Como medir o sucesso do jornalismo?, por Pedro Burgos

Enviado por Odonir Oliveira

Do Observatório da Imprensa

 
Por Pedro Burgos

Será que estamos medindo corretamente o “sucesso” do jornalismo?   Ninguém sabe exatamente. Mas o fato é que, online, nunca tivemos tantos indicadores aparentes.  Podemos contar visitantes únicos, visualizações, compartilhamentos no Facebook, curtidas, comentários ou tempo na página. É um bocado mais do que “circulação”, pontos no Ibope ou cartas enviadas à redação que tínhamos na era pré-internet.

Mas, no fim, esse monte de números serve normalmente a um só propósito, o mesmo há décadas: dizer ao anunciante que faz sentido gastar bastante dinheiro com a gente, porque a gente tem muito “alcance” e “engajamento”.

Muita audiência significa mais dinheiro de publicidade, que é o que entendemos por “sucesso”. E não há por que ser muito crítico a isso, já que o jornalismo precisa de dinheiro como nunca.

Mas há dois grandes problemas em se fixar nesses números.

O primeiro é que sabemos, observando por anos as disputas pelo primeiro lugar no Ibope na TV, o que tentar abraçar a maior audiência possível significa em termos de qualidade. Online, isso se traduz em fazer manchetes que não entregam, vídeos forçados de coisas fúteis, galerias de “atletas musas”, layouts de página que privilegiam cliques sobre a experiência do público, jornalismo declaratório, colunas com opiniões inflamadas e sem base, etc etc etc. Todos sabemos e somos cúmplices dessa longa lista.

A segunda questão é que talvez estejamos em uma luta impossível de ser ganha. Uma mídia forte que seja bancada exclusivamente pela publicidade é uma ideia na melhor das hipóteses ingênua e na pior, perigosa (escrevi muito longamente sobre isso há dois anos). Se o New York Times, de alcance global, reportagens espetaculares, mini documentários e uma equipe ligada em todas as tendências tecnológicas contemporâneas  consegue apenas  14 milhões de dólares por mês em publicidade online, qual é a esperança para todo o resto?

Mas este não é mais um artigo sobre modelos de negócio. É sobre outra coisa, que envolve uma questão anterior.

Pra que serve o jornalismo?

Essa é uma pergunta que os jornalistas se fazem muito menos do que deveriam. E acho que é um exercício importante (mais sobre isso aqui). Porque ele antecede qualquer discussão de métricas, que é o real assunto aqui, depois de todo esse preâmbulo.

Se medimos o jornalismo pela quantidade de visualizações, não somos muito mais que “produtores de conteúdo”. E tudo bem se este for o caso, conscientemente. Afinal, precisamos de “conteúdo” de qualidade para preencher as páginas e nossa vida. Mas aí competimos com outros “conteúdos” potencialmente mais interessantes que não são nem pretendem ser “jornalismo”. De jogos de celular a vídeos de comédia no Youtube.

Mas se os objetivos são diferentes, as métricas precisam ser outras também. Por isso é interessante observar o movimento de ONGs de jornalismo nos Estados Unidos e como elas estão medindo o impacto nos últimos dois ou três anos.

A mais famosa delas é a ProPublica, que com seus 53 jornalistas encara a missão de “usar a força moral do jornalismo investigativo para encorajar reformas através da cobertura sistemática das injustiças e contravenções.” Com prêmios Pulitzer na prateleira, ela parece fazer bem o trabalho.

Anualmente, eles publicam para os doadores relatórios assim:

URL original do quadro: https://medium2.global.ssl.fastly.net/max/1600/1*k_kYAqDDZhTimkaJCyoMWQ.png

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Veja que ao lado de cada grande reportagem (algumas levam anos na apuração), há um resultado concreto. Uma lei que foi mudada, funcionários afastados, investimento em determinada área. Apesar de ser menos comum do que gostaríamos, esse jornalismo-que-provoca mudanças é visível no Brasil também, especialmente nas muitas vezes negligenciadas editorias de Cotidiano ou Cidades.

Vi dezenas de reportagens do Correio Braziliense ou do SP-TV que mudaram de alguma forma a vida das pessoas. Sempre tivemos espaço para uma rua esburacada ou uma denúncia sobre a má conduta de um secretário de governo ou a cobrança indevida de alguma taxa. O repórter vai ao local, fala com a população atingida, cobra a autoridade e em dias ou semanas, há alguma mudança.

De novo: acontece menos, e são em coisas “micro”, mas elas acontecem. As redações sempre deram importância a isso, é claro — e premiações ajudam a lembrar que isso é parte fundamental da nossa missão — mas esse impacto sempre foi de certa forma tratado como um “bom efeito colateral” da atividade jornalística.

“Impacto pode ter sido uma medida de sucesso de uma redação há anos, mas isso nunca foi alinhado com o objetivo de quem é dono e controla os veículos”, diz Richard J. Tofel, presidente daProPublica, em um espetacular estudo explicando como eles medem o impacto.

E essa é a diferença fundamental: a ProPublica quer provocar mudança desde a reunião de pauta. E segue por meses depois, em seguidos follow-ups. Isso pode causar certa estranheza nos jornalistas mais tradicionalistas (afinal, veículos que querem causar impacto específicos têm uma “agenda”), mas é algo que precisa ser mais valorizado. Sem muita vergonha.

Center for Investigative Reporting, maior ONG de jornalismo dos EUA, em termos de financiamento, é outra organização na vanguarda da medição de impacto. Eles têm uma pessoa específica na redação, Lindsay Green-Barber, responsável exatamente por planejar e mensurar os efeitos “reais” das reportagens.

Conversei com ela recentemente, e ela me disse que cada redação entre as ONGs estava tentando, mas ninguém sabia como medir, de maneira precisa e sistemática, o impacto das reportagens. O importante para ela era seguir tentando fazê-lo, porque é importante também para as redações tradicionais. “O desafio da sustentabilidade é de todo mundo”, lembrou.

Por quê? Bem, quando o dinheiro da publicidade não for suficiente para cobrir os custos, e os leitores mais velhos pararem de renovar sua assinatura, precisaremos de outras formas de convencer as pessoas — novas — que vale à pena pagar pelo jornalismo. Dizer “você precisa ficar informado” não parece suficiente.

Mas mostrar uma tabela com diferentes formas em que o nosso trabalho está mudando a vida delas para melhor, em diferentes comunidades, é um caminho. Que precisa urgentemente ser melhor estudado, sistematizado e divulgado.

No próximo artigo, vou explorar como as diferentes medições de impacto mudam o dia-a-dia de algumas redações, através da incorporação de novas ferramentas. E as polêmicas que envolvem as ONGs de jornalismo que têm uma “causa”. Se você quiser ler mais sobre isso, veja o original em inglês.

***

Pedro Burgos, é jornalista formado pela UnB . Em 2014 publicou seu primeiro livro sobre a relação (muitas vezes não saudável) das pessoas com a tecnologia. Atualmente faz mestrado em Social Journalism na CUNY em Nova York.

 

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9 comentários

  1. Só observando!

    Quando vou para meu trabalho, de trem, paro em frente a um boteco para tomar café com bolo e nesses minutos fico assistindo ao “Bom dia SP” com R. Boccardi. Tem uma sessão chamada “Tudo anormal”. É pau na adm  Haddad todo santo dia, até parece que o jornal é especicífico do municipio, e não . É um telejornal do estado, me parece. No entanto noticias ruins só contra o prefeito.

    Por isso, quando o articulista diz que já viu várias reportagens que mudaram a situação da cidade, ele esqueceu de no alertar para o perigo de se fazer de programas telejornalisticos, esquema de venda de proteção a este e aquele grupo em detrimento e achincalhe de outros. Tais comportamentos são corriqueiros na mídia brasileira.

    Bem,mas o rapaz está fora, ou talvez  esvreva em perspectiva.

  2. Observado!

    Oi, Edivaldo!

    Eu que escrevi o texto. Mas então, morei 10 anos em São Paulo, sou de Brasília. E acho que é bem comum o jornal local falar de problemas da cidade. Acho que não é “exclusividade” do Haddad, e eles batem um bocado no Alckmin também, na questão da água e da polícia (hoje mesmo teve uma matéria sobre a ROTA). Pelo menos na TV nunca vi algo tão editorializado quanto é, digamos, a Jovem Pan recentemente ou a Veja SP. O SP-TV tem 6 versões diferentes dentro do estado, então acho normal também focar mais na cidade. Mas sei lá, faz tempo que não vejo tanto a Globo assim pra dizer e não vou ficar defendendo, mas eu queria lembrar de um prefeito de São Paulo que não foi coberto negativamente pela imprensa local, desde o Pitta. Não consigo lembrar.

    Mas enfim, realmente quando eu falo de que é preciso fazer reportagem e ver depois se deu algum resultado, entendo que isso pode ter algum risco. Em última instância, dá pra dizer que a Veja tinha como objetivo com aquela última capa evitar a eleição da Dilma, e se isso acontecesse seria “impacto” e “sucesso”. Mas acho que há uma diferença clara em servir “o bem público” e o seu grupo de interesse. E quando falo de impacto não falo de lobby ou advogar para uma causa. Em outro texto eu desenvolvo isso melhor. 

  3. A FOLHA

    Nos 20 anos da Folha na internet, conheça sonhos, valores e costumes tecnológicos da geração de brasileiros que já cresceu conectada

     

    http://temas.folha.uol.com.br/folha-20-anos-na-internet/a-geracao-conectada/jovens-brasileiros-tem-sonhos-e-valores-bem-tradicionais.shtml

    Perto de completar 95 anos, a Folha é jovem. Deixou de ser só de papel e estreou na internet há apenas 20 anos, com a FolhaWeb, lançada em 9 de julho de 1995.

    Por volta dessa mesma época, nascia uma geração chamada por especialistas de “nativa digital”. Quando seus integrantes foram alfabetizados, já existia no Brasil a internet comercial, que chegou ao país em 1995 –ainda que levasse alguns anos até que ela se popularizasse.

  4. Sucesso só se você for chapa

    Sucesso só se você for chapa branca ai não falta patrocinio.

    Se você for contra o governo do PT você vai penar para ter patrocinio, não importa se você tiver 15 milhões de visitas ao mês, as empresas são coagidas pelo PT.

     

    • Você diz que é reacionário.

      Você diz que é reacionário. Reacionário não é sinônimo de burrice e desinformação. Quem tem patrocínio do governo é a grande mídia.

      Você queria o que? Que a tal medida de distribuição de verbas oficiais “mídia tecnica” não destinasse propaganda alguma para blogs que tem 4, 5 milhões de acessos/mês? Se os blogs alternativos não existem o que você faz aqui?

      Entre 2003 e 2012 a Veja recebeu R$ 31 772 624 de propaganda governamental, a revista Carta Capital R$ 3 517 204,00.

      A Globo, do Merval, Cristiana Lobo, Catanhede, Sardenberg, Waack recebeu 6,02 bilhões de reais em verbas governamentais nos governos do PT.

      Então para de falar bobagem.

      • Eu nem falei em verba

        Eu nem falei em verba pública.

        Vou dar um exemplo o antagonista não consegue patrocinio apesar do sucesso de publico porque as empresas tem medo do governo do PT.

         

        • Os antagonistas estão

          Os antagonistas estão abrigados nos portais G1, Uol, Veja, Jovem Pan etc. A verba do governo os patrocina indiretamente.

          Empresas com medo do governo do PT?  De onde você tirou isso? A Fiesp apoia quem? A CNI apoia quem?

          Falando em patrocínio as empresas brasileiras apoiam tanto atividades afirmativas que dos 141 medalhistas do PAN, 121  são patrocinados pelo governo. Não se trata de patrocínio, trata-se da vergonhosa elite brasileira que sepultou a CPI do HSBC e vai sepultar a Zelotes e a da CBF.

          • “Empresas com medo do governo

            “Empresas com medo do governo do PT?”

            Claro contrarie o governo para você ver, do contrário não recebem mais nada.

            Muita ingenuidade sua pensar que o governo não ameaça tudo e a todos que não “colaboram”.

            “Você tem obras na Petrobras e tem aditivos, não pode só contribuir com isso. Tem que contribuir com mais. Eu estouprecisando”,

             

  5. Como medir eu não sei. Mas

    Como medir eu não sei. Mas que a imprensa tem um poder gigantesco, com certeza tem. O fascismo e a intolerância que grassam no país foram gerados pelo poder da imprensa. O poder das radios de São Paulo impedem qualquer ação afirmativa para a cidade se não for produto do Psdb. E como o Psdb se lixa para a cidade, a cidade de São Paulo é o que é: um caos atravessado por dois rios de merda.

    Na entrevista do Haddad aos blogs sujos fica claro o poder de manipulação da imprensa. Preço das ciclovias: 33 milhões. Preço da ponte estaiada do Kassab : 184 milhões. Preço do  monotrilho de 3 quilometrosdo Alckim: 6 bilhões de reais (e funciona só 5 horas por dia). Pergunta para qulaquer paulistano qual o obra mais cara e dispendiosa feita na cidade de São Paulo? E pergunta qual obra é mais usada e atende toda cidade?

     

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