A demora do governo em acionar o BNDES, por Luis Nassif

É por isso que observadores internacionais apostam no setor, mais de 400 bancos espalhados pelo mundo, com ativos combinados de mais de US$ 11 trilhões

A economia global entrou em uma espiral em que os mercados literalmente colapsaram. Cadeias produtivas globais se esfarelaram, grandes companhias estão penando. Nos últimos dias, a Bloomberg tirou de sua carteira de títulos de referência de papeis de grandes companhias.

No caso da Ford, houve o rebaixamento de US$ 36 bilhões de suas dívidas. Os papéis da Occidental Petroleum viraram lixo. Apenas em março houve um recorde de US$ 90 milhões em dívidas que se tornaram pó. O Bank of America estima que o total do ano poderá chegar a US$ 200 bilhões.

O ponto central é que não há precedente histórico para o que está ocorrendo com a economia mundial. Com os mercados desaparecendo, qualquer esperança de recuperação futura passa pelo setor público; e, nele, pelos bancos de desenvolvimento.

Historicamente, bancos de desenvolvimento foram criados para suprir falhas do mercado privado. Em geral, foram utilizados para financiamento às exportações, financiamentos de longo prazo de obras de infraestrutura, apoio às pequenas e microempresas, desenvolvimento de cadeias produtivas.

É por isso que observadores internacionais apostam no setor, mais de 400 bancos espalhados pelo mundo, com ativos combinados de mais de US$ 11 trilhões, de acordo com a Agência Francesa de Desenvolvimento (70%), correspondendo a cerca de 70% dos ativos de todo o setor bancário dos Estados Unidos. Anualmente, os BDs emprestam US$ 2 trilhões a cada ano, ou 10% do investimento econômico global.

Há vários tipos de banco – segundo estudos publicados por Stephany Griffith-Hons, Regis Marodon e José Antonio Ocampo (https://tinyurl.com/tpux2rd). A mais global é o Banco Mundial; o maior é a China Develpment Bank, com US$ 2,4 trilhões. O mais promissor era o banco dos BRICs, até a saída da perna brasileira, no governo Temer. Até seu desmonte, iniciado também no governo Temer, o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) brasileiro era considerado um banco modelar.

Caberá aos bancos de desenvolvimento a dura tarefa de reerguer a economia mundial e de ser um ponto de apoio para as economias emergentes.

Os autores apresentam três pré-condições para a boa operação dessas instituições – todas elas plenamente praticadas pelo BNDES

Primeiro, uma governança transparente, eficiente e responsável com autonomia na tomada de decisões. Esse papel do BNDES foi severamente comprometido pela atuação irresponsável do Ministério Público Federal, levantando suspeitas infundadas sobre operações normais, por desconhecimento dos mecanismos de mercado;

O segundo ponto é ter escala suficiente, o que pode exigir que os governos forneçam capital adicional. Desde Temer, piorando com Paulo Guedes, o BNDES foi obrigado a se desfazer de grande parte de seu funding, por mero capricho ideológico.

O terceiro ponto, é dispor de instrumentos apropriados para permitir mobilizar financiamento privado suficiente. O BNDES dona amplamente esses mecanismos. Na crise de 2002, teve papel essencial na captação de recursos de organismos multilaterais, quando os bancos estrangeiros decidiram sair do Brasil.

O que segura a atuação do BNDES são dois pontos. Um deles, a postura irracional de Paulo Guedes, ampliando o desmonte do banco. O segundo, a irresponsabilidade dos Bolsonaro, de colocar à frente da instituição um executivo cujo único mérito era ter sido companheiro de farras de Eduardo Bolsonaro.

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