25 de agosto de 2026

Agência Xeque: Careca do INSS deve pedir indenização à lobista

Apenas 26,2% da matéria contém informações novas (para a Folha). Em suma: uma não-matéria alçada a manchete principal da Folha.

Folha destaca três tentativas frustradas de venda de canabidiol ao Ministério da Saúde envolvendo Fábio Luís Lula da Silva.
Globo interrompe cobertura após críticas, mas Folha mantém a manchete principal sobre o caso sem novidades relevantes.
Matéria revela que planos de compra são inviáveis e que lobby no Ministério da Saúde não teve sucesso nem contratos firmados.

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A Folha de hoje traz um exemplo didático de como transformar uma “não-matéria” em manchete principal. Refiro-me à reportagem sobre Fábio Luís Lula da Silva.

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Trata-se de um jogo curioso, mas recorrente. O Globo comanda o espetáculo, como ocorreu no início frustrado da “Lava Jato 2” — interrompido pelo áudio de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro. A Folha e o Estadão seguem o passo. Quando o Globo percebe que “virou o fio” e recua, os outros dois permanecem em inércia, insistindo no erro e na auto-desmoralização do jornalismo.

Ocorre o mesmo nesta pantomima envolvendo Fábio Luís e Roberta Luchsinger. A cobertura extrapolou qualquer norma de bom senso, expondo os “jornalões” a uma opinião pública cada vez mais exigente — justamente o público que a mídia deveria conquistar para sobreviver à competição com as redes sociais. Diante de reações contrárias expressivas, o Globo interrompeu a cobertura, mas a Folha seguiu em frente.

Confira a reportagem abaixo:

Falharam três tentativas de venda de canabidiol ao Ministério da Saúde. Seria notícia se alguma tentativa tivesse sido bem-sucedida. Logo, a manchete estampa uma não-notícia. Qualquer editor responsável relegaria o material a um plano secundário. Contudo, a crise da mídia parece ter soterrado esse controle básico de qualidade.

O restante da matéria é um “cozidão”. Segundo informações que obtive em Brasília, os dados referem-se, possivelmente, a uma parte do banco de dados considerada irrelevante pela Polícia Federal. A PF descarta, mas o ministro André Mendonça garante o vazamento.

Vamos analisar a estrutura da reportagem:

  • Parte 1 (606 caracteres): Repete a tese da “suposta atuação conjunta” de Fábio Luís com o tal “Careca do INSS”, sem trazer fatos novos. Termina com o chavão sobre “comunhão de interesses” e a suposta condição de “beneficiário indireto” de Lulinha.
  • Parte 2 (592 caracteres): Recicla a informação batida sobre o empréstimo a Marcola.
  • Parte 3 (580 caracteres): Abre espaço para a defesa de Fábio Luís repetir suas críticas à Polícia Federal e menciona mais uma tentativa fracassada de lobby no Ministério da Saúde.
  • Parte 4 (1.502 caracteres): O repórter tenta, inutilmente, alertar o editor sobre a fragilidade do tema. Informa que Swedenberger Barbosa (Ministério da Saúde) se esquivou, esclarecendo que a regularização do canabidiol é prerrogativa da Anvisa. Repete a história do envio do projeto a Marcola — que afirma não ter dado encaminhamento — e traz, finalmente, dois pontos novos: a inviabilidade do plano (segundo fontes do mercado e do governo) e a constatação de que a compra centralizada pelo ministério faria pouco sentido, dado que estados e municípios já suprem a demanda via judicialização.
  • Parte 5 (599 caracteres): Aborda outros planos vazados pela PF que também não se concretizaram. Especialistas em licitações consultados consideram o valor citado (R$ 1 bilhão) fora da realidade das compras públicas.
  • Parte 6 (951 caracteres): De forma desconexa, insere episódios envolvendo o “Careca” e descontos do INSS, sem qualquer relação direta com o canabidiol.

Apenas 26,2% da matéria contém informações novas (para a Folha). Em suma: uma não-matéria alçada a manchete principal da Folha.

A verdadeira reportagem, contudo, ainda não foi escrita: 

“Como uma aventureira de Miraí, que se dizia descendente dos fundadores do Credit Suisse, passou a perna no Careca do INSS”.

A realidade é outra. Um lobista competente desenharia operações factíveis e os caminhos para executá-las. Roberta Luchsinger, ao que parece, desconhece as práticas básicas de compras do Estado. Imaginou operações inviáveis e convenceu o “Careca do INSS” de que, valendo-se da amizade com Lulinha, tornaria possível o impossível. Conseguiu vender “nuvens” para o seu interlocutor.

É caso para o “Careca” entrar com uma ação de indenização, não para o Ministério da Saúde responder por contratos que nunca existiram, mas para ser ressarcido dos gastos com Roberta Luchinsiger.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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