4 de junho de 2026

Aloysio Nunes e sua guerra infantil na internet

Por indicação de um amigo visitei hoje a página de um senador do meu Estado. Em tom de brincadeira Aloysio Nunes incentiva as pessoas a bater panelas durante a propaganda do PT https://www.facebook.com/aloysionunes/videos/896707770370959/ .

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Este pequeno vídeo poderia ser objeto de longas digressões sobre Política e discurso político, com referências eruditas a Aristóteles,  Niccolò di Bernardo dei Machiavelli, Hannah Arendt, Carl Phillip Gottlieb von Clausewitz e até Jacques Lacan. Mas não vou me dar ao trabalho de fazer isto, pois a atitude do senador é infantil. E dentro deste campo, o das molecagens, é perfeitamente possível encontrar um paradigma que ajudará a compreender o verdadeiro sentido do vídeo em questão.

Em “Os Meninos da Rua Paulo” (1969), filme de de Zoltán Fábri com base na obra de Ferenc Molnár, dois grupos de garotos disputam o controle de um terreno baldio. A disputa evolui para uma guerra infantil, com regras, armas permitidas, hora marcada para a batalha e critérios para definir o vencedor. O resultado, conduto, é trágico. O mesmo tema é explorado de outra maneira em “A Onda” (2008), filme alemão em que, como parte de um trabalho em grupo, adolescentes são organizados em bases análogas ao nazismo. A brincadeira resulta em fortalecimento da identidade grupal, discriminação dos alunos que não fazem parte do grupo e atos de violência.

A diferença entre estes dois filmes é pequena. O primeiro se baseia num romance húngaro de 1907, que pode ser classificado como Realista. A obra Ferenc Molnár explora os processos que levam à formação e ao fortalecimento dos grupos humanos, bem como aos inevitáveis conflitos entre grupos distintos que disputam a mesma coisa. O segundo, apesar de ambientado na moderna Alemanha, tem como pano de fundo uma experiência social que ocorreu em 1967 na Califórnia, EUA.

Os seguidores de Aloysio Nunes foram convidados a participar de uma experiência política infantil. Eles não passam fome, mesmo assim devem bater panelas por razões exclusivamente partidárias. O inimigo, o PT, precisa ser simbolicamente rejeitado porque seu programa televisivo só veicula mentiras. O senador, como sempre ocorre em experiências deste tipo, presume ser ele mesmo a única fonte autorizada da verdade. Ele não conta mentiras. Só os petistas fazem isto. Não há qualquer possibilidade dos petistas dizerem verdades e do autor do vídeo contar mentiras.

A sociedade brasileira é, assim, convidada pelo senador maroto a se dividir em dois campos antagônicos. Entre eles a Terra de Ninguém, que logo ficará arrasada. Isto ocorrerá no exato momento em que os telespectadores perceberem que é bem mais eficaz parar de bater panelas na frente da TV e jogar as mesmas nos “outros”, os eleitores do PT. Se os “outros” revidarem, a identidade do grupo agressor será reforçada. Então, as crianças crescidas instigadas por Aloysio Nunes começarão a recorrer às suas facas, facões, pistolas, fuzis, etc…, obrigando os “outros” a se defender com igual intensidade. O senador brincalhão assumirá, então, o comando de suas tropas.

Todos os brasileiros são iguais perante a Lei. A discriminação política e partidária é proibida, os partidos com registro no TSE não podem fomentar ou financiar organizações paramilitares ou fazer propaganda da violência como forma de coagir seus adversários ou os eleitores. Por razões muito óbvias, a CF/88 contém uma regra basilar que limita o “campo político”:

“Art. 19 É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I-estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;

II- recusar fé aos documentos públicos;

III- criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si.”

O senador brincalhão, contudo, parece não estar muito interessado na preservação da normalidade constitucional. Ele fomenta uma guerra simbólica que pode evoluir para a criação de distinções e preferências políticas entre os brasileiros. Nunes parece querer criar ou fortalecer um grupo que exclua totalmente um “outro” grupo.

O vídeo analisado evoca a tragédia do filme  “Os Meninos da Rua Paulo” e propõe uma experiência social parecida com aquela que ocorre em “A Onda”. No limite, a brincadeira virtual de Aloysio Nunes pode levar fanáticos a fazer a seguinte distinção: “Você que faz parte do PT só pode ser mentiroso, deve ser isolado e exterminado. Você que concorda comigo está falando a verdade e pode ser preservado.”  A única questão que o senador precisa responder é a seguinte: Quando for confrontado com o resultado trágico de sua brincadeira ele está disposto a sangrar dentro e fora do Senado Federal ou dirá apenas que está brincando?

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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