Helvécio Ratton, lançou o filme “Uma Onda no Ar”, produzido por Simone Magalhães Matos, argumento e roteiro: Jorge Durán e Helvécio Ratton. Mesmo ano do lançamento de “Rádio Comunitária Não é Crime”, livro de minha autoria. “Foi o casamento do ano”, disse Chico Lobo.

“Uma Onda no Ar” é a história da Rádio Favela (Belo Horizonte), que entrava no todos os dias no horário de “A Voz do Brasil”, um programa chato oficial, que já levou várias grandes emissoras a ingressar na Justiça para não transmitir ou mudar de horário. A rádio ganhou fama pela irreverência e serviços prestados à comunidade.

Por ter desenvolvido excelente papel social, seja com protestos, organização, trabalhos comunitários, combate ao tráfico, a emissora acabou sendo premiada pelas Nações Unidas. O curioso é que no dia da entrega do prêmio, a Polícia Federal estava nos estúdios tentando prender, intimar e ou constranger os líderes.

No meu livro Rádio Comunitária Não é Crime há um capítulo técnico inspirado em notas do grande Chico Lobo, baseado em seu incomum conhecimento sobre ondas magnéticas, sua habilidade em lidar com transmissores e “espetar antenas”. O livro me levou ao Chico e este me levou ao filme. E assim, passaram-se 20 anos!

Excelente comunicador, Chico inspirava e entusiasmava jovens estudantes país afora. Declarou como ninguém uma guerra ao denominado “coronelismo eletrônico”. Assim, surgiram emissoras “piratas” como “Onze de Agosto”, na Faculdade de Direito de São Francisco, umas das pioneiras, pródiga em ricos debates alternativos.

Mesmo sob intensa repressão, na esteira do momento de rádios livres (piratas como prefere a PF) surgiram incontáveis outras com nomes irreverentes, tipo rádios Xilique, Farc, Interferência, Muda, Falante, Rebeldia, Fulana, Pirata é a Mãe… sempre precedidas de debates de alto nível, nos quais em muitos participei.

Chico transformou-se em visionário de muitas utopias, alimentou sonhos libertários criando espaço para que pequenas rádios pudessem cumprir um papel, que grandes emissoras mesmo se quisessem não conseguiriam. Afinal, a morte de um estadista de um país distante não seria mais importante do que a morte do gato do vizinho.

Ontem, o guerreiro Chico Lobo partiu. Levou consigo segredos escondidos nas noites dos tempos, que talvez possam vir ao ar a qualquer momento de uma “Rádio Pirata”. Não sei se nas noites ou nos dias dos tempos, pois tudo pode depender da movimentação dos astros. Sim! Chico também tinha um pé na astronomia.

Em seu rápido velório, amigos de pequenas emissoras, do Planetário Mobile*, militantes do Espaço Cultural Latino Americano (Ecla), poetas, grupos musicais e teatro, representantes da Revista Artigo 5º (Delegados e Delegadas da Polícia Federal pela República e Democracia – entidade que sempre incentivou).

Afinal, o que matou Chico Lobo? Não foi sexo, droga, Rock and roll. Mas, muito inquietava temas como luta de classe, feminicídio, aborto, homofobia, tráfico, fome, comércio da fé, violência policial, prisões e aberrações judiciais. Quem o matou foi o golpe contra Dilma Rousseff, a prisão de Lula, a eleição de um fascista, a postura traidora de militares, a destruição do patrimônio nacional, a repressão fascista ao movimento de rádios promovida pela Anatel, Polícia Federal, juízes e procuradores federais, associações de grandes rádios…

Essa conjuntura de fatos angustiava a alma inquieta de um militante de utopias – que ia da fraternidade entre povos à salvação do planeta. Aos poucos foi quase abandonando as ruas, os estúdios… Na próxima passeata, é possível que seus amigos astrônomos possam vê-lo numa estrela… ou Como uma onda no ar…

Armando Coelho Neto – Delegado Federal (aposentado), ex-chefe da Interpol em São Paulo e da Delegacia de Segurança Privada

*https://www.projetomobile.com.br/

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4 Comentários

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Terezinha Dulce dos Santos

- 2022-04-13 23:04:04

Armando não conheci Chico Lopes, mas já o admiro através do seu texto. Acabo de saber que tem uma nova estrela brilhando nesses céus intocáveis da fraternidade,da alegria e da verdadeira justiça. Salve Chico!

Paulo Pereira

- 2022-04-13 18:52:03

Belo textos Armando para esse grande guerreiro! Eu tive o grande prazer de conhece-lo. no período da Radio “Onze de Agosto” na Casa dos estudantes na Av. São João! Eu tive participava de um programa de Radio aos Domingos a tarde! O Chico nos ensinou muitas coisas boas referente a Rádios Comunitárias como ele mesmo chamava ( Radio Pirata),Ele era realmente um grande guerreiro!! É uma pena que perdemos está lenda da comunicação comunitária!! Adeus Chico e obrigado pela sua amizade!! Você fica sempre na minha lembra!! Att. Paulo Pereira.

Maura Vilar

- 2022-04-13 17:24:38

Que legal Armando Rodrigues Coelho Neto! Volte a escrever nesse ESPAÇO, Pois considero o GGN UM DOS MELHORES em termos da análise da CENA POLÍTICA , melhor ainda mais COM VC, saiba que agregas muito... "O CONHECIMENTO LIBERTA!" Sinto muito o nosso CHICO LOBO ter partido ...

José de Almeida Bispo

- 2022-04-13 09:31:17

*Afinal, o que matou Chico Lobo? Não foi sexo, droga, Rock and roll. Mas, muito inquietava temas como luta de classe, feminicídio, aborto, homofobia, tráfico, fome, comércio da fé, violência policial, prisões e aberrações judiciais. Quem o matou foi o golpe contra Dilma Rousseff, a prisão de Lula, a eleição de um fascista, a postura traidora de militares, a destruição do patrimônio nacional, a repressão fascista ao movimento de rádios promovida pela Anatel, Polícia Federal, juízes e procuradores federais, associações de grandes rádios…* MUITOS MAIS NÃO RESISTIRAM. Até eu quase vou pro beleléu com um incapacitante AVC.

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