A Folha de hoje traz um exemplo didático de como transformar uma “não-matéria” em manchete principal. Refiro-me à reportagem sobre Fábio Luís Lula da Silva.
Trata-se de um jogo curioso, mas recorrente. O Globo comanda o espetáculo, como ocorreu no início frustrado da “Lava Jato 2” — interrompido pelo áudio de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro. A Folha e o Estadão seguem o passo. Quando o Globo percebe que “virou o fio” e recua, os outros dois permanecem em inércia, insistindo no erro e na auto-desmoralização do jornalismo.
Ocorre o mesmo nesta pantomima envolvendo Fábio Luís e Roberta Luchsinger. A cobertura extrapolou qualquer norma de bom senso, expondo os “jornalões” a uma opinião pública cada vez mais exigente — justamente o público que a mídia deveria conquistar para sobreviver à competição com as redes sociais. Diante de reações contrárias expressivas, o Globo interrompeu a cobertura, mas a Folha seguiu em frente.
Confira a reportagem abaixo:

Falharam três tentativas de venda de canabidiol ao Ministério da Saúde. Seria notícia se alguma tentativa tivesse sido bem-sucedida. Logo, a manchete estampa uma não-notícia. Qualquer editor responsável relegaria o material a um plano secundário. Contudo, a crise da mídia parece ter soterrado esse controle básico de qualidade.
O restante da matéria é um “cozidão”. Segundo informações que obtive em Brasília, os dados referem-se, possivelmente, a uma parte do banco de dados considerada irrelevante pela Polícia Federal. A PF descarta, mas o ministro André Mendonça garante o vazamento.
Vamos analisar a estrutura da reportagem:
- Parte 1 (606 caracteres): Repete a tese da “suposta atuação conjunta” de Fábio Luís com o tal “Careca do INSS”, sem trazer fatos novos. Termina com o chavão sobre “comunhão de interesses” e a suposta condição de “beneficiário indireto” de Lulinha.
- Parte 2 (592 caracteres): Recicla a informação batida sobre o empréstimo a Marcola.
- Parte 3 (580 caracteres): Abre espaço para a defesa de Fábio Luís repetir suas críticas à Polícia Federal e menciona mais uma tentativa fracassada de lobby no Ministério da Saúde.
- Parte 4 (1.502 caracteres): O repórter tenta, inutilmente, alertar o editor sobre a fragilidade do tema. Informa que Swedenberger Barbosa (Ministério da Saúde) se esquivou, esclarecendo que a regularização do canabidiol é prerrogativa da Anvisa. Repete a história do envio do projeto a Marcola — que afirma não ter dado encaminhamento — e traz, finalmente, dois pontos novos: a inviabilidade do plano (segundo fontes do mercado e do governo) e a constatação de que a compra centralizada pelo ministério faria pouco sentido, dado que estados e municípios já suprem a demanda via judicialização.
- Parte 5 (599 caracteres): Aborda outros planos vazados pela PF que também não se concretizaram. Especialistas em licitações consultados consideram o valor citado (R$ 1 bilhão) fora da realidade das compras públicas.
- Parte 6 (951 caracteres): De forma desconexa, insere episódios envolvendo o “Careca” e descontos do INSS, sem qualquer relação direta com o canabidiol.
Apenas 26,2% da matéria contém informações novas (para a Folha). Em suma: uma não-matéria alçada a manchete principal da Folha.
A verdadeira reportagem, contudo, ainda não foi escrita:
“Como uma aventureira de Miraí, que se dizia descendente dos fundadores do Credit Suisse, passou a perna no Careca do INSS”.
A realidade é outra. Um lobista competente desenharia operações factíveis e os caminhos para executá-las. Roberta Luchsinger, ao que parece, desconhece as práticas básicas de compras do Estado. Imaginou operações inviáveis e convenceu o “Careca do INSS” de que, valendo-se da amizade com Lulinha, tornaria possível o impossível. Conseguiu vender “nuvens” para o seu interlocutor.
É caso para o “Careca” entrar com uma ação de indenização, não para o Ministério da Saúde responder por contratos que nunca existiram, mas para ser ressarcido dos gastos com Roberta Luchinsiger.

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