4 de junho de 2026

A síndrome de Hamster no jornalismo online

Do observatório da imprensa

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Carlos Castilho

A síndrome do hamster nas redações

A imagem do ratinho correndo freneticamente no pequeno carrossel dentro de uma gaiola foi a escolhida pelo jornalista norte-americano Dean Starkman para descrever o ritmo cada vez mais veloz adotado pelas redações para processar e publicar notícias.

A correria do ratinho não tem nenhum sentido ou objetivo. É correr por correr porque o animal precisa gastar energias de qualquer jeito. É mais ou menos o mesmo que acontece hoje em dia nas redações, contaminadas pela síndrome do hamster. A correria para ser o primeiro e não ser furado pela concorrência transformou-se num objetivo em si mesmo, perdendo qualquer relação com o fato noticioso.

A conseqüência deste processo, que no Brasil chegou a absurdos como limitar em 45 segundos o tempo de edição de uma notícia em alguns portais online, é que a preocupação em ser o primeiro acabou sacrificando inevitavelmente a qualidade da informação, porque não há tempo para a contextualização adequada.

A velocidade foi transformada no grande objetivo das redações, que passaram a travar uma competição pela pole position noticiosa deixando leitor na arquibancada como um espectador passivo de um processo onde ele seria o protagonista principal, pelo menos nos manuais e na literatura jornalística.

Starkman, um repórter investigativo na área financeira, fez as contas e chagou à conclusão de que o The Wall Street Journal, de Nova York, publicou 26 mil notícias e reportagens em todo o ano de 2000. Uma década depois, o mesmo jornal publicou 21 mil histórias só no primeiro semestre de 2010. Nesta estatística não estão incluídas as notícias e reportagens publicadas exclusivamente no site do Journal.

O número pode ser visto como um indício de que o jornal diversificou e ampliou a produção de conteúdos informativos. Poderia ser também um sintoma de que a redação estaria preocupada em atender um número crescente de nichos de interesse, para satisfazer a expectativa gerada pela multiplicação de blogs segmentados na web.

No mesmo perido em que foi feita a pesquisa publicada na revista Columbia Journalism Review, o número de jornalistas empregados na redação do The Wall Street Journal caiu de 323 profissionais em 2000 para 281, em 2008 — numa redução da ordem de 13%. Não é necessário fazer muita força para perceber que com menos jornalistas produzindo mais notícias, o resultado tende a ser a perda de qualidade e o aumento na frequência de erros.

Também fica fácil entender por que um repórter do Journal admitiu, anonimamente, que hoje o seu jornal publica três vezes mais notícias sem importância do que antes, tudo pela necessidade de chegar antes da concorrência.

Esta não é uma situação única no principal jornal econômico do império industrial de Rupert Murdoch. É uma tendência mundial, sem que os jornalistas tenham tido condições de parar para pensar no absurdo de uma correria maluca que interessa apenas às empresas. O leitor não está preocupado com a velocidade, exclusividade ou ineditismo da notícia. Ele a quer completa e confiável, mas a roda do hamster não roda neste sentido.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados