Censura marca festival de rock e reflete em Carnaval do Recife

Organizadores do Facada Fest, do Pará, prestam depoimento à Polícia Federal. Em Pernambuco, artistas são ameaçados pela PM ao cantar canção de Chico Science

Jornal GGN – Os efeitos do cerco contra a cultura alimentado pelo atual governo está em evidência. No último dia 27, os integrantes do festival de rock Facada, do Pará, tiveram que prestar depoimento à Polícia Federal, acusados pelo ministro Justiça, Sérgio Moro, de crimes contra a honra de Jair Bolsonaro e apologia à violência. O ato de censura não é isolado, também na semana passada artistas que se apresentaram no Carnaval do Recife denunciaram o autoritarismo da Polícia Militar de Pernambuco. Esse é o retrato por trás das manifestações culturais no país de Bolsonaro.

O festival Facada Fest aconteceu em junho passado e não registrou nenhuma ocorrência policial. Mas, em despacho assinado por Moro e pelo Procurador Geral da República, Augusto Aras, a organização do evento é acusada de crimes por causa da ilustração do cartaz da festa, que mostra o triunfo da educação sobre o obscurantismo, com um palhaço empalado por um lápis. 

Os organizadores denunciam que a perseguição sobre o festival começou em junho do ano passado, quando cerca de duas dezenas de viaturas da Polícia Militar, Polícia Civil, Choque, Secom e Bombeiros foram mobilizadas para reprimir o evento, que chegou ser cancelado e só foi realizado um mês depois. 

A festa aconteceu com shows de rock, punk rock, hardcore, rap, oficinas de reciclagem e compostagem de lixo, exposição de artes plásticas, leitura de poesia e ainda contou com arrecadação de brinquedos para o instituto Bianca e Adriele, que cuida de crianças carentes na região metropolitana do Pará.

Em nota, o Facada Fest criticou a perseguição contra um festival de música, enquanto o país enfrenta problemas como degradação ambiental da Amazônia e a relação entre políticos e milicianos, além de declarar o direito à manifestação cultural.

“Seguiremos em frente. Certos de que o bom senso e a justiça prevalecerão. E que, em respeito a nossa Constituição, o direito à atividade artística e à liberdade de expressão será assegurado”, diz a nota. 

A censura não para 

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Com o fim do Carnaval do Recife, artistas relataram a repressão da Polícia Militar de Pernambuco contra as apresentações. Ameaças de prisão e de acabar com as performances musicais marcaram os shows nos palcos descentralizados. 

Pelas redes sociais, a banda Janete Saiu Para Beber relatou o abuso da PM durante show no dia 24, na rua do Apolo, Recife Antigo. A situação teria acontecido porque os artistas tocaram a música “Banditismo por uma questão de classe”, de Chico Science e Nação Zumbi. 

“Enquanto tocávamos ‘Banditismo por uma questão de classe’, a Polícia Militar fez uma barreira entre o público e a banda. Tivemos que parar o show com ameaça de levar nosso vocalista preso!”, relatou o grupo nas redes sociais.

A situação foi revertida pela produção da banda, que ouviu dos PMs que “Chico Science não pode tocar”. A música, parte do álbum “Da Lama ao Caos” (1994), do grupo Nação Zumbi, diz em um dos trechos “em cada morro uma história diferente e a polícia mata gente inocente”.

O cantor da banda Devotos, Cannibal, também relatou que ao tocar “Banditismo por uma questão de classe” no polo da Várzea, Zona Oeste do Recife, no dia 25, a PM ameaçou encerrar o show. 

“A gente faz uma intervenção de uma música nossa com a música Banditismo, de Chico Science. Fazemos isso desde uma apresentação no Festival de Inverno de Garanhuns em 2002. Quando a gente terminou de tocar e foi para a música seguinte, a produção me avisou que a PM disse que se a gente cantasse mais uma música falando mal da polícia, eles iam acabar o show”, disse o cantor ao G1.

À reportagem do G1, a banda Janete Saiu para Beber também repudiou a ação. Em nota, o grupo afirmou que “repudia o acontecimento de censura e repressão em seu show por parte da Polícia Militar, por conta de uma homenagem a Chico Science, um dos maiores artistas pernambucanos, reconhecido mundialmente por seu legado cultural que influencia até hoje os mais diversos artistas conscientes de seu papel contra as mazelas da sociedade”.

Em nota sobre os casos, a PM de Pernambuco “negou proibição de exibição de músicas”.

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