As semelhanças entre Witzel e o nazista Eichmann

Como Eichmann, Witzel jamais determinou que inocentes fossem mortos e, por isso, como Eichmann, não se sente culpado nem responsável

Foto: Agência Brasil

Por Tiago Zapater

No Justificando

Eichmann, Witzel e a banalidade do mal no Rio de Janeiro

Otto Aldof Eichmann e o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, têm mais em comum do que a origem alemã. Ambos fizeram carreira militar e compuseram a burocracia do funcionalismo público, embora apenas Witzel tenha exercido um cargo eletivo.

Eichmann era casado, pai de quatro filhos, tocava violino e praticava esportes. Religioso (protestante calvinista) e patriota, chegou a tenente-coronel, tendo sido agraciado com a cruz de ferro e com a cruz de mérito da guerra. Suas últimas palavras foram vivas à pátria (Alemanha, Áustria e Argentina) e a Deus (“morro a acreditar em Deus“).

Aluno medíocre, Eichmann não terminou os estudos e foi trabalhar na empresa mineradora de seu pai por alguns meses e, mais tarde, em uma empresa petrolífera em Salzburg. Filiado ao partido nazista desde 1932, quando perdeu o emprego em 1933, retornou à Alemanha e ingressou na SS, uma milícia ligada ao partido nazista. Com a ascensão do partido ao poder, a SS tornou-se uma grande organização burocrático-militar que passou a controlar as forças policiais do Estado Alemão. Pela SS, Eichmann ascendeu na carreira rapidamente e passou a integrar o gabinete responsável por lidar com a questão judaica. Funcionário leal e eficiente, veio a se tornar responsável por supervisionar os transportes de judeus, primeiro nas campanhas de emigração e deportação forçada, para fora dos territórios do Reich e, depois da Conferência de Wannsee, para os campos de extermínio.

O julgamento de Eichmann

Witzel também é casado e pai de quatro filhos. Nascido em Jundiaí, no interior de São Paulo, formou-se no curso técnico de topografia e, aos 18 anos, ingressou na Escola de Formação de Oficiais da Marinha, onde alcançou o posto de segundo tenente. Formou-se em direito e fez carreira como professor. Contudo, apesar de mestre em processo civil e doutorando em ciência política, sua produção científica é desconhecida ou pouco relevante. Durante dezessete anos foi juiz federal, e pediu exoneração para concorrer ao cargo de governador do Rio de Janeiro, que ganhou. Apesar de católico, Witzel defende e vem implementando no Rio de Janeiro uma política de autorização para o abate de criminosos por policiais. Não apenas em situação de confronto, mas pessoas portando fuzil ou em situação suspeita, de modo geral, poderiam ser abatidas. São palavras suas: “a polícia vai mirar na cabecinha e… fogo“.

Eichmann nunca foi um político, mas também não era apenas um burocrata organizando os horários dos trens. Ele tinha consciência do que ocorria nos campos de extermínio, tendo inclusive chegado a testemunhar uma execução em massa de judeus em Minsk. Correspondência e documentos levantados por ocasião do seu julgamento mostram que a preocupação principal de Eichmann era efetuar o transporte dos judeus da maneira mais econômica possível, minimizando impacto sobre operações militares.

Witzel, por sua vez, não é apenas um idealizador das políticas de abate, ele acompanha pessoalmente operações e tem ciência dos assassinatos. Mais do que isso, aplaude e incentiva o abate pela polícia buscando, já desde a campanha, utilizar mortes de criminosos para a promoção de seu projeto político.

Quando foi julgado pelos seus crimes, Eichmann insistiu em que apenas cumpria ordens e chegou a escrever, no seu recurso de apelação, que não se sentia responsável nem culpado pelas mortes, já que as decisões tinham vindo de seus superiores. Já Witzel, quando acusado pela imprensa de que sua política de abate causa mortes de inocentes (além de outras coisas, como fazer vista grossa para milicianos e áreas dominadas pelas milícias), defendeu-se acusando os críticos de quererem fazer palanque político sobre caixões.

A acusação de Witzel é irônica. Diante do assassinato da menina Ághata, Witzel não só colocou a palavra da vítima em dúvida (questionando se teria sido mesmo um policial o autor do tiro), como relativizou a tragédia no contexto da suposta redução da violência no Rio de Janeiro:  21% de homicídios dolosos a menos que no ano passado, embora com um aumento de 16% nas mortes provocadas pela polícia. Para Witzel, a morte de Ághata estaria no encontro desses dois números (menos homicídios, mais mortes causadas pela polícia), servindo a um bem maior.

A desumanização parece ser o maior horror das diferentes formas e graus do totalitarismo estatal. Vítimas e algozes são tratados como meras engrenagens a serviço do Estado e dos projetos pessoais dos governantes de ocasião. A polícia do Rio não é só a que mais mata no mundo, é também a que mais morre. E em troca do que esses policiais, com péssimos salários e condições de trabalho, matam e morrem? Em troca do que inocentes, como Ághata, são baixas aceitáveis? Em nome de um projeto político pessoal de Witzel.

Essa é a banalidade do mal no Rio de Janeiro: a morte de Ághata é celebrada como parte de uma política tida como no caminho certo. Ou seja, quando muito, um dano colateral em uma ação correta e, portanto, uma morte vista como necessária nos planos do governador.

Para Hannah Arendt, Eichmann representava a banalidade do mal justamente por que não lhe parecia um psicopata sádico, mas um homem vulgar, ordinário, um funcionário leal e cumpridor de ordens.  Eichmann, diferentemente de Witzel, não definia as políticas de extermínio, apenas providenciava as condições materiais e operacionais para que elas fossem executadas com a máxima eficiência possível. Não se sentia responsável pelas mortes, pois essas mortes decorriam de decisões tomadas pelos seus superiores.

Witzel é responsável por definir políticas de extermínio. No entanto, como não participa diretamente da organização das condições materiais para execução dessas políticas, não se sente responsável pela morte da menina Ághata. Afinal, como Eichmann, Witzel jamais determinou que inocentes fossem mortos e, por isso, como Eichmann, não se sente culpado nem responsável.

Vinte anos depois do fim da Segunda Guerra, Eichmann foi julgado por um Tribunal em Israel, condenado à morte e enforcado em 1º de junho de 1962.

Tiago Zapater é professor de Direito Ambiental da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e mestre e doutor em Direito pela mesma.

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3 comentários

  1. Uma das pragas lançadas pelo voto sobre o nosso estado…
    porque coincidiu de ser no interesse do estado, mas pessoal, conforme dito em campanha, e no interesse do eleitor

    se o TSE não encontrar uma forma de proibir este tipo de propaganda em campanha, muitas outras pragas serão lançadas sobre todos pelo voto

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