A jurista e advogada Luciana Bauer, autora do livro A Democracia Indiferente, participou de uma entrevista com Lourdes Nassif, jornalista e editora-chefe do GGN, para discutir as profundas crises que corroem a democracia contemporânea. A obra de Bauer protagonizou a segunda edição do Clube do Livro GGN entre setembro e outubro de 2025.
Durante a entrevista de encerramento do Clube, Bauer argumentou que, embora a democracia seja a única via de salvação, sendo o protótipo de como as sociedades distribuem bens desde a Grécia antiga, o sistema atual falha em operar plenamente para todos, especialmente no Brasil.
A indiferença democrática se manifesta dolorosamente em eventos como a violência de estado, exemplificada pelos massacres no Rio de Janeiro (como na Penha), que Bauer classifica como um princípio de genocídio resultante de políticas públicas de anos que criam comunidades sem direitos em contraste com bairros nobres privilegiados.
Para a jurista, a questão não reside propriamente na democracia, mas sim no sistema eleitoral e político que as próprias sociedades criaram, que frequentemente deixa de trabalhar pelo bem comum.
Um sintoma dessa falha é a baixíssima representatividade, com menos mulheres no poder do que na Arábia Saudita, e a exclusão de negros, quilombolas e indígenas, resultando em um eleitor apático ou, pior, que acusa a democracia em vez das elites que se apropriaram do sistema.
O retorno à paideia ecológica
Diante deste cenário, Bauer propõe a necessidade do retorno à paideia ecológica. Inspirada em pensadores como Paulo Freire e na paideia grega antiga (que ensinava o homem a defender sua terra e a ser político), esta educação deve ser o caminho para reverter a manipulação algorítmica e a apatia.
“A gente tem que voltar a ensinar as crianças a ter amor pela democracia. É uma coisa que a Suíça (que tem uma democracia direta, muitos plebiscitos) ensina muito bem. As crianças são ensinadas na escola a tudo opinarem, e a se informarem sobre o que têm que votar. Então a paideia ecológica é a ideia de que temos de ter um futuro ecológico. Temos que ensinar as crianças a respeitar a pluralidade na democracia, e isso tem que ser ensinado como os gregos ensinavam, por meio da educação e de todos os instrumentos pelos quais a gente molda as crianças e adolescentes”, disse Luciana Bauer.
Bauer lembra que a extrema-direita coordenada globalmente utiliza mecanismos como “fazendas” de bots (cujo volume pode chegar a 42 milhões de contas, capazes de manipular eleições), lucrando com plataformas que minam a antiga ágora de discussões. A paideia ecológica vem na contramão dessa manipulação, visando ensinar desde cedo o amor e o gerenciamento da democracia, preparando a sociedade para um futuro que é inerentemente ecológico, dada a iminência do colapso climático.
A refundação do contrato social
O enfrentamento do colapso ecológico exige uma redefinição do contrato social. Partindo dos direitos de vida e saúde (Iluminismo) e das garantias sociais (República de Weimar), é preciso agora incorporar os direitos difusos da natureza, surgidos na década de 1970 a 1980.
Essa refundação passa pela urgente necessidade de abandonar o sistema capitalista atual. Bauer critica o capitalismo de extinção – termo que define a crença de que o mundo é infinito e resiste a qualquer exploração – que evoluiu para um financismo improdutivo (capital improdutivo, conforme Dowbor), priorizando ações e bolhas em Wall Street em detrimento da produção ou do bem-estar social.
O exemplo da crise de 2008, onde o Estado salvou bancos em vez das pessoas que perderam suas casas, gerou uma raiva que foi rapidamente capitalizada pelas Big Techs, que monitoram e transformam o cidadão em produto a ser oferecido.
A jurista ressalta que este capitalismo de extinção, representado pelo modelo ocidental (EUA), precariza o trabalhador e ignora os limites planetários da Terra, dos quais sete dos nove já estão em estado crítico.
Em contrapartida, Luciana Bauer cita o planejamento da China, que, apesar de ter sido o “chão de fábrica do mundo” e sofrer com poluição extrema, está se tornando um player geopolítico através de uma refundação tecnológica ecológica. Este novo modelo busca a inovação trabalhando com recursos finitos, exemplificado pela invenção de baterias de carro elétrico à base de sal, que são menos poluentes e impactantes do que as de lítio.
A exploração de recursos
No contexto brasileiro, a ameaça desse capitalismo predatório é literal, especialmente na questão da mineração. Embora Bauer não seja contrária à exploração de minerais críticos se feita com máxima segurança, a exploração de terras raras em Poços de Caldas (MG) é considerada inviável por estar ao lado de uma mina de urânio a céu aberto. A ruptura do repositório de rejeitos radioativos desse local representaria um “Chernobyl” que contaminaria rios e vastas regiões (como Ribeirão Preto) por 50 mil anos. Bauer critica a opacidade do Estado e a irresponsabilidade das empresas mineradoras (com capital ínfimo de R$ 100.000) que não teriam como arcar com a catástrofe.
A mensagem final da jurista é um chamado à ação, inspirada pelo pensamento indígena de que se deve decidir pensando na sétima geração. É preciso sair da letargia, pois a democracia não pode mais ser indiferente ao caos climático e ambiental que será legado às futuras gerações. Concluindo com o otimismo da luta, Bauer afirma, ecoando Ailton Krenak, que o futuro não está à venda, e a democracia precisa ser defendida e mantida presente.
Confira a entrevista completa abaixo:
Nota da Redação: O Jornal GGN utiliza ferramentas de Inteligência Artificial para transcrever o conteúdo de vídeos e transmissões ao vivo do canal TV GGN, no Youtube. Os textos são feitos com base na programação, que contém entrevistas realizadas pelo jornalista Luís Nassif e a equipe do GGN, além de análises e debates promovidos por outros coapresentadores e comentaristas do canal. As ferramentas não adicionam material externo ao conteúdo escrito. Todo material produzido com auxílio de I.A. é revisado e editado por um jornalista do GGN antes da publicação.
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