Por Antonio Nelson
Dos blogs do Portal LN
Maracatus, Afoxés, e a ditadura midiática com Claudio Rabeca
ESPECIAL CARNAVAL VENEZA BRASILEIRA 2013
Interculturalidade de Pernambuco
ENTREVISTA EXCLUSIVA
“Muitas vezes, a grande mídia, além de reservar pouco tempo nas suas programações para a cultura popular, realmente não sabe fazer direito, ou não quer fazer direito. Não lembro, por exemplo, de ter visto um Globo Repórter, exclusivo, falando de Maracatu ou Frevo, ou qualquer outra manifestação, com detalhes, pesquisa etc. Sempre fazem caricaturas mal feitas”.
Cláudio Rabeca – compositor, cantor, produtor
Por Antonio Nelson*
Ele foi discípulo do Mestre Salustiano. Com apenas dois meses de aula com o Mestre Salu já tocava na Rabeca diversos gêneros musicais da cultura pernambucana. Seu desafio inédito! Tocar chorinho na Rabeca. Cláudio Rabeca – compositor, cantor, produtor do CD Rabequeiros de Pernambuco e do DVD Cavalo Marinho Estela de Ouro, líder do Quarteto Olinda, carrega no íntimo a constante ambição de fazer a Rabeca chorar. Tirar lágrimas da Rabeca. Cláudio Rabeca se debruça com profundidade no estudo histórico do Chorinho.
Na entrevista exclusiva, para o Portal do Nassif, Cláudio ( propaga sua arte na cibernética musical no mundo do ciberespaço: https://soundcloud.com/claudiorabeca/cd2-05-rabeca-enxerida-cl-udio / https://soundcloud.com/yurirabid/sets/quarteto-olinda )
Em conexão com Públius Lêtulus, Mamelungos, Academia da Berlinda etc. Além disso, Cláudio destaca a massificação dos meios de comunicação de massa quanto aos valores culturais, as tradições e preservação da cultura popular, a importância do estudo da música no ensino básico, entre outros temas.
No sábado de carnaval, 09 de fevereiro, Cláudio toca com Quarteto Olinda em Águas Belas (PE) – 20:00 h. Já na segunda-feira, 11, o Quarteto Olinda faz apresentação no Sítio de seu Reis (Olinda/PE) – 15:20 h. Com o Maracatu Estrela Brilhante do Recife: Domingo – Pólo das Agremiações – 23:30 h, e na egunda – Noite dos Tambores Silenciosos – Pátio do Terço 23:00 h. Confira a entrevista!
Antonio Nelson – É verdade que vocês estão mobilizando a “diáspora” de Pernambuco, ou seja, que outros Estados e países conheçam a importância interculturalidade de Pernambuco através do reconhecimento exterior primeiramente, e depois no Brasil? Há pouco tempo vocês fizeram uma turnê na Europa, e nos Estados Unidos. Qual o conceito deste “movimento”, e por que a necessidade de determinadas ações?
Cláudio Rabeca – Não tem “movimento”, infelizmente. Nossas turnês e contatos são feitos um a um. As duas turnês que fizemos na Europa foram sem incentivo nenhum. Fomos com a cara e a coragem, graças a produtores (as) que acreditaram no potencial da banda. Nossa busca sempre é para ganhar mercado, seja ele em Pernambuco, no Brasil ou no exterior. Porém, acho que esse “movimento” está acontecendo no mundo todo, e faz tempo, aqui se faz com um sotaque diferente, com uma intenção, que talvez possa parecer diferente. O mundo vive em ciclos, talvez estejamos passando por esse, mas nada garante que daqui uns anos, tudo isso caia por terra e voltemos a ser “caretas”!! he He
Antonio Nelson – Como é a experiência de tocar na comunidade Alto José
do Pinho? Você também é do Maracatu Estrela de Ouro. Qual a importância dos Pólos descentralizados no Carnaval de Pernambuco. O Alto José do Pinho, e os maracatus tem um valor riquíssimo para o Patrimônio da Humanidade? Esta diáspora também é necessária em outros Estados?
Cláudio Rabeca – Toco a 10 anos no Maracatu Nação Estrela Brilhante do Recife, que fica no Alto José do Pinho, Maracatu que foi fundado em 1906. Só tenho alegrias nesses anos todos, aprendo dia a dia, a comunidade recebe muito bem as pessoas “de fora”, e tocar meu tambor de macaíba é uma das coisas que mais gosto de fazer na vida!
Toco também há oito anos no Cavalo Marinho Estrela de Ouro, do município de Condado, Zona da Mata Norte de Pernambuco. Nesse Cavalo Marinho tenho a honra de tocar num brinquedo que é referência, tocar num Cavalo Marinho me ajudou a desenvolver mais técnicas na rabeca, pois considero uma das principais escolas desse instrumento em Pernambuco.
Sobre os Pólos descentralizados do Carnaval, acho que é uma medida inevitável, pois o carnaval de Pernambuco é gigante, não daria para acontecer em um ou dois locais apenas, seria quase impossível. O que acho que tem que acontecer é uma valorização maior para a cultura popular. O frevo, os maracatus, os afoxés e os caboclinhos, por exemplo, perderam espaço para outros gêneros de música, dentro do que se intitulou carnaval multicultural, acho que a balança tinha que pesar um pouco mais a favor desses grupos tradicionais, que realmente dão a cara do carnaval.
Antonio Nelson – É preciso uma mobilização do Brasil para subverter a história da música “brasileira”?
Cláudio Rabeca – Dentro das artes, os chamados movimentos, geralmente acontecem sem um planejamento, ou coisa pensada. Penso que o Brasil tem uma história musical belíssima, que continua sendo bem escrita. O mundo conhece o Brasil e tira o chapéu para o Brasil. Não acredito muito em uma “mobilização do Brasil”, pois acho que o artista, na maioria dos casos, se preocupa primeiramente com sua arte, é uma pena o artista ter que virar empresário e articulador da sua carreira, mas é o que está acontecendo entre os ditos independentes.
Antonio Nelson – Quais as inversões de valores culturais que mais inquieta lhe inquieta no Brasil?
Cláudio Rabeca – Fico “P” da vida com a pasteurização das coisas, geralmente a grande mídia é responsável por isso, pois ela vende “produtos que dão certo”. E a cultura entra nesse mercado de vendas, onde quem tá fora disso, é obrigado a ser chamado de alternativo, conseqüentemente ficam à margem.
Antonio Nelson – O mercado musical de Pernambuco está saturado?
Cláudio Rabeca – Tem muita coisa boa sendo feita aqui, em todos os gêneros. O que precisamos, em minha opinião, é fortalecer o mercado privado, fazer o público pagar para nos ver tocando, coisa que é difícil, quando se tem tanta coisa acontecendo de graça. Enquanto isso, as viagens vão salvando as contas!!!
Antonio Nelson – O uso das tecnologias, e a distribuição de downloads
das composições, especialmente pela geração de músicos pernambucanos
pós década de 1990, que são precursores desta façanha, tem ido além
das fronteiras do mercado. Há um deslumbramento com os dispositivos
tecnológicos, ainda estamos na pré-história do uso inteligente da música no cibermundo?
Cláudio Rabeca – Acho que isso vai longe, e a tecnologia não para, ela é feroz… Quem não se conectar a ela poderá ficar para trás!! Sou a favor do uso da tecnologia sim, ela é uma forte aliada.
Antonio Nelson – Qual o seu conceito sobre música de mercado?
Cláudio Rabeca – Para mim é música que vende! se vende muito ou pouco é outra questão. Talvez, alguns afirmem: “Essa música não tem mercado!”. Toda música tem mercado, afinal existe aquela velha frase: “tem gosto pra tudo”.
Antonio Nelson – Qualidade tornou-se secundária?
Cláudio Rabeca – De jeito nenhum!!! Sendo um virginiano convicto, sofro correndo atrás da perfeição.
Antonio Nelson – Existe crítica musical no Brasil, na acepção correta
da palavra crítica? Quem são os críticos?
Cláudio Rabeca – Não sou de ler muita crítica, mas acho que existem bons críticos. Meus críticos favoritos são alguns músicos daqui, do Recife mesmo, pois estamos numa cidade muito exigente musicalmente, e antenada com o que se faz pelo mundo. Yuri Rabid é um ótimo crítico, por exemplo.
Antonio Nelson – A grande mídia dita o que o povo deve escutar?
Cláudio Rabeca – Sim!!
Antonio Nelson – A grande mídia ainda reforça muito o clichê (apenas o Frevo) de que Pernambuco é só Frevo, ou os Caboclinhos, Maculelês, Maracatus, Ciranda, Coco, – ritmos e gêneros de Pernambuco já estão no domínio público? Há um jogo de interesse político e midiático em concentrar o Brasil no eixo Rio/São Paulo, ou quando se trata de outros Estados os valores simbólicos são tratados com estigma?
Cláudio Rabeca –“Muitas vezes, a grande mídia, além de reservar pouco tempo nas suas programações para a cultura popular, realmente não sabe fazer direito, ou não quer fazer direito. Não lembro, por exemplo, de ter visto um Globo Repórter, exclusivo, falando de Maracatu ou Frevo, ou qualquer outra manifestação, com detalhes, pesquisa etc. Sempre fazem caricaturas mal feitas”.
Antonio Nelson – Quais são seus ícones da música “local”, nacional e internacional? Por quê?
Cláudio Rabeca – Aqui em PE, gosto muito dos trabalhos de Siba, Mestre Luiz Paixão, Caçapa, Coco Raízes de Arcoverde, Hugo Linns, Maciel Salu, entre outros tantos… Dos nacionais sou fã de Elomar, Xangai, Gil etc. Gosto muito de alguns artistas da música instrumental como Hamilton de Holanda e Nicolas Krassik, e de fora, gosto de Fela Kuti, Ali Farka, Ross Daly, todos ligados a música tradicional de seus países.
Antonio Nelson – É possível viver de música independente no Brasil?
Cláudio Rabeca – Sim, com certeza! E ainda dá para tirar onda… He he
mas não é fácil, tem que se garantir, contar com a sorte e correr sempre atrás de novos rumos!
Antonio Nelson – Como é a experiência de tocar nas comunidades no Carnaval Multicultural, o povo tem acesso à arte de qualidade?
Cláudio Rabeca – A prefeitura do Recife coloca artistas de qualidade nos palcos espalhados por algumas comunidades, é a chance de muitas dessas pessoas terem acesso a esse tipo de música ao vivo, é um projeto que contrapõe a avalanche mercadológica que a comunidade “sofre”.
Antonio Nelson – O público pernambucano é exigente com música? Em
quais aspectos?
Cláudio Rabeca – Acho que o público que escuta música autoral, que gosta de bandas e artistas alternativos, é exigente, sim! Não saberei dizer os aspectos, só sei que é assim!
Antonio Nelson – O quê vocês sonham para Pernambuco, e para o Brasil?
Cláudio Rabeca – Que as crianças tenham educação musical de qualidade, que as cidades cresçam com sustentabilidade e que nossa cultura popular seja preservada sempre!
Antonio Nelson – Como é sua relação com o vernáculo, com a Língua Portuguesa? Como é o processo de criação? Intuição; fixações com palavras e imagens?
Cláudio Rabeca – Tento ser um cronista das minhas experiências, procuro escrever de forma simples!
Antonio Nelson – O quê representa para vocês Olinda e Recife? E o
Carnaval de Olinda?
Cláudio Rabeca – o melhor carnaval do mundo!!
Antonio Nelson – Há uma mentalidade equivocada para quem pensa que o
Carnaval de Pernambuco é puro hedonismo, ou seja, apenas o culto à
vida desregrada nos alcoólicos e sexo irresponsável?
Cláudio Rabeca – Tem isso também, mas além disso, temos uma cultura exuberante!!
Antonio Nelson – Tornou-se moda música híbrida?
Cláudio Rabeca – E faz tempo viu !!! Mas é importante dizer que não só de pão vive o homem, em todos os sentidos!
Antonio Nelson – Como nasceu à sinergia Cláudio Rabeca e o contrabaixista Yuri Rabid, – Quarteto Olinda e Academia da Berlinda? Confluências… Diferenças?
Cláudio Rabeca – Começamos a tocar no Quarteto Olinda em 2004. A energia das duas bandas é similar, pois celebramos a vida, a festa etc. Fazemos música para as pessoas dançarem. As diferenças??? Preciso da minha cerveja para tocar animado… Yuri talvez precise de uma tigela de açaí e um bom dia com ondas perfeitas!! He he
*Antonio Nelson é jornalista.
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